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novo mundo
E-TEXTO

Poéticas Digitais
Por Giselle Beiguelman

Livro discute as especificidades da escrita eletrônica

Loss Pequeño Glazier é um nome referencial das letras digitais. Fundador e diretor do Electronic Poetry Center, é também professor de escrita criativa da State University of New York at Buffalo.

Bibliotecário e poeta, é o responsável pela organização de um vastíssimo diretório de autores, revistas e editoras dedicadas à poesia contemporânea, disponível para consulta no site do EPC. Além disso, ele foi um dos membros da comunidade virtual que desenvolveu o sistema operacional Unix (o primeiro a utilizar linguagem de programação C, nos idos de 1979).

Recentemente, resolveu transformar esse invejável background em um livro: “Digital Poetics”, em que se desvencilha da enfadonha missão de explicar os artíficios do texto eletrônico e recusa-se a reduzir suas representações emocionais a meros emoticons (caractaretas, em tradução livre, como p. ex. : ) , que significa felicidade).

Seu objetivo é discutir a materialidade da escrita eletrônica, a partir do que considera seus formatos básicos: hipertextos, textos visuais ou animados e mídias programáveis. Não chega a fazê-lo exaustivamente, mas pontua, como ninguém, algumas questões essencias que podem se transformar em paradigmáticas para definir a escrita digital.

Loss é erudito e exemplar de uma nova tradição intelectual, mais próxima do perfil do russo Lev Manovich, que desfaz o abismo entre ciência, tecnologia e ciências humanas. Fala de Java, Flash e HTML, com a mesma séria naturalidade que destina a seus comentários sobre William Blake, Borges, Augusto de Campos, Barthes ou Baudrillard.

Mistura essas distintas abordagens para apresentar algumas dúvidas:

“Quais são os atributos definidores do e-texto? Qual é a relação que existe entre o código e textualidade? O que precisamos para ler nesse meio?”.

Aparentemente simples, as dúvidas vão se desfazendo com argumentos surpreendentes, que removem qualquer traço de banalidade das questões.

Acima de tudo, aprende-se com o autor, é preciso demolir algumas web utopias, a começar ilusão de que tudo está ou pode ser linkado pelo fato de estar escrito em hipertexto.

Loss entrevê aí uma armadilha conceitual e afirma: “A constitução de uma totalidade desse tipo poderia apenas fazer uma representação, equivocada, de estabilidade, que não passaria de mais uma perseguição da miragem conhecida como enciclopédia. Os arranjos das ordens internas dos textos não lhes conferem estabilidade, antes lhes dão uma perturbadora instabilidade. E é esse ‘fracasso’ dos links, seja quando funcionam ou não, que ativa o texto eletrônico. E é através dessa atividade que a escrita eletrônica se descola, irreversivelmente, do mundo da imprensa”.

Lembra, acentuando os riscos dessa aspiração totalizadora, que o sucesso institucional da biblioteca está diretamente ligado ao fato de manter uma tensão entre a ordem externa dos livros e a interna dos textos, sendo que essa última contém e excede em tudo a primeira.

Por pender mais para a enciclopédia do que para a biblioteca, na internet, ironicamente, privilegia-se a ordenação interna entre os textos, tentanto fazer tudo se ligar, e não a criação de mecanismos de organização capazes de lidar de uma massa de textos mutantes.

Os programas de busca utilizam vários métodos de pesquisa e indexação, mas todos são falhos, diz Loss, com tranqüilidade. Prova disso é receber “450 mil prováveis respostas em uma busca sobre poesia”, mostra o autor.

Aprender a lidar com essa textualidade instável passa não só pelo questionamento dessa ordem apaziguadora e aleatória que prevalece nos programas de busca, mas, também, pelo reconhecimento de que ler é uma atividade que pressupõe linkagem, desde sempre. Afinal, em síntese, um texto é sempre um emaranhado de leituras diversas do autor e do leitor.

É necessário ainda, nos recorda, reconhecer que a literatura contemporânea se faz a partir de um diálogo com as vanguardas históricas, o concretismo e as experiências com mimeógrafo e xerox dos anos 60 aos 80 e “Digital Poetics” tem grandes passagens retrospectivas e balanços bibliográficos excelentes (teóricos e literários).

Mas é urgente tomar consciência de que só se pode falar em poesia feita em novas mídias, se essa poesia não puder ocupar o formato do livro, ou mais precisamente o do codex medieval.

Isso porque as poéticas digitais são compostas de uma textualidade que, por suas caracteríticas estruturais e operacionais, não podem ser reproduzida, em nenhum meio que não seja digital, pois dependem da instabilidade de sua matéria-prima.

Conjunto de ensaios díspares, escritos em diversas épocas e publicados em versões preliminares na internet, “Digital Poetics” por vezes pode deixar o leitor perdido, pois algumas idéias são apresentadas em fragmentos que se espalham ao longo dos capítulos, exigindo do leitor um percurso completo para que aprenda todas as suas indispensáveis lições.

Talvez isso seja fruto da própria condição fluída e mutante do e-texto, que Loss Glazier compreende e conceitua tão bem, matriz original da maior parte dos capítulos desse livro de papel, contra o qual às vezes seus conteúdos parecem se rebelar, solicitando ao leitor que recorra também aos três apêndices que o autor já lhe adicionou, novamente on line, como e-texto, não seria demais recordar...

Afinal, já sabemos, seguindo o autor, que o sucesso dessa escrita digital só se realizará por um processo em que “cada palavra, cada link, seja uma reinscrição, uma hiperinscrição, uma oportunidade de manter Ramsés, a um só tempo, dentro e fora de sua tumba, em um lugar de ação ao invés de decadência”.

Por tudo isso e muito mais, basta então concluir: “Digital Poetics” é uma obra fundamental.

link-se
Electronic Poetry Center - http://epc.buffalo.edu/e-poetry
Loss Pequeño Glazier - Digital Poetics: The Making of E-Poetries, The University of Alabama Press 2002 - www.uapress.ua.edu

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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