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dossiê
BIENAL EM OBRAS

Sempre em círculos: Stan Douglas
Por Veronica Cordeiro



Trabalho de Stan Douglas/Divulgação

...projeções em formatos múltiplos, geralmente usando de dois a três ou mais monitores ou telões, de fragmentos de histórias relatadas e articuladas em relações binárias de intermináveis variações, em looping contínuo, porém sempre diferenciado, contrapondo um contexto histórico ao outro, confrontando a psique do indivíduo à metástase da sociedade, questionando, mais precisamente, a angustiante condição do não-lugar que se manifesta no momento de síntese entre a memória e o episódio, entre o tempo e o espaço: o lugar do relato, da ação e da comunicação, ou o lugar do comportamento.

...enquanto aqui e lá fora, ontem e hoje, e amanhã, um ponto se une ao outro numa interminável série de combinações que se configuram porque existe sempre o outro, o outro do outro ou o outro do próprio ou o outro do outro do outro. Na intercalação entre um ponto e outro se formam pequenas rupturas, espécies de mutações inusitadas, de onde surge o espaço ou o momento da convergência ou da diferença; ou, por outro lado, do deferimento, e da espera incansável dos personagens de Beckett, como aquele casal de mendigos que do limbo (sobre)vivem, e vêem, o mundo vicioso e receoso da história moderna, ocidental, que se repete, inevitavelmente, anacrônicamente, o que já aconteceu está destinado a suceder-se, infinitamente, porém, o que se torna infinito não é a história, mas o espectro de possibilidades de sua interpretação, encontradas nos resíduos da memória de "uma história que nunca transpirou" . A dúvida causada pelo espaço que se abre entre um tempo e outro, a dúvida da existência "da certeza de um Eu", é o principal ponto de partida das incansáveis pesquisas e complexas instalações do artista canadense, Stan Douglas.

...foi quando visitava aquela monumental exposição da Bienal de Veneza em julho de 2001 que deparei-me pela primeira vez com um filme de Douglas, nascido em Vancouver em 1960. Um filme entre tantos outros filmes e vídeos de artistas e cinematógrafos do mundo todo projetados em salas escuras, nas paredes, no chão, naquela bienal globalizante da Platea dell´Umanitá; ­era difícil tranqüilizar o corpo e concentrar a mente naquele roteiro em preto e branco do filme "Le Detroit", projetado nos dois lados da tela, causando, dessa forma, uma superposição de imagens positivas e negativas que agregavam ao caráter de suspense do filme um ar de (con)fusão ao mesmo tempo sedutor e intimamente sombrio. O único personagem do filme, uma mulher negra, de expressão tão ambígua quanto os espaços indefinidos resgatados pelo artista de uma história que se quer, sempre, consolidada, transcorre um trajeto doméstico à procura de algo que jamais decifraremos, pois a luz do carro que ilumina sua busca se extingue subitamente, despertando um temor que a leva correndo da casa revistada de volta ao veículo. À medida que Eleanore retoma o seu retorno, todos os objetos e móveis que de algum modo deslocou ­portas que abriu, documentos que recolheu do chão, armários que fechou­ voltam ao estado em que se encontravam antes de sua interferência, como uma série de faixas rebobinadas; assim, do fim adveio o início; na construção do fim revela-se a versão alternada de um retorno ao início, que necessariamente traça de modo contrário o desdobramento do filme, e esses dois processos inversos se econtram entre uma faixa e outra ­entre os pontos que se encontram na curva da elipse, onde ocorre o clímax inesperado, em eterna repetição.

...levanto-me então do chão acreditando ter visto o que ver-se-ia, e sem disposição física ou mental para tentar compreender um significado mais complexo além do que para mim era uma construção da passagem subjetiva de um personagem só, imerso numa insaciável busca da restituição de um sentido alheio à nossa história, retomo a esgotante trajetória pelos corredores da multifacetada produção artística global contemporânea, no magnífico prédio do Arsenale. Ao sair, senti uma sensação de overdose que me afligia, mas não era de arte, pois as obras que tinham me tocado ainda remanesciam em meu pensamento. Overdose de bi-e-nal. Overdose de obras de arte, diferente de overdose de arte. Nesse contexto quase brutal de aglutinamento estrófico, a vídeo-instalação de Bill Viola, "The Quintet of the Unseen", ou as fotografias da série "Paintings", de Paul Graham, permaneceram na minha memória exaurida numa proporção incomparável ao filme de Douglas.

Somente após ler o texto sobre "Le Detroit" no catálogo que apenas comprara decidi assistir ao filme novamente na ocasião em que voltei ao Arsenale para visitar algumas obras específicas uma última vez. Comecei então a perceber o grau de sofisticação e complexidade conceitual e técnica do trabalho de Stan Douglas. Eis que a obra de Douglas exige muito do espectador; em sua completude, ela se dirige a um espectador informado, curioso, paciente, inteligente, observador, conhecedor não somente da história do século XX, mas também da literatura européia e americana, da filosofia, dos meios de comunicação de massa e da história da televisão americana, para citar algumas de tantas outras referências principais que deram origem a grandes video-instalações nos últimos sete anos.

"Le Détroit": instalação de filme baseada em anos de pesquisa sobre a transformação urbana e social da cidade de Detroit, na região do Michigan, EUA. O formato da instalação -uma dupla-projeção nos dois lados de uma enorme tela- se inspira na indústria da máquina, característica que é acentuada pela trilha de música eletrônica especialmente comissionada para o filme. Já a tonalidade escura do preto e branco oferecem um contraste formal e conceitual, enriquecendo o aspecto documental, mas também de suspense do filme.

A história de Eleanore é uma adaptação do suspense "The Haunting of Hill House" (1959), de Shirley Jackson, e da crônica "Legends of Le Détroit" (1883), de Marie Hamlin. Além de sua própria pesquisa sociológica e de suas referências literárias, Douglas criou um filme cuja linguagem cinematográfica reinterpreta as convenções do film noir dos anos 40 bem como dos filmes de horror dos anos 50. A história: uma cidade devastada pela falência dos projetos utópicos do urbanismo modernista, que se esquecia do conteúdo "habitante" em seus planos habitacionais. A ghost town, é o que Douglas nos dá em "Le Détroit": o que restou, e o que ainda se busca nos habitantes que sobraram nas sobras da cidade fantasma.

A pesquisa de Douglas geralmente se inicia com estudos fotográficos dos locais específicos que o artista escolheu para examinar a história local, sempre em relação a uma narrativa histórica maior, cujas leituras estabelecidas no decorrer da construção da história são desconstruídas por meio da reinterpretação da pluralidade de possibilidades de visão e interpretação. Não deixa de ser um processo subversivo, que questiona tanto a origem das versões consolidadas da história quanto as razões implícitas que provocaram a desconsideração de todas as outras formas de entendimento de um determinado acontecimento histórico.

Como suporte dos processos de desenvolvimento tecnológico e urbanístico do século XX, a cidade é examinada por Douglas em sua dimensão paradoxalmente desumanizante, onde o ser humano é um mero fator funcional desse "campo de progresso". Em seus filmes o foco é sempre voltado para uma reflexão sobre as condições psicológicas dos habitantes que vivem com a memória de uma época e a experiência de uma ruptura. O momento de transição da história é o eixo principal de suas pesquisas cinematográficas, a partir do qual examina a infinidade de visões e possibilidades que afetariam o desdobramento de um acontecimento.

Essa consciência temporal permeia o complexo mecanismo fílmico da video-instalação "Der Sandmann" (1995), projetada sobre duas telas que mostram uma visão de 360 graus de um jardim Schreber. Os Schrebergarten eram pequenos lotes de terra arrendados aos pobres na cidade de Potsdam na Alemanha do Leste logo após a queda do muro de Berlin. O filme foi dirigido nos antigos estúdios Ufa perto de Potsdam, onde os palcos são recreações dos jardins ­um como seria há 20 anos e outro nos dias de hoje, parcialmente transformado num terreno de construção.

Uma espécie de costura divide as duas telas, os dois jardins, e à medida que a câmera passa de um cenário ao outro, o antigo jardim é eliminado pelo novo, e vice-versa, numa repetição eterna, sem resolução. A dimensão da consciência humana é o fator que une os dois lados (em termos de tempo, espaço e técnica cinematográfica): uma narração enunciada por Nathanael, o trágico herói da história "Der Sandmann", escrita pelo escritor romântico alemão, E.T.A Hoffmann ­uma das fontes literárias utilizadas para a construção dessa obra. Nathanael lê um roteiro em voz alta mas seus lábios não parecem corresponder às palavras lidas. Porém, percebe-se depois que seus lábios se sincronizam no momento preciso em que o próprio narrador atravessa a sutura que divide os cenários.

Um similar artifício é incorporado no filme que será apresentado na 25a. Bienal de São Paulo, "Journey into Fear" (2001), após sua estréia na Serpentine Gallery de Londres, onde inaugurou, em 27 de fevereiro, uma individual do artista que inclui também os filmes "Der Sandmann" e "Le Detroit".

Um engenheiro de armas americano foge de uma séria perseguição da Gestapo durante a Segunda Guerra Mundial, reservando em sigilo uma passagem de navio destinado ao porto do Batum. Embora idealizado por Orson Welles, o filme original de "Journey into Fear" (Jornada do Pavor, 1942), baseado no suspense do escritor e ator inglês Eric Ambler, foi no final dirigido por Norman Foster devido a compromissos prévios de Welles que o trariam ao Brasil numa época em que tantos europeus migraram para o nosso continente. Não ganhou aclamada crítica devido a um roteiro confuso e a cortes impostos pela produtora, no entanto foi readaptado numa segunda versão filmada em Vancouver em 1975.

Dirigida por Daniel Mann, a segunda versão desvia o conteúdo das perseguições nazistas à crise de petróleo dos anos 70. Dando seguimento a sua contínua e subversiva interpretação da história, Stan Douglas realizou uma terceira versão de "Journey into Fear", num vídeo de canal único em DVD com duração máxima de 7 horas e 40 minutos, tempo que contém 30 variações de faixa de diálogo com 15:22 minutos cada rotação.

O filme é exibido numa instalação que contém dois monitores e aparelhagem de transmissão televisiva. Qual seria a terceira questão a ser analisada na equação temporal: armas:petróleo-internacionalismo? Stan desvia o foco do internacionalismo ao globalismo, da política ao capitalismo, sublinhando a complexidade desses processos por meio da análise de eventos do novo milênio. São leves variações do mesmo "roteiro", onde a monotonia da repetição exige uma minuciosa atenção às diferenças por parte do espectador. O filme foi dublado em português para a televisão brasileira e para o público da Bienal. A dublagem evidencia a forma pela qual os filmes de Hollywood são disseminados globalmente, dando ênfase ao deslocamento ao invés da infalibilidade.

Em "Journey into Fear", Douglas dá continuidade às suas pesquisas referentes às interpretações do desenvolvimento do mundo moderno, tema que abrange sua pesquisa artística como um todo, mas neste caso não só remete à memória da história como também acentua uma questão crucial ao momento histórico em que vivemos: por meio de sua precisa utilização da linguagem televisiva e cinemática, Douglas revela as convenções que operam nos meios de comunicação de massa, decodificando os processos empregados na formação de nossa memória atual.

Como contraponto aos emergentes padrões da globalização, Douglas acentua, por meio de um trabalho composto a partir da sobreposição de camadas históricas, a importância da restituição de histórias locais dando continuidade à ofegante (e, portanto, rapidamente desconsiderada) discussão do legado modernista, bem como dos ideais utópicos de progresso, ainda em operação ideologicamente globalizante.

...ironicamente, resta saber se em nossa plataforma paulista que abriga a arte contemporânea global, inserida entre as sinuosas curvas de uma das mais belas edificações modernistas do maior realizador brasileiro de urbanismos utópicos, haverá mais espaço, tempo, paciência, interesse, curiosidade, e esforço para assistir, durante visitas à 25a. Bienal de São Paulo, na ida, na volta e durante períodos de descanso, as inúmeras faixas repetidas, porém diferentes, do filme "Journey into Fear", do importante artista canadense, Stan Douglas.

Veronica Cordeiro
É artista plástica e crítica de arte baseada em São Paulo. Formou-se em história da arte pela Universidade de Edimburgo, Escócia. É colaboradora das revistas "Arte y Parte" (Espanha), "Art Nexus" (Colômbia) e "Trans arts.cultures.media" (EUA).

 
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