1
dossiê
LITERATURA NO LIMITE

O meteoro J.T. Leroy: de prostituto a escritor
Por Guilherme Werneck

Como um meteoro de um de seus contos, o escritor norte-americano J.T. Leroy, 22 anos, chegou com um estrondo e abriu uma cratera na nova literatura dos Estados Unidos.

Ele publicou seu primeiro romance, “Sarah” (Bloomsbury, 166 págs.), sobre seu relacionamento conflituoso com a mãe, em 2000. Um ano depois, voltou a explorar o mesmo tema nos contos de “The Heart Is Deceitful Above All Things” (O Coração É Enganoso Acima de Todas as Coisas, Bloomsbury, 147 págs.). Os dois livros já foram traduzidos para 13 línguas, mas ainda não têm previsão de sair no Brasil.

Tanto em "Sarah" como em "The Heart...", Leroy estabelece um diálogo com os escritos da contracultura. No romance, a agudez narrativa e o gosto pelo fantástico remetem à escrita de um William Burroughs, ao passo que a perversidade não deixa nada a dever à crueza de um J. G. Ballard, de "Crash".

O mais interessante é que Leroy consegue dosar todo o lado negro do sonho americano com um personagem tão sedutor quanto um Dean Moriarty, de "On the Road" (de Jack Kerouac). Leroy alcança seus melhores momentos em "Sarah", ao jogar com esse claro-escuro, com a sedução e a repugnância, interpondo fantasia à crueldade de sua história.

Já em "The Heart...", ainda que abordando a história do mesmo personagem, anos antes, muito do fantástico, do respiro poético, se perde. Dá lugar a um texto mais direto e mais realista. Os contos têm uma direção mais precisa, e Leroy demonstra com eles maior domínio sobre a sua escrita.

"The Heart..." indica o quanto ele avançou estilisticamente, embora, como escritor, ainda resta provar se ele conseguirá se desvencilhar de seu passado. O fato de ele basear sua literatura na conturbada história de vida que teve resulta, sem dúvida, no tempero mais saboroso dos livros, mas é também a sua fraqueza mais evidente.

Leroy começou a escrever aos 14 anos, por recomendação de seu terapeuta, Terrance Owens. O professor da Universidade de San Francisco queria que ele falasse de sua experiência de abusos diversos para colocar seus alunos em contato com a realidade.

Filho de uma adolescente em conflito com sua família, marcada por uma religiosidade extremada, Leroy nasceu em West Virgínia, em 1980, e logo depois foi dado para adoção. Viveu com pais adotivos até quase os cinco anos de idade, quando sua mãe recuperou sua guarda. Sem conseguir manter a família com um emprego de garçonete, ela pegou seu filho e caiu na estrada, se prostituindo ao som de punk rock. “Estivemos em todo o canto, em todos os Estados do país”, conta.

Leroy teve de se adaptar à vida de sua mãe e a seus inúmeros namorados e amantes. Como não conseguia travar uma relação sadia com ela, entrou num jogo de controle. Não demorou muito para que esse jogo incluísse os amantes de sua mãe e descambasse para o abuso. Primeiro vieram espancamentos e, depois, a violência sexual.

Para ser um peso menos difícil de carregar estrada afora, sua mãe fazia com que Leroy se fingisse de menina desde criança. Não demorou muito para que ele mesmo experimentasse a prostituição. Aos 14 anos, resolveu ficar em San Francisco, onde estava seu terapeuta. Aos 16, publicou seus primeiros contos e artigos, que assinava com seu nome de guerra nas ruas, Terminator (exterminador).

Em seu site, Leroy diz que o nome foi dado de brincadeira por seus amigos, quando um futuro cliente perguntou por ele. Por ser o oposto de um exterminador à la Arnold Schwarzenegger, Leroy adotou o nome, dizendo que lhe conferia um ar misterioso. Ele só deixou de ser Terminator com a publicação de “Sarah”.

O romance foi bastante bem recebido por grande parte da crítica. Para os que não gostaram de sua prosa, o que mais os incomodou foi o fato de o seu vigor narrativo estar separado por apenas uma linha tênue do sensacionalismo. Leroy também costuma irritar os críticos por ter criado um verdadeiro culto de famosos ao seu redor.

Entre os que confessaram seu amor por ele estão celebridades como o cineasta Gus Van Sant, a cantora Suzanne Vega e Shirley Manson, da banda Garbage, que chegou a escrever uma música a seu respeito.

Leroy teve o apoio de escritores consagrados, como Dennis Cooper, Mary Gaitskill e Tobias Wolff. Os três o ajudaram a amadurecer como escritor e a publicar “Sarah”, após horas de conversas telefônicas, indicações de leitura e revisões. Mas, antes disso, ele já escrevia para “Spin”, “Nerve” e “NY Press”.

Neste ano, Leroy deve dar mais um salto de popularidade. “Sarah” será levado ao cinema pelo diretor Gus Van Sant (“Garotos de Programa”, “A Procura de Forester”). Como se não bastasse, o escritor resolveu enveredar pelo caminho de modelo. Em fevereiro, posou para um editorial da revista inglesa “Pop Magazine”, fotografado pelo top Steven Klein.

Guilherme Werneck
É jornalista da "Folha de S. Paulo".

 
1