1
dossiê
LITERATURA NO LIMITE

Chloé Delaume e a experiência do inferno
Por Leneide Duarte-Plon

O livro “ Le Cri du Sablier” (O Grito da Ampulheta), segundo romance de Chloé Delaume, é a narrativa de uma “viagem” muito particular. Trata-se de uma viagem ao inferno que durou mais de uma “saison”, aquela que a escritora percorreu dos 10 anos até hoje.

Pelo livro, a jovem de 28 anos ganhou o prêmio francês Dezembro e um cheque de 30 mil euros (cerca de R$ 62 mil). E, com o livro, ganhamos o prazer de descobrir uma escritora madura, provada pela vida, dona de um estilo original, mestra na construção de uma língua própria, nova, subversiva, perfeitamente adaptada ao exercício de exorcismo a que serve. O livro poderia se chamar “Meus Demônios”.

No romance, Chloé Delaume conta sua história, a de seu pai e de sua mãe. Uma história a três, que se interrompe na cozinha, quando ela tinha 10 anos, com o assassinato da mãe pelo pai, seguido do suicídio, diante da menina, que escapa por pouco do acesso de loucura paterna. O livro é fruto da necessidade de acerto de contas com o pai, um libanês “parecido com Sacha Distel”, que um dia pegou a filha pela cabeça e decretou: “Eu ainda vou te matar”.. Em outra ocasião, disse-lhe o pai: “Você nunca deveria ter nascido. Nunca”.

Num texto enxuto, de frases curtas, em que não falta lucidez e do qual está ausente qualquer sentimento de auto-piedade, Chloé conta em várias passagens -como se fossem cenas cinematográficas tomadas por diferentes câmeras- o dia em que recebeu em pleno rosto pedaços do cérebro do pai, estourado por um tiro dentro da boca. Antes desse dia e depois dele, a vida afetiva de Chloé nunca foi um mar de rosas.

Depois de ser mandada pelos avós maternos para a casa dos tios, a vida da menina continuou um pesadelo. O marido da tia a odiava. A tia a acusava de manipular o psiquiatra contra o casal. “Ela seria designada sistematicamente como culpada pelos menores problemas domésticos, já que era evidente que ela era má”. A menina conheceu a crueldade física e mental antes e depois daquele dia inesquecível de um mês de junho.

O sofrimento costuma fazer feridas na alma. Para cicatrizá-las, alguns tornam-se santos ou eremitas. Outros escrevem livros. Chloé Delaume pôs ungüento nas suas feridas escrevendo um livro surpreendente. Nada de auto-compaixão ou declaração de guerra ao mundo cruel que não soube lhe dar amor.

Em vez disso, um texto cheio de ironia e inteligência, no qual Chloé demonstra seu desejo de se desfazer de tudo o que pode aproximá-la do pai odiado. Ela descobre que sua dificuldade com a matemática vem do fato de ter que lidar com algarismos arábicos, de origem árabe, como o pai nascido em Beirute.

O estilo é fragmentado, sem linearidade, uma catarse de tipo psicanalítico, em que a livre associação se impõe, muitas vezes, sobre a cronologia. O livro é um exercício de construção de um todo a partir de fragmentos, de pedaços de gente -pedaços do pai, da mãe e dela mesma. “Eu revirei a memória durante tantos anos. Sem jamais encontrar o menor fragmento amor.”

Artigos, preposições, vírgulas, tudo pode desaparecer das frases de Chloé, que ora é a narradora externa à ação, ora se dirige ao pai : “Você me jogou sua morte no rosto, naquele dia. Você me cuspiu seu fim, um cérebro de presente, como a mãe no passado me vomitou para a vida”.

Em alguns momentos, o texto de Chloé é pura poesia em prosa. Há trechos de uma beleza sublime, feitos para serem lidos em voz alta, para melhor apreciar assonâncias, aliterações, rimas. A autora ama as palavras, que colecionava desde pequena num caderninho, incentivada pela mãe professora de francês. E seu texto revela esse amor, o prazer com que ela manipula a língua, reinventando, recriando uma sintaxe subversiva.

A bela jovem de hoje, diretora literária de uma editora, não tem medo da auto-exposição -ela, que já se expôs suficientemente através do livro. Para o jornal « Libération », que fez o seu perfil, Chloé posou com elegância, com ar de menina assustada e não teve medo de falar do seu passado.

Ela estudou letras e cinema, leu Balzac, Flaubert, fez psicanálise, tomou psicotrópicos em hospital psiquiátrico, tentou o suicídio inúmeras vezes, mas sobreviveu. No livro, ela conta algumas das tentativas de suicídio. A morte não queria saber dela, mas ela insistia mais uma vez. “Distraída como é, um dia ela vai esquecer de respirar. Quem sabe, ela não consegue morrer.” Ganhou a pulsão de vida e nasceu a escritora.

Chloé -que depois da cena da morte dos pais passou nove meses sem dizer uma única palavra- descobriu que escrevendo recriava a si própria, podia zerar as contas com seu passado, fazer uma outra espécie de cura pela palavra. Como aquele escritor que procurou Freud para fazer psicanálise e ouviu do grande mestre de Viena a recomendação de continuar escrevendo e não fazer análise. Na escritura estava sua verdadeira terapia.

Leneide Duarte-Plon
É jornalista e vive em Paris.

1 - "Le Cri du Sablier" foi publicado na França por Farrago-Editions/Léo Scheer (12,96 euros).

 
1