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novo mundo
MÁQUINAS DE DESESCREVER

Textos líquidos
Por Giselle Beiguelman

Novas tecnologias de produção do texto apontam para as especificidades da escrita digital

Uma das características mais interessantes da escrita on line é que ela se faz a partir de um paradoxo: ela, que se confunde com um espaço construído de memória, desenha uma arquitetura do esquecimento.

Trata-se de um código surpreendente, se levarmos em conta os bons milhares de anos acumulados pela história da escrita que foi até agora uma história da inscrição.

Uma pequena equação colocada no código de qualquer bom portal é suficiente para ilustrar o fenômeno. Na home page do UOL, por exemplo, clique na barra de seu programa de navegação em “Exibir” e depois em “Código fonte”.

Logo no início do documento, entre sinais de maior e menor, você encontrará o seguinte texto:
content=no-cache.

De uma forma bem simplificada, esse comando quer dizer: apague da memória do computador do receptor desta página a versão anterior que acessou antes.

De um ponto de vista filosófico, isso poderia significar uma guinada cultural marcada pela emergência de uma forma de documentação que se faz por uma textualidade líquida, que apaga sem deixar rastros.

Como disse o arquiteto multimídia Marcos Novak: “A escrita digital celebra a perda da inscrição, removendo o traço do processo de apagamento. O que é desfeito é como se nunca tivesse sido feito”.

Assustador? Não, se pensarmos que as tecnologias de produção do texto são também tecnologias de produção de outras possibilidades estéticas e de outras formas de memorização.

Se é verdade que a maquinização da escrita trouxe consigo a realidade, muitas vezes sórdida, da indústria editorial, magistralmente retratada por Balzac em “As Ilusões Perdidas” (1837-43), descortinou, também, novas possibilidades artísticas.

Pense por exemplo em Hemingway, que fez do uso do telégrafo a pedra angular de uma nova ficção, pautada pela economia do vocabulário e a rapidez dos diálogos, e nos legou obras-primas, como as vinhetas que interceptam os contos de “No Nosso Tempo” (1925) e os de “O Vencedor Nada Leva” (1933).

Nesse sentido, novos programas de processamento de texto passam a responder não só a necessidades de otimização e automação da produção editorial, mas também a outros formatos e de texto capazes de dialogar com esse inédito marco de uma escrita que não sulca a superfície sobre a qual é digitada.

Não se trata aqui de falar da crônica da morte anunciada que persegue os e-books em formato PDF, da Adobe ou Microsoft Reader, mas de inovações tecnológicas que não pretendem fazer livros de papel, ainda mais cômodos e funcionais, em tela, substituindo um suporte por outro.

E aí a invenção do WikiWiki (pronuncia-se uíqui e quer dizer rápido, em língua havaiana), torna-se referência obrigatória. Criado por Ward Cunningham, que não só inventou a programação, mas implementou o primeiro servidor do gênero, wiki identifica não só um tipo de hipertexto, como também o programa que produz textos desse gênero.

De acordo com Cunningham, um wiki, para ser bem explicado, deve ser definido como um conjunto de páginas que podem ser editadas por qualquer um, em qualquer lugar a qualquer hora. E é verdade...

Não é preciso instalar nada para usá-lo, mas qualquer um pode ser um servidor de wiki, pois o código é grátis (GPL General Public License). Você pode escrever o que quiser em qualquer site que disponha do programa, e isso permite pensar que os textos colaborativos podem, enfim, decolar, deixando de ser enxurradas de besteiras desconexas.

É mais simples que trabalhar no Word. Você em “Edit” (editar), reesecreve ou escreve o que quiser, clica em “save” e pronto. Está publicado e on line. Até aí, parece coisa simples e boba.

O detalhe é que, ao dar a possibilidade para qualquer leitor tornar-se um co-autor, não só incorpora imediatamente as modificações ao texto, como cria um histórico das modificações e, simultaneamente, um documento que traz todas as mudanças realizadas até o momento.

(Depoimento pessoal entre parênteses: Estou usando wiki em um projeto novo e adorando... Funciona.)

Mas, voltando ao assunto, entre outros recursos que exploram especificidades da escrita digital, sem tentar fazer com que ela mimetize o produto impresso, são bem instigantes, também, os programas de geração automática de texto, como os sensacionais desconstrutores/regeneradores de texto utilizados pelo artista multimídia Arthur Matuck em seu “Landscript”, a ser lançado na Bienal de São Paulo.

Tudo que se digita é reprocessado em outra ordem, rearticulado, recombinado e pode derivar em novas palavras, multiplicando-se os sentidos, como se fosse possível voltar à natureza etimológica do próprio texto (que vem do latim “texere”, ou seja, tecer).

No meio disso tudo, sobra espaço para a criatividade do e-autor e até para contornar uma possível falta dela. Basta recorrer ao “Dada Engine”, um programinha muito útil que escreve textos, randomicamente, a partir de bancos de dados de palavras, organizados como gramáticas, de acordo com os princípios sintáticos do autor.

Também grátis, com código aberto e disponível para download, foi desenvolvido por Andrew C. Bulhak, em 1999, e passou, ao longo desses anos, por algumas adequações e melhoras. Se interessar, consulte seu bem explicado manual.

Contudo, não deixe de folhear a aplicação prática do programa no ensaio “The Postmodernism Generator”. Depois de lê-lo, você até pode não ficar mais culto, mas certamente, vai passar a ler com outros olhos o que se escreve sobre cultura digital.

link-se
NOVAK, Marcos Liquid Architectures and the Loss of Inscription - http://www.t0.or.at/~krcf/nlonline/nonMarcos.html
Balzac - http://www.acamedia.fr/balzac/
Wikipedia - http://www.wikipedia.com/wiki/
Cunningham & Cunningham, Inc - http://www.c2.com/
Landscript - http://www.teksto.com.br/
The Dada Engine http://dev.null.org/dadaengine
The Postmodernism Generator - http://www.elsewhere.org/cgi-bin/postmodern/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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