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novo mundo
CIBERCULTURA

Corpos solúveis
Por Giselle Beiguelman



Instalação de Michael Gleich
e Jeffrey Shaw/Divulgação

Exposição discute identidades no século 21 e acalenta sonhos de ciborgs

A Internet dissolveu os antigos nexos que atrelavam a subjetividade ao corpo. Permitiu e promove, especialmente nas comunidades virtuais, que se formam a partir de listas de discussão e salas de bate-papo, entre outros “espaços”, a construção de personalidades múltiplas corporificadas em entidades virtuais, como os avatares, que desintegram e multiplicam as identidades.

Em um mundo globalizado e mediado pelas telecomunicações, o corpo conectado às redes eletrônicas torna-se a interface entre o real e o virtual. Ao mesmo tempo em que se dilui, imbuído de uma negatividade que evoca sua inutilidade, duplica sua existência como telepresença e presença física.

São essas as premissas da exposição “Multiple Choices”, em cartaz no ZKM (Museu de Arte e Mídia da Alemanha), de 22 de março até 5 de maio, com curadoria de Sabine Himmelbasch, diretora de exposições dessa instituição desde 1999.

A identidade tornou-se uma questão de opção, afirma a curadora. De acordo com ela, a web possibilita que se gerem novas personalidades a partir da interação com outros sujeitos, fazendo com que a percepção se dilate, na medida em que nos replicamos de formas variadas e trocamos de papéis não por mudanças na aparência física, mas pelo uso de dispositivos lingüísticos, criação de apelidos e diferentes formas de expressão escrita.

Os modelos de comportamento e beleza também sofrem alterações profundas nesse contexto. Foi-se o tempo em que toda mulher arrojada queria ser um pouco Leila Diniz e que a beleza estonteante de Brigite Bardot era tudo que se podia imaginar como perfeição.

Hoje o processo é inverso. Modelamos nosso corpo real a partir de referências digitais. Nossos padrões e clichês, ressalta a curadora, nascem virtualizados em uma realidade midiática que corporifica Lara Croft e nos transforma em sua cópia real.

Com projetos de Manuela Barth e Barbara U. Schmidt, Felix Stephan Huber, Christin Lahr, Kristin Lucas, Björn Melhus, Anny Öztürk, Paul Smith, Milica Tomic, a exposição dialoga com o festival “Intermedium 2”, que ocupou a mesma instituição por três dias, e que tinha por tema as identidades no século 21.

Dividindo o espaço físico e virtual com instalações, perfomances, shows e 19 projetos on line, que incluem feras como Jeffrey Shaw e a dupla italiana radical da 0100101110101101.ORG, “Multiple Choices” questiona como os artistas respondem à desintegração da subjetividade, a perda dos limites entre real e virtual, identidades ficcionais, engenharia e manipulação genética e a aproximação entre homens e máquinas.

A riqueza e a complexidade dos trabalhos expostos, tanto no núcleo sob curadoria de Sabine, como no do projeto “Intermedium 2” como um todo, não deixa de fazer com que se pense em antigas polêmicas que ainda revigoram o controvertido “Manifesto Ciborg” da pós-feminista Donna Haraway, publicado pela primeira vez em 1991.

A tese de Haraway é que somos todos ciborgs e que a cibercultura tem por mérito dissolver os dualismos que pautaram até o momento o modo de pensar ocidental, como a oposição entre espírito e matéria, porque transgride a fronteira que separava o natural do artificial, permitindo pensar em um tempo pós-sexuado.

Um de seus críticos mais articulados, Mark Dery, contrapõe, em “Escape Velocity” (1996), a essa argumentação um raciocínio dissonante no coro apologético da robotização da humanidade. De acordo com ele, a cibercultura apenas criou uma novo dualismo: a oposição entre a carne mortal e pesada e o corpo etéreo e desencarnado feito de informação.

Dery é radical e chega a afirmar que essa apologia de ciborgs e fusões entre homens e máquinas, num contexto de proliferação de tecnologias de fabricação de novas versões dos corpos pela indústria cosmética e de cirurgia plástica, longe de nos liberar de nossa herança genética, apenas reforça a visão de mundo cristã e sua repulsa moral ao corpo e o sexo.

Diz o autor: “De bit a bit, estamos nos alienando de nossos corpos cada mais irrelevantes. (...) Essa alienação também traz embutida um ódio ao corpo, uma combinação de desprezo e desconfiança com relação a essa carne incômoda que representa o fator limitante dos ambientes tecnológicos”.

Desconcertante porque destoante do cenário homogêneo da produção cultural ligada às novas mídias, é curioso e sintomático que nenhuma das audazes obras em exposição no ZKM passe nem de longe pelas já célebres posturas críticas de Dery. Algumas são de fato excepcionais e a visita ao site do “Intermedium” é obrigatória.

Contudo, fica aqui aquela questão central de Dery e que teima em não querer calar: “No umbral do novo século, a tecnologia nos fará mais livres ou mais escravos?”.

link-se
Intermedium 2 - http://hosting.zkm.de/intermedium/e/
Donna Haraway, A Cyborg Manifesto - http://www.stanford.edu/dept/HPS/Haraway/CyborgManifesto.html
Mark Dery, Escape Velocity - http://www.well.com/~markdery/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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