1
dossiê
LITERATURA NO LIMITE

Fugas e escândalos de Annemarie Schwarzenbach
Por Eduardo Simantob

A liberdade é a chave da vida e da obra da escritora, jornalista, arqueóloga e aventureira suíça

A Suíça, essa complexa e minúscula confederação encravada no meio da Europa, sem a ela “pertencer”, tem passado por um processo impiedoso de revisão de seus tabus. Só nos últimos dez anos, os helvéticos viram cair por terra os fundamentos morais do sigilo bancário, da neutralidade e de sua própria identidade em relação ao resto do mundo, inclusive de seus vizinhos mais próximos e com quem dividem as mesmas línguas, economias e raízes.

Nesse processo de auto-esclarecimento coletivo, não é de espantar que um dos primeiros baús esquecidos a serem abertos pela arqueologia literária do século 21 seja o dos despojos da jornalista, escritora, fotógrafa, arqueóloga, viajante e aventureira suíça Annemarie Schwarzenbach (1908-1942). Que também era lésbica, viciada em opiáceos, antifascista e oriunda de uma das mais ricas e tradicionais famílias zuriquenhas.

A começar pelos irmãos Klaus e Erika Mann, filhos do velho Thomas, o círculo de amizades de Annemarie não poderia ser mais constrangedor para os Schwarzenbachs, indiscretos simpatizantes do nazismo -assim como boa parte da Suíça, não só a de língua alemã.

O célebre clã Mann exilara-se em Zurique logo depois da subida de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, e pôde, não sem algumas dificuldades, aproveitar da neutralidade suíça para continuar atuando politicamente. Em Zurique, Klaus, amigo íntimo de Annemarie, começou a trabalhar em seu projeto de revista de resistência, e Erika, o grande amor da escritora, pôde reabrir em outubro seu cabaret antifascista, fechado em fevereiro em Munique, o Pfeffermühle.

A intensa intimidade vivida por essas três figuras atormentadas em um período decisivo não só da vida pessoal de cada um deles como de toda a Europa, tornou suas biografias indissociáveis uma da outra. A convivência com os Mann, por outro lado, só fez aprofundar as cisões entre as escolhas e desejos de Annemarie e a sua família.

Uma saída radical foi necessária. Assim, 12 dias depois da estréia zuriquenha do cabaré de Erika, e antes que o local provocasse ondas de choque e escândalo para além do cantão, Annemarie S. partia em sua primeira viagem para a Ásia, sua primeira “fuga rumo ao inacessível”, que a forçaria “assumir definitivamente o desconforto e a solidão”.

O baú de despojos de Annemarie Schwarzenbach é razoavelmente extenso para seus breves 34 anos de vida, mas incompleto. Para sempre se perdeu toda a correspondência por ela recebida, queimada pela mãe logo após sua morte num acidente de bicicleta, durante uma temporada de desintoxicação nas montanhas da Engiadina.

Algumas poucas reportagens (e foto-reportagens pioneiras na Ásia, África e sul dos EUA), relatos, contos e cartas só começaram a ser republicados, e muito timidamente, a partir de 1988, quase 50 anos depois de sua morte. Dela, existem apenas cinco títulos traduzidos para o francês. Uma biografia apareceu na Alemanha, em 1996. É a única escrita até hoje.

O cinema e seus realizadores demoraram ainda mais tempo para se dar conta do rico espólio. Depois de “estrelar” no documentário “The Klaus and Erika Mann Story”, Annemarie S. ganhou um filme só para si, produzido no ano passado e exibido no canal francês Arte e em alguns cinemas europeus (“Schweizerin und Rebellin”/"Suíça e Rebelde", de Carole Bonstein).

Também nessa virada de ano, e depois de provocar um pequeno barulho no silencioso festival de Locarno 2001, entrou em cartaz o filme “Viagem ao Kafiristão”, dos irmãos Fosco e Donatello Dubini, reconstituição da última viagem da escritora à Ásia Central, de Genebra ao Afeganistão, feita a bordo de um possante Ford (motor V8 e “robustos” 18hp), em companhia da etnóloga Ella Maillart.

Duas mulheres cruzando desertos num carro, em 1939, é em si mesmo um feito no quadro da emancipação feminina do século passado, mas Annemarie S. não se sentia à vontade sob o rótulo de “aventureira”. Suas viagens eram, antes de tudo, fugas assumidas da asfixia européia do entre-guerras, da mãe dominadora e dos laços familiares, dos desencantos amorosos, da impotência diante do vício. Temas intrincados demais para os bem-intencionados irmãos suíços Dubini. A vida de Annemarie S. merecia, no mínimo, um Luchino Visconti.

Se o filme “Viagem ao Kafiristão” decepciona, a história de sua realização dá uma medida do quanto a memória de Annemarie S. ainda perturba a consciência nacional helvética. A única participação da Suíça na produção do filme, de cerca de US$ 1,2 milhão, foram magros CHF 60 mil (US$ 35mil) do cantão de Zurique. Do birô federal de cinematografia, a “embrafilme” suíça, nada. Em duas ocasiões o roteiro foi rejeitado, sem satisfações, por 14 votos a zero. O filme acabou sendo produzido em Colônia e Hamburgo com dinheiro alemão e holandês.

O cinema e a TV ressuscitaram seu “belo rosto de anjo inconsolável”, ao mesmo tempo em que a Suíça dos anos 30 reemerge em constrangedoras imagens escondidas por décadas. Um dos méritos do documentário de Carole Bonstein foi desenterrar os arquivos de filmes, não só da época, como da própria família Schwarzenbach, onde se misturam registros banais da vida doméstica com grandes eventos e festas oferecidos à elite helvética pela mãe da escritora, Renée Schwarzenbach -amante por longo tempo de uma famosa cantora lírica da época, uma das razões de seu desespero com as atitudes homossexuais escandalosamente públicas da filha.

A primeira incursão de Annemarie S. à Ásia significou a transição para um exílio intermitente que a acompanharia até o fim da vida, mesmo quando na Europa. E a fuga tampouco chegou a resolver, ou superar, qualquer angústia. Na verdade, criou uma montanha de novos dilemas.

Em seus relatos de viagem, a escritora vai pouco a pouco se dando conta de que a fuga é uma quimera. Primeiramente, é a grandeza do deserto que a perturba, a consciência de sua insignificância diante da natureza. Mais tarde, ela descobre que jamais conseguiria deixar a barbárie e a desesperança para trás, não importa quão longe chegasse.

Tal conflito afetou ad nauseam as suas relações pessoais, e em toda a sua obra a percepção de Annemarie S. balança como um pêndulo entre o desespero e a narcose, como o Álvaro de Campos entediado na Aden do “Opiário”: “E eu vou buscar ao ópio que consola/ um Oriente ao oriente do Oriente”.

O grande amigo e confidente Klaus Mann reconhecia que Annemarie “trabalhava como uma abelha”. Ele não era, porém, um entusiasta de sua literatura nem de sua atitude existencial, aos seus olhos extremamente alienante. Mesmo tendo colaborado de maneira decisiva, com dinheiro, para a revista de Klaus, Annemarie S. jamais teve sequer um artigo seu lá publicado.

Ela também teve raras edições em vida de suas novelas, apesar das recomendações elogiosas de Thomas Mann e Stefan Zweig aos seus próprios editores. Só em 1989 uma pequena editora de Basiléia as trouxe à luz, mas 6 das 18 novelas originais já haviam se perdido em quase meio século de esquecimento.

Os exílios evocados nas novelas fazem parte do mesmo universo de outros expatriados contemporâneos seus (a Europa dos anos 30 era pródiga em “gerações perdidas”). E, assim como nos contos do americano Paul Bowles, o abismo cultural entre Oriente e Ocidente encontra-se presente em cada linha, se não explicitamente, ao menos como uma grande nuvem escura cobrindo as paisagens idílicas que servem de cenário aos encontros ao acaso e aos desencontros irreparáveis.

A melancolia, os nós existenciais, as experiências extremas de vício e solidão, antecipam de maneira particular e quase intuitiva o inconformismo escapista que iria desabrochar com força somente depois da guerra e dar o tom de boa parte da literatura européia e americana da segunda metade do século.

Os breves contos são povoados de indivíduos em trânsito, cada um deles com um passado penoso. A dor e o desespero que essas pessoas carregam na bagagem é a da ruína européia, de todo um mundo que definhava.

A liberdade, ou a ilusão de liberdade, é a mola-mestra de suas andanças. É também o que confere pertinência e atualidade à sua obra e explicaria por que Annemarie S. exerce tanta atração agora sobre o público europeu da virada de milênio, sobre uma sociedade de afluência e bem-estar sem precedentes, mas que todavia não resolve os desejos mais intensos de “liberdade”. As fronteiras ficaram muito mais próximas, as distâncias mais fáceis e simples de serem percorridas, mas os caminhos continuam repletos de seres sem destino.

Eduardo Simantob
É jornalista e vive em Zurique.

1 - "Moinho de pimenta”; o local existe até hoje com o mesmo nome, mas seu passado esconde-se por trás de um bar-restaurante com respeitáveis mesas de bilhar.


2 - “Das Leben zerfetzt sich mir in tausend Stücke”, de Areti Georgiadou.


3 - Baseado no livro “In das Herz Asiens – eine Expedition von Ella Maillart und Annemarie Clark-Schwarzenbach”, editado em francês como “Où est la terre des promesses?".


4 - Dedicatória do livro “Confidence Africaine”, de Roger Martin du Gard.


5 - Nas coletâneas “Lyrische Novellen" e "Beim diesem Regen”, esta editada na França como "Orient Exils" (ed. Payot, 9,76 euros).

 
1