2

Hug: Por exemplo, o escultor congolês Bodys Isek Kingelez, que desenha prédios e paisagens urbanas de aparência futurista em um subúrbio de Kinshasa, que não parecem nem um pouco combinar com a África. Kingelez busca se contrapor ao declínio, à miséria e ao caos de Kinshasa com uma arquitetura poética que procura alcançar o paraíso e é repleta de pureza e fragilidade. Assim também o grupo cubano, "Los Carpinteros", está preocupado com a segurança da cidade prometida. Eles constroem torres de sentinela provisórias, que também poderiam ser faróis: indicativo de arte como posto de observação, cujo ocupante está protegido do conflito que ocorre por baixo. Ou talvez possa ser visto como um sistema de alarme às vésperas do "choque de civilizações"?

Lembrando a Bienal anterior, uma parte da exposição focalizará a produção artística atual no Brasil. Como o sr. fez suas pesquisas no Brasil? O sr. visitou muitos ateliês ou confiou principalmente nas sugestões de curadores e pesquisadores brasileiros? Quem o sr. convidou?

Hug: Viajei muito e visitei ateliês, assim como os notórios "salões" brasileiros, que são mostras de médio porte para artistas emergentes, como o Salão da Bahia, em Salvador, considerado o mais importante do Brasil. De todo modo, meu colega Agnaldo Farias, crítico excepcional e ex-curador do Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro, fez a escolha dos artistas brasileiros. Nós nos damos muito bem e trocamos idéias com frequência. Ao todo, convidamos cerca de 30 artistas brasileiros para participar. Os artistas brasileiros não somente estarão no segmento dedicado à representação do Brasil, como também contribuem na "décima-segunda cidade" e, é claro, na seção dedicada à cidade de São Paulo e nas salas especiais.

Um pouco à margem desta próxima exposição: qual é sua estratégia para promover um contato mais íntimo entre arte contemporânea e o público brasileiro? O sr. concebeu alguma programação especial com palestras, conferências e conversas em torno das questões levantadas na exposição, convidando especialistas em planejamento urbano, arquitetura ou mesmo sociólogos? Uma espécie de plataforma mais teórica?

Hug: A Bienal tem uma longa tradição de "ação educativa", assim chamada, na qual centenas de professores de arte de todo tipo de escolas são instruídos sobre a Bienal antes de trazerem seus alunos. Também treinamos centenas de monitores (guias). Haverá, é claro, um site na internet. Em 25 de março, haverá um fórum de críticos europeus de arte, organizado em conjunto pelo British Council e o Instituto Goethe, na Cultura Inglesa. Em 26 de março, Boris Groys, um teórico russo da arte, irá falar sobre a "Cidade Utópica" no Instituto Goethe.

Com respeito à minha última pergunta, o sr. acha que as exposições de arte, e especialmente uma exposição como a Bienal de São Paulo, podem ter impacto sobre as questões sociais e políticas do país? Isto o interessa?

Hug: Creio que não de forma imediata. Exposições como a nossa irão contribuir para o desenvolvimento cultural geral do público, a longo prazo, reforçando o potencial democrático e a energia criativa do País.

Originalmente, o curador da 25a. Bienal era Ivo Mesquita, em conjunto com uma equipe de co-curadores bem conhecidos. Houve uma boa dose de conflitos e controvérsia em torno da saída deles. Como o sr. analisa tudo isso?

Hug: A crise foi superada há muito tempo e não afetou a exposição que estamos organizando. À época dos conflitos, eu estava longe, em Moscou, e não tinha idéia do que havia acontecido. Meu antecessor saiu em agosto, e fui contratado em novembro, porque o presidente e o conselho da Fundação Bienal de São Paulo gostaram do meu conceito. Não se esqueça de que Carlos Bratke é um arquiteto e é muito interessado em questões urbanas. O relacionamento entre o presidente, os diretores, o conselho e os dois curadores é muito próximo e cheio de respeito mútuo. Lamento se alguns críticos não gostam disso.

Cheguei a ouvir que críticos que estavam investigando a crise e falando sobre ela receberam ameaças quando quiseram relatar os conflitos e a aparente falta de transparência do processo. O sr. soube disso? O sr. acha que a arte poderia ser impropriamente manipulada, como instrumento de poder através do qual as pessoas ganham influência na esfera política do país?

Hug: A Bienal de São Paulo certamente não tem mais lutas pelo poder que outras bienais. Não estou ciente de nenhuma ameaça aos críticos. Ninguém se queixou a mim.

O que o sr. fará depois da Bienal? Quais são seus planos para o futuro?

Hug: Sinceramente, estou demasiadamente ocupado para pensar nisso agora.


Tradução de Lúcia Speed

Jens Hoffmann
É crítico de artes plásticas, curador independente e escritor. Reside em Berlim.

1 - Nota da redação: no segmento dedicado à "Cidade utópica", estão ainda os trabalhos dos artistas: Armin Linke (Itália); Arthur Omar (Brasil); Bodys Isek Kingelez (Congo); Carsten Hoeller (Alemanha); Huang Yong Ping/ Shen Yuan (China); Isay Weinfeld/Marcio Kogan (Brasil); Los Carpinteros (Cuba); Maurício Dias/Walter Riedweg (Brasil); Robert Cabot (França); Sarah Sze (EUA); Yutaka Sone (Japão) e Spencer Tunick (EUA).

 
2