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dossiê
BIENAL EM OBRAS

Intramuros e extramuros
Por Lisette Lagnado



Andreas Gursky/Divulgação

Após uma seqüência de turbulências políticas, que culminaram na demissão da equipe curatorial chefiada por Ivo Mesquita, a 25ª Bienal de São Paulo finalmente abre ao público, no próximo dia 24 de março.

Até para os assíduos frequentadores do debate artístico, o saldo dessa disputa continua nebuloso, tendo faltado uma transparência na apresentação dos interesses de cada parte e uma discussão consistente acerca da instituição "Fundação Bienal de São Paulo" no cenário internacional. A data, que havia sido um dos motivos da controvérsia, pega a cidade desprevenida, uma vez que é de hábito visitar o evento mais importante de arte no segundo semestre, acompanhado da Mostra Internacional de Cinema.

Mas os fluxos da metrópole são justamente o núcleo temático desta edição da Bienal, que devem portanto contemplar a construção de sua imagem perante aqueles que a habitam. Espera-se que a apropriação de um conceito fortemente ligado a discussões da esfera pública possa esclarecer seus mecanismos de funcionamento, mesmo que irracionais, e contribuir para uma inserção maior do cidadão no planejamento urbano, com todas as questões que decorrem (habitação, regimes carcerários, violência, pobreza etc.).

Trópico dedica seu dossiê à 25ª Bienal. Optou-se por evitar um tratamento exaustivo, que abarcasse todas as representações nacionais. Foi dada ênfase no tema "Iconografias Metropolitanas", uma vez que, paralelamente à mostra, está ocorrendo a terceira edição do Arte/Cidade, organizada por Nelson Brissac na região leste de São Paulo (leia texto do curador na seção "Em obras").

O curador-geral da 25ª Bienal, Alfons Hug, expõe sua plataforma em entrevista para Jens Hoffmann, e Juliana Monachesi descreve os projetos dos artistas paulistas convidados por Agnaldo Farias a pensarem o significado simbólico de São Paulo. As comparações serão inevitáveis, pois ambos os eventos pretendem discutir a metrópole sob o ponto de vista da ação artística.

Enquanto a Bienal continua restrita ao parque Ibirapuera, a vontade de "Arte/ Cidade" consiste em deslocar-se dos eixos já consagrados pela elite intelectual e tomar posse de sítios ao ar livre. Ninguém melhor do que Gordon Matta-Clark soube efetuar essa subversão -artista que será tema de conferência e projeção de filmes nos dias 18 e 19 de março na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), sob a coordenação da curadora francesa Corinne Diserens.

Mesmo exibido intramuros, a vídeo-instalação na Bienal do artista canadense Stan Douglas promete ser um dos pontos altos por suas conhecidas investidas em áreas de grande circulação urbana, confrontando, como escreve Veronica Cordeiro, "um contexto histórico ao outro, a psique do indivíduo à metástase da sociedade, questionando, mais precisamente, a angustiante condição do não-lugar".

Mas que ninguém espere da Bienal uma mera ilustração dos problemas sociológicos da cidade. Nem a pintura estará ausente, nem o intimismo dos espaços mais privados. Vanessa Beecroft, artista convidada para o módulo das salas especiais -e não mais de cunho museológico (!)-, programou uma performance com um grupo de 50 mulheres que ostentarão sua sensualidade pela arquitetura do prédio de Oscar Niemeyer. Em entrevista à Paula Alzugaray, expõe um raciocínio extremamente revelador para entender como a pintura contemporânea pode manter-se viva no uso de referências históricas -mas longe do tradicional exercício de ateliê.

Lisette Lagnado
É crítica de arte e curadora independente, coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural), autora de "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA) e editora de Trópico e da seção "Em Obras".

 
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