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dossiê
BIENAL EM OBRAS

O nu pós-pictórico: Vanessa Beecroft
Por Paula Alzugaray



Performance de Vanessa Beecroft/Divulgação

Um exército de mulheres louras e despidas, vestindo apenas botas pretas de canos longos, enfileiram-se no Kunsthalle Wien, em Viena. Quatorze garotas com perucas platinadas inauguram a galeria Deitch Projects, no SoHo novaiorquino. Vinte modelos semi-despidas e equilibradas sobre saltos altos exibem-se para 500 pessoas no Guggenheim Museum de Nova York. Vinte mulheres negras de biquini distribuem-se pelo Palazzo Ducale, em Gênova. Dezesseis figuras femininas com as cabeças cobertas posam estáticas diante da coleção surrealista do Peggy Guggenheim, de Veneza. Cinquenta jovens brasileiras movimentam-se lentamente diante da insinuante arquitetura modernista do pavilhão projetado por Oscar Niemeyer no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. "VB50", a se realizar em 24 de março na Bienal Internacional de São Paulo, será a quinquagésima performance da artista italiana Vanessa Beecroft.

Relacionar a nudez do corpo e o espaço arquitetônico não é um interesse exclusivo de Beecroft nesta 25a. edição do evento. É tema e recurso do fotógrafo norte-americano Spencer Tunick, embora com estratégias totalmente diferentes.

Tunick, um dos participantes do núcleo que a Bienal dedicou para representar a "12a. Cidade", costuma convidar cidadãos (de Nova York, Lisboa, Londres, Jerusalem, Viena, e agora de São Paulo) a fazer parte da composição de suas cenas de nus coletivos, mostrando-os em rápidas tomadas urbanas. Mas pode-se constatar que ambos estão recolocando em circulação a questão do modelo e do gênero do nu artístico na sociedade contemporânea.

Vanessa Beecroft, 32, está entre os seis artistas estrangeiros convidados a expor em salas especiais. Enquanto Andreas Gursky e Thomas Ruff atuam com a fotografia, Sean Scully, Julião Sarmento e Jeff Koons, "em nova fase", discutem a pintura. Já VB serve-se das duas linguagens. Ao mesmo tempo em que usa a fotografia como fase final do trabalho, constrói sua performance a partir de uma variação do exercício tradicional da pintura.

Na entrevista a seguir, ela conta como (à lembrança de Yves Klein, que manipulou o corpo feminino como carimbo e pincel para suas notáveis Antropometrias), começou a usar modelos a fim de trazer um olhar próprio à reflexão do suporte da pintura -sem abandoná-la.

Como você se situa em relação à fotografia performática de Sophie Calle ou Cindy Sherman?

Vanessa Beecroft: Talvez elas estivessem entre minhas referências quando eu era estudante. Talvez o que tenha estado no background de minha formação contribua para meu trabalho hoje. Mas não acompanho seus trabalhos. Conceitualmente, me interesso pelo trabalho de Cindy Sherman, mas, foto a foto, não gosto tanto assim. Não acompanho muito a arte contemporânea.

Relaciona seu trabalho à body art?

Beecroft: Não, eu sempre penso em meu trabalho como uma pintura. Para mim, ele é quase como uma superfície plana, porque visualizo-o de forma plana. Imagino, por exemplo, trinta garotas usando cor rosa pink sobre um certo fundo. Nunca penso que este quadro será tridimensional ou terá uma duração no tempo. Eu nem mesmo vejo sua matéria-prima feita de corpos. Vejo-o como uma imagem pictórica. Quando deixam de falar, as garotas imediatamente se tornam imagens pictóricas. É por isso que o silêncio é tão importante na minha performance.

A década de 90 resistiu a ver a pintura como um veículo contemporâneo, mas alguns artistas desenvolveram questões pictóricas em outros meios. É o seu caso?

Beecroft: Como Dave Hickey escreveu sobre meu trabalho, acredito desenvolver a retórica de um gênero no espaço de outro. Ele diz: "Michelangelo usou a retórica da escultura no espaço da pintura. Bernini desenvolveu a retórica da pintura no espaço da escultura. Beecroft usa a retórica da pintura no espaço da performance".

Quais são as questões pictóricas tocadas por sua performance?

Beecroft: Textura, profundidade e o ponto de observação fora da tela.

Que outros elementos considera para a composição?

Beecroft: Antes de tudo, considero o país e o espaço em que a performance vai acontecer. Então, decido quantas mulheres, que cores usarão e que disposição terão no espaço. Crio uma composição na minha cabeça como se estivesse desenhando e situo as garotas conforme este projeto. Dou a elas um certo número de regras e deixo-as. Quando a performance começa, eu perco seu controle.

Quais são as regras?

Beecroft: As regras são: não falar, não mover muito rapidamente, não cair todas juntas no chão, não estabelecer contato entre si ou com o público. A partir destas regras, elas movem, sentam-se, levantam-se e a pintura começa a surgir. Portanto, há uma parte do trabalho que depende só delas.

Suas mulheres são tão plásticas quanto a pintura?

Beecroft: Elas são tão planas quanto a pintura.

Por que nunca usa seu próprio corpo?

Beecroft: Porque uso as garotas como "extras" de mim mesma.

Elas atuam como seus duplos?

Beecroft: Não exatamente. Elas me substituem, atuam no meu lugar. Eu não preciso estar lá, porque o trabalho fala da mulher em geral. Seria muito pessoal se eu estivesse lá.

Sua primeira exposição individual -Milão, 1993- mostrava um diário sobre seus hábitos alimentares. Até que ponto seu trabalho é autobiográfico?

Beecroft: Apesar de não fazê-lo conscientemente, admito que seja autobiográfico. Em minha primeira exposição, o que eu tinha para mostrar eram só aquarelas, que eu não sentia como um trabalho genuinamente contemporâneo. Decidi, então, digitar um diário alimentar que escrevi durante muitos anos. Expus o texto no espaço e convidei um público seleto de 30 garotas que encontrei nas ruas. Elas tinham uma aparência similar -mas não necessariamente à minha. Havia uma relação entre seus corpos e suas cores. Suas expressões me lembravam à de figuras pictóricas. Então, me dei conta de que as garotas eram um forte material visual e comecei a usar mulheres no lugar de desenhos. Ainda pinto, mas gosto do fato da performance ser efêmera e desaparecer, deixando apenas uma lembrança.

Mas em que medida sua auto-imagem corporal ajudou a conceitualizar sua performance?

Beecroft: Eu tive problemas com comida e escrevi um diário obsessivo. Na primeira performance, todas as garotas tinham problemas com comida. Anorexia e outros problemas. No meu caso, eu comia por cores. Só comia verde, laranja e amarelo. O trabalho falava, portanto, de rituais obsessivos, mas não apenas meus. Eu estava muito mais interessada no aspecto visual que emanava dessas obsessões: como elas refletiam no corpo e na aparência.

Suas mulheres seguem um padrão?

Beecroft: Sim. Têm sempre entre 18 e 35 anos. Altura não inferior a 1m70. Algumas vezes procuro mulheres pálidas, outras, negras.

O que suas mulheres representam? Que imagens elas perseguem? São inspiradas por personalidades?

Beecroft: Algumas vezes. Na Inglaterra, "VB43" era inspirada pela figura de Elizabeth I e todas as mulheres tinham cabelos vermelhos. Em outras, as mulheres vêm de pinturas de Piero de la Francesca, de filmes, fotos de revistas. A primeira performance foi inspirada em Anne Wiazemsky, atriz de "A Chinesa" e mulher de Godard. Depois veio Twiggy, modelo dos anos 60, Vanessa Redgrave, fotos de minha tia, de minha avó. Mas todas elas são referências vagas.

Em que aspecto elas se parecem à mulher renascentista de Piero de la Francesca?

Beecroft: Na opacidade.

Sua imagem de mulher é mutante ou há um retrato universal que você quer representar?

Beecroft: Eu componho um retrato que quero que se desenvolva e estou trabalhando nisto. Mas não quero me adiantar em visões que ainda não tenho claras. Meu retrato é uma combinação entre a tradição da mulher pictórica e da mulher que está na mídia hoje -e com a qual não me sinto confortável. Não me sinto confortável com a nudez. Portanto, estou abordando o conceito de beleza e também a vergonha.

Antes da performance "Show", no Guggenheim de Nova York, em 1998, suas mulheres não estavam totalmente nuas. O que a levou a despi-las?

Beecroft: Sim, no começo, o trabalho abordava inocentemente as mulheres renascentistas de Piero de la Francesca. Mas eu sempre quis trabalhar com a nudez. Eu não tinha coragem de pedir para as garotas ficarem nuas, mas agora posso pagá-las. Minha referência era o nu da academia, mas à medida em que o trabalho avançou, surgiram mulheres contemporâneas e outros temas vieram à tona.

Como sexualidade, por exemplo.

Beecroft: Sim. Não foi minha primeira intenção. Mas, quem sabe? Talvez tenha sido.

Paula Alzugaray
É jornalista, roteirista e documentarista, colaboradora das revistas "Istoé", "Istoé Gente" e "Bravo!".

 
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