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dossiê
LITERATURA NO LIMITE

"Nunca fui confundido com um santo", diz Leroy
Por G.W.

Na entrevista a seguir, J.T. Leroy, autor de “Sarah”, fala sobre suas andanças sem rumo pelos Estados Unidos com a mãe e conta como a terapia o transformou num escritor. “Tenho de escrever sobre o que tenho de escrever. É como se eu não escolhesse, mas fosse escolhido”, disse ele, por telefone, de sua casa, em San Francisco.


Quanto de você está em Cherry Vanilla, personagem central de “Sarah”?

J.T. Leroy: Muito. Quer dizer, acho que tem muito da minha adolescência. É claro que eu nunca andei sobre as águas nem fui confundido com um santo, como no livro, mas a essência do que eu sou e o jeito como eu me sentia na adolescência estão realmente lá.

Quão disseminada é a prostituição infantil nos Estados Unidos?

Leroy: Acho que as pessoas querem negar a sua existência, sabe? Mas a prostituição infantil é uma grande questão em todo o país. Acho que as pessoas gostam de pensar que, como os Estados Unidos são uma nação desenvolvida, isso não acontece aqui, mas acontece.

Você é de West Virginia? Antes de ir para San Francisco, por onde passou?

Leroy: Por todos os lugares, acho que conheci todos os Estados. Minha mãe não acreditava muito em ficar num lugar por muito tempo.

Qual é a sua percepção da vida nos Estados menos conhecidos dos EUA?

Leroy: No interior, as coisas não são muito evoluídas. É como se fosse um outro mundo, mais selvagem. Um mundo bem diferente da cidade, onde todas as coisas estão bem amarradas. Há muitos lugares totalmente desconectados do mundo exterior. São locais rurais, mágicos.

É desse universo que saem as referências mágicas do seu livro, como a cobra preta que indica má sorte e o osso de pênis de racum, usado como amuleto sexual?

Leroy: Sim, esse mundo é completamente verdadeiro. Eu cresci ouvindo essas histórias antigas, folclóricas. Cada cultura tem visões diferentes do mágico. As pessoas acham que, como os Estados Unidos são um país desenvolvido, isso se perdeu, mas ainda é uma cultura presente.

Quais são as diferenças entre estar na estrada, sempre viajando, e viver nas paradas de caminhão onde ocorre a prostituição?

Leroy: Quando você fica num lugar só, tem de ficar mais atento para não atrair a atenção das autoridades. Acho que você consegue escapar disso quando está na estrada, se movimentando. Quando você pára num lugar, estabelece relações com as pessoas e fica por mais tempo, é mais fácil de chamar atenção. Em relação a outras coisas, não sei se existe diferença.

Quando você chegou a San Francisco e decidiu ficar?

Leroy: Minha mãe estava aqui foi quando eu tinha 13, 14 anos. Depois foi embora. Tentei ir atrás dela algumas vezes, segui-la, mas acabava voltando, tinha meu terapeuta aqui.

Você ainda a vê?

Leroy: Ela morreu. Mas é muito presente. Se estivesse por aqui quando o livro saiu, acho que teria me matado. Realmente, acho que é isso que ela teria feito.

Você tem uma formação religiosa, como lida com a religião hoje?

Leroy: Eu rezo. Um monte de coisas horrorosas foram feitas em nome da religião. As pessoas exterminaram os judeus por causa de religião, e isso é insano. Eu acredito na espiritualidade. Ainda escrevo sobre a Bíblia porque tenho um bocado de culpa cristã. Acho incrível que a gente viva a nossa vida e até chegue a matar por conta de histórias que foram escritas por outras pessoas. Há séculos e séculos alguém pegou esse livro e disse: “Esse é o Evangelho, vamos matar as pessoas que discordam disso”. O que eu quero dizer é que foram apenas pessoas que escreveram aquilo. E elas nem testemunharam os fatos. Se você tomar a Bíblia por ficção, vai se dar melhor.

E quando você começou a escrever ficção?

Leroy: Eu sempre escrevi, mas comecei de fato aos 14 anos, com meu terapeuta.

Era um processo de psicanálise?

Leroy: Na verdade não, era mais terapia. Ele é professor na Universidade de San Francisco. Queria me convencer a escrever e disse que estava tentando ensinar as pessoas a ser terapeutas e que eu poderia escrever mostrando como são as coisas na realidade, para lhes ensinar. Gostei da idéia, realmente me tocou.

Como você desenvolveu a sua escrita?

Leroy: Lendo diversos autores e trabalhando com outros escritores, como Mary Gaitskill, Dennis Cooper, Tobias Wolff. Na verdade, lendo muito e escrevendo muito. Para mim, o principal é ler e perceber quais são as coisas que gosto no trabalho dos outros.

Qual é o seu relacionamento com Mary Gaitskill?

Leroy: Ela é maravilhosa, foi fantástica. Ela me deu um monte de gente para ler. Eu lia tudo o que ela me dava, Nabokov, Flannery O’Connor...

O que mudou na sua vida depois da fama?

Leroy: Nada, na realidade. Eu ainda não tenho dinheiro. Pessoas falam: “Ah, você é famoso!”. Mas para mim nada mudou, a não ser o fato de eu não poder sair ou de me pagarem uma passagem para eu ir a Nova York encontrar pessoas interessantes, me divertir, essas coisas. As pessoas acham que só de ver o seu nome numa revista, isso se traduz em dinheiro. Não é o meu caso.

“Sarah” vai ser dirigido por Gus Van Sant, qual é a sua parte no filme?

Leroy: Ajudei um pouco no roteiro. Acho que vou me envolver naquilo que ele quiser, é a viagem dele nesse momento, sabe?

Você está excitado com a idéia de ver Sarah no cinema?

Leroy: É claro que eu penso nisso o tempo todo. Eu sinto como se eu tivesse filmado “Sarah” em vez de ter escrito.

Em seus projetos futuros você tem planos de escrever de um modo menos confessional?

Leroy: Eu escrevi um roteiro para a HBO. Estou num projeto agora... (Pausa) Tenho de escrever sobre o que tenho de escrever. É como se eu não escolhesse, mas fosse escolhido.

G.W.
Guilherme Werneck é jornalista da "Folha de S. Paulo".

 
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