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dossiê
LITERATURA NO LIMITE

O mundo selvagem de James Kelman
Por Marcelo Ferroni

Os corpos estão espalhados por todos os cômodos de um edifício. Um homem tenta atravessá-los no escuro, parece procurar um sobrevivente no ambiente irreal. O próprio narrador parece perdido; não sabe se procura um amigo ou inimigo, por vezes o edifício lhe parece um sonho. Entre os mortos, reconhece um rosto de mulher, de uma família que morava em seu bairro. Pelo seu relato, desconexo, não se sabe o que ele está fazendo ali, nem de onde veio.

Em outro depoimento, militares armados sobem em um ônibus e arrancam um jovem à força; seus pais acompanham o que se passa do lado de fora, enquanto esperam sua partida. O rapaz se revolta, é morto na praça. O narrador, sentado em uma das poltronas do veículo, assiste a tudo. Sua indignação se mistura com uma descrição gelada dos fatos.

Há outros relatos desencontrados. Neles, mulheres são estupradas, pessoas se refugiam em prédios abandonados, outras desaparecem. No meio desse país desconhecido e vigiado, ao redor de depoimentos anônimos de seus sobreviventes, está o escritor escocês James Kelman.

Kelman, 56 anos, lançou no final do ano passado “Translated Accounts”, um livro totalmente diferente das obras que havia escrito até então: trata-se de uma série de narrativas (e pensamentos) em primeira pessoa, dos que vivem em um país imaginário em regime militar.

É um livro difícil, onde o delírio se mistura aos eventos reais, e o narrador não consegue discernir o que vê. Somado a isso, os relatos ficam ainda mais embaralhados pelo uso de um inglês enlouquecido: como se a série de testemunhos tivesse sido redigida em outra língua e traduzida para a britânica por alguém cuja língua-mãe não fosse a inglesa. São comuns, ao longo dos capítulos, frases como “These people do not see a place where you can have come”, ou “These men stood around, committing sexual acts together, he it was seated.”

Em outro trecho, ainda mais embaralhado, o texto se confunde com símbolos aleatórios, como se um arquivo de computador fosse incompatível com o processador de texto. “{ ,ì + _Â Templates:Normal ! There was no curfew that evening ‘@ Ùòo ǽ @ no, here was no curfew.”

E assim vão se compondo os relatos. Não há nomes, não se sabe nem quantos são os narradores. Um prefácio curto dá o tom da obra: “Esses ‘depoimentos traduzidos’ são de três, quatro ou mais indivíduos domiciliados [domiciled] em um território ocupado ou região onde uma forma de lei marcial parece em operação”. E o texto prossegue: “Em alguns poucos casos, as traduções foram modificadas por alguém ou um departamento de mais alto escalão”.

Parece brincadeira. Mas, sem dúvida, é uma brincadeira trabalhosa. Kelman começou a se debruçar sobre “Translated Accounts” em 1994, depois de publicar seu romance mais importante até o momento, “How Late it Was, How Late”. Até então, havia se tornado conhecido no Reino Unido por escrever de forma peculiar: o inglês vernáculo era substituído pelas gírias das ruas, pelos cacoetes escoceses de operários, bebedores de cerveja e freqüentadores de Pubs (“Eh aye, okay...”). E todos os seus livros abordavam o mesmo tema, a vida da classe operária escocesa.

Sua própria vida parece saída de um de seus livros. Desde cedo, Kelman já bebia, fumava e trocava as aulas pela sinuca. Abandonou a escola com 15 anos. Aos 21, começou a escrever. Com a carreira iniciada, foram cinco livros, romances e contos, que circulavam pelo mesmo cenário da vida operária. Com “How Late it Was, How Late” (o dia-a-dia nas ruas de Glasgow sob o ponto de vista de Sammy, um sujeito fracassado), Kelman recebeu o Booker Prize, um dos prêmios mais importantes do Reino Unido. Foi um resultado criticado. “Se você conhece a palavra ‘fuck’, então já compreendeu um terço da produção de Kelman”, escreveu um jornalista.

E, em 2001, depois de ter acumulado outros prêmios de menor importância (duas vezes o escritor escocês do ano), Kelman parece ter mudado radicalmente de campo. Onde se viam homens que gastavam seu parco salário em um pub, ou crianças jogando futebol em fábricas abandonadas, entraram os estrangeiros oprimidos.

E que guinada. Antes, seus livros eram escritos em um inglês oral, imitando o sotaque escocês para dar mais vida aos seus personagens. Agora, com “Translated Accounts”, há momentos em que o texto fica incompreensível: alguns relatos se perdem em delírios, em conversas quebradas entre personagens. Em outras passagens, quando o narrador parece ser mais objetivo, as situações são permeadas por violência física e psicológica. Pelo resultado final, tem-se a idéia de que não há escapatória dessa região oprimida. Os moradores (e os narradores) são acossados pelos chamados “securitys”, uma milícia que vive do abuso do poder. Alguns desaparecem, outros morrem. Os relatos, em suas quebras de tempo, em seus devaneios e suas confusões com o inglês, dão um ritmo caótico ao livro.

Por vezes, parece a resposta mais selvagem a “Admirável Mundo Novo”; o controle desenfreado do Estado sobre seus cidadãos. No entanto, a dificuldade imposta pela linguagem cria uma barreira na leitura. Afinal, pode-se gastar horas e horas tentando identificar os personagens e as situações de Kelman, para se chegar a um mesmo resultado: a violência.

“Translated Accounts” não esconde mais nada; sua confusão é que dá o tom da obra, de impotência frente ao abuso de poder. Não é preciso descobrir quem é quem, o que realmente ocorreu naquele edifício coberto por corpos, ou se alguém algum dia vai escapar ileso desse estado de sítio. Em relação com o que vem sendo publicado nos últimos anos por seus conterrâneos, Kelman dá mais uma vez mostras de que é extremamente corajoso.

Marcelo Ferroni
É jornalista e vive em Paris.

 
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