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dossiê
FAMÍLIA DO BARULHO

Uma dupla fora do baralho
Por Carlos Adriano

Rogério Sganzerla (Joaçaba, 1946) e Helena Ignez (Salvador, 1942) formam uma dupla do barulho, fora do baralho (aliás, “Fora do Baralho”, de 1971, é o título de um de seus filmes menos conhecidos). Estão juntos desde “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), filme lançado em novembro de 1968 no eixo poeira-pulgueiro do centro de São Paulo e um dos momentos mais inventivos da história do cinema.

Musa do Cinema Novo -e atriz de filmes como “A Grande Feira” (1961, Roberto Pires), “Assalto ao Trem Pagador” (1962, Roberto Farias), “O Grito da Terra” (1964, Olney São Paulo), “O Padre e a Moça” (1965, Joaquim Pedro de Andrade), “Os Marginais” (1968, Carlos Alberto Prates Correia e Moisés Kendler), “O Engano” (1968, Mario Fiorani), “Um Homem e Sua Jaula” (1969, Fernando Cony Campos e Paulo Gil Soares)-, Helena desde sempre esteva à vontade no desvio experimental, afinal, ela protagonizou “Pátio” (1959), o primeiro filme de Glauber Rocha que é um experimento tributário do rigor concretista (dois corpos -um macho, outro fêmea- são peças de um tabuleiro de xadrez, rodeado por folhagens e pelo mar, num jogo geométrico e erótico).

Sua participação e intervenção radicais na vertente experimental do cinema brasileiro, nos filmes de Sganzerla e nos da Belair, ainda precisa urgentemente ser avaliada. O legado de Helena (quantas vezes?) é algo que nenhuma cinematografia (ainda mais quando anêmica, anoréxica e de medula frouxa) pode se dar ao luxo de desprezar.

Além de ser uma das mais lindas atrizes do cinema nacional, a ex-aluna da efervescente Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia esbanjou seu perfil culto e corajoso ao embarcar na aventura incômoda da vanguarda subversiva. Sua contribuição aos trabalhos de Sganzerla, Bressane, Eliseu Visconti não se restringiu à moderna dicção interpretativa.

A moça mais cobiçada da paróquia cinematográfica não cabia em sua inquietude. Após Glauber e o Cinema Novo, ela foi migrar para outros códigos. Estrelou o longa de estréia de Julio Bressane, “Cara a Cara” (1967), e passou a emprestar seu charme a um cinema impropriamente dito marginal.

Em “O Bandido da Luz Vermelha”, Helena Ignez foi Janete Jane, a Jean Seberg da rua do Triumpho. Produzido na Boca do Lixo paulistana, o primeiro longa do jovem diretor e crítico de cinema instaurou uma revolução no cinema nacional, ao enunciar com desabusada ousadia uma série de rupturas programáticas, nos planos estético (fragmentação, descontinuidade, associações disparatadas, disjunções digressivas) e ideológico (ácida crítica contra o Cinema Novo e às pretensões pedagógicas e messiânicas da teleologia nacional).

Tributário de Godard, Welles, Fuller, este filme inclassificável e “desclassificado” faz um coquetel incendiário de gêneros (policial, chanchada, faroeste, ficção científica) arremessado no coração convulsivo do Terceiro Mundo em transe, em plenos anos 60. O “apocalipopótese” (diria Hélio Oiticica) é narrado por um dueto de locutores em falsete, através de uma transmissão radiofônica sensacionalista e de escancarada derrisão.

Já em “A Mulher de Todos” (1969), Helena Ignez foi Angela Carne & Osso, a Anne Wiazemsky do Guarujá. Paródia antropofágica dos filmes de praia e de terror, que situa o entrecho de transgressões na Ilha dos Prazeres Extremo, o segundo longa de Sganzerla encharca cada fotograma de comportamento pop e antiartístico.

Além de conter alguns dos closes femininos mais lindos de que o cinema jamais foi capaz (visivelmente os de Helena de chapéu, fumando charuto), o filme é sintomático sumário das linhas temáticas e cinematográficas de Sganzerla: a mixagem de sublime e grotesco, a visada chanchadesca do rito underground, a anarquia brutalista, o desespero irônico e (aqui a aparição de José Agrippino de Paula dá tremenda bandeira), o exercício experimental da liberdade (para lembrar a fórmula seminal de Mário Pedrosa).

Com “A Mulher de Todos”, Helena aprimora e escracha sua técnica. O desliza ambíguo entre persona e personagem, face e disfarce, rigor e acaso, atinge uma plenitude que é protagonizada pela própria idéia do feminino plural e público.

Em 1970, o cinema brasileiro sofreu um “sismo clandestino”, um cisma insolente. Foi a Belair, companhia produtora de Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez, que durou três meses e realizou sete longas-metragens de radical fatura.

Sganzerla dirigiu, com Helena no elenco, “Carnaval na Lama”, “Copacabana Mon Amour” e “Sem Essa Aranha”, “filme de interrogação e sem respostas culturais”, estruturado em plano-sequência. Neste filme, há uma das cenas mais deslumbrantes do cinema: quando Luiz Gonzaga canta e toca sanfona para Helena se perder numa estrada.

Em “A Família do Barulho”, de Bressane, é a vez de João Gilberto cantar “Trevo de Quatro Folhas” para Helena dançar sob um coqueiro. E neste filme há um dos closes mais impressionantes do cinema: após um longo plano estático, Helena vomita um líquido viscoso (sangue?) em contida convulsividade.

Helena participou ainda dos outros filmes de Bressane na Belair: “Barão Olavo, o Horrível” (em que contracena com Lilian Lemmertz) e “Cuidado Madame” (em que faz dupla de empregadas assassinas e deambulantes com Maria Gladys).

A seis mãos, os sócios rodaram o invisível e mítico “A Miss e o Dinossauro”, ao que consta, um making-of de “Sem Essa Aranha” e “Cuidado Madame”, e também um documento sobre o cotidiano da trindade iconoclasta.

Os filmes da Belair, em seus momentos mais intransigentes, são insubordináveis e refratários a qualquer concessão. Parecem refazer o cinema, como o gesto daquelas obras inaugurais que reinventam uma linguagem.

Com o obscurantismo do Brasil recrudescido, Helena, Sganzerla e Bressane dispersaram-se em temporadas por Europa e África. Quando chegaram a Londres, Caetano Veloso (então no exílio da Capela Sixteena, como era chamada sua casa em Chelsea) assim os descreveu: “Os três, com suas roupas, seus cabelos e seus modos, eram um exemplo perfeito de desbunde elegante, sem uma gota de provincianismo”.

Na volta ao Brasil, Sganzerla roda, sem Helena, “O Abismu” (1977), fora de rota e rotação, buscando os sinais de uma improvável trilha de tesouros, rituais e civilizações misteriosas no Rio de Janeiro.

Depois, ele acertaria seu compasso na cadência da música nacional: “Brasil” (1981; registro da celebração dos 50 anos de João Gilberto e seu décimo disco, com Caetano, Gil e Bethânia), “Noel por Noel” (1981) e “Isto é Noel Rosa” (1990).

Essa trilogia do samba justapõe encenações poéticas e memórias de cinejornal. Parece funcionar como um ensaio geral para a montagem de materiais de arquivo à qual o diretor vai se dedicar infinitesimal.

O fetiche Welles no Brasil (1942) gerou “Nem Tudo é Verdade” (1985), “Linguagem Orson Welles” (1988) e “Tudo é Brasil” (1998). “O Signo do Caos” promete encetar o término do que para Welles foi maldição e para Sganzerla obsessão -e nesta incursão em que cabem atores, Helena está no elenco.

Após a Belair, o lapso das viagens (boas e más) e do retiro mí(s)tico (Helena foi monja budista e aderiu ao nome Lila Van, que em sânscrito significa “a que possui os passatempos do Krishna”), a parceria fílmica entre Sganzerla e Helena retornaria em ”Brasil”, “Nem Tudo é Verdade” (em antológicas contra-cenas com Grande Otelo) e em “Perigo Negro”, episódio de “Oswaldianas” (1992).

Não à toa, no filme “São Jerônimo” (1999, Bressane) e na peça “Savanah Bay” da difícil Marguerite Duras, justamente dirigida por Sganzerla, Helena Ignez fez algumas de suas recentes aparições.

Se Rogério Sganzerla, com seu espírito de combate e rebeldia, fomenta a insurreição dos deslocados e insatisfeitos que apostam no erro da revelação, Helena Ignez, com sua magnífica e doce presença, encarna a ressurreição do ofício sagrado do ser humano que hesita entre as artes e as máscaras da representação.

Carlos Adriano
É cineasta e mestre em cinema pela USP. Rrealizou “Remanescências” (aquisição/coleção The New York Public Library), “A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha” (melhor curta documentário Chicago Film Festival), “O Papa da Pulpi” e “Militância”. O Festival de Locarno exibiu em agosto de 2003 a mostra completa de seus filmes.

 
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