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dossiê
FAMÍLIA DO BARULHO

Djin, a nova musa
Por A.M.



Djin Sganzerla/Divulgação

Djin Sganzerla ganhou nome de gênio da mitologia persa porque, à época de seu nascimento, seu pai, o cineasta Rogério Sganzerla, andava lendo as peças de Shakespeare que incluem personagens com esse nome. Da mãe, a atriz Helena Ignez, ela herdou uma beleza de anjo rafaelesco.

Porém, com 24 anos e trabalhos com diretores respeitáveis do teatro brasileiro, ela quer coisa muito diferente das capas de revista que seu rosto poderia facilmente conquistar a esta altura Em vez de repousar sob os holofotes das TVs, no ano passado ela enveredou pelo porão do Centro Cultural São Paulo com a peça “Antiga”, montagem literalmente underground.

Ironicamente, Djin interpretou uma top model, Gertrúria, exorcizada pelo autor e diretor Dionísio Neto até as raias do teatro do pânico. Sua mãe também esteve no elenco, repetindo a dupla de “Savannah Bay”, montagem de 1999, sob a direção de seu pai. Na entrevista a seguir, Djin conta como é viver e trabalhar com “a família do barulho” a que ela pertence.


Como você iniciou a carreira teatral?

Djin Sganzerla: O começo surpreendeu até a mim, porque a princípio eu não queria ser atriz. Estava numa família de artistas e queria coisa mais tradicional, invejava minhas colegas de escola. Buscava a segurança de ser médica ou psicóloga, ao contrário da vida instável e de viagens que conheci ao lado de meus pais. No entanto, foi minha mãe quem me indicou fazer cursos de teatro (ao contrário de meu pai). Era uma paixão que no fundo já existia, mas camuflada. Assim, estudei dança Laban e teatro com Regina Miranda, no Rio de Janeiro, e fui trabalhar, por um ano, com o diretor Antônio Abujamra, no grupo “Os Fudidos Privilegiados”, participando afinal de uma peça com textos de Nelson Rodrigues: “O Que É Bom em Segredo É Melhor em Público”, em 96. Nesse ano estudei tudo o que havia sido publicado em relação a Nelson Rodrigues.

Sua mãe já havia lhe ensinado algo em teatro?

Djin: Pensando bem, tive uma vida muito rica ao lado de minha irmã Sinai e de minha mãe na fazenda Nova Gokula, dos hare krishnas em São Paulo, e hoje agradeço por isso. Acho que minha família segue um modelo matriarcal, e quando minha mãe estudou na Califórnia fui junto. Fiquei num internato, próxima à natureza e à espiritualidade de Helena. Durante as férias, viajava com meu pai. Aos poucos descobri que não havia como fugir de minha vocação de atriz, apesar da oposição inicial de papai, que afirmava que o cinema brasileiro estava perdido etc. Porém, depois que ele viu meu primeiro trabalho profissional, não teve jeito, teve de aceitar. Fiquei em cartaz quatro meses no Rio, fazendo Cilene, filha da Engraçadinha.

E depois desse Nelson Rodrigues?

Djin: Minha mãe estava ensaiando a peça “Cabaret Rimbaud” na Bahia, e depois do grande sucesso de uma apresentação no Pelourinho, ela foi convidada pelo MAM de Salvador para uma minitemporada, na qual fui incluída, em 97. Minha mãe fazia o papel de uma cicerone do Inferno... Eu começava dando passos maiores que as minhas próprias pernas, porque aquele Rimbaud não era nada convencional.

Depois vieram temporadas dessa peça em São Paulo. Paralelamente, fiz testes para o Centro de Pesquisas Teatrais, do diretor Antunes Filho. Aprovada, vim para São Paulo, e isso foi fundamental em minha formação. Antunes é a melhor escola no Brasil. Ele te forma não apenas como atriz, mas em tudo o que envolve a escritura de uma obra. Ele dá embasamento cultural profundo. Tem atores que enlouquecem com ele, e outros que dão o pulo do gato.

Por que você saiu do CPT?

Djin: Naquela época o Antunes tinha despedido todo o elenco de “Drácula” e estava formando um novo núcleo, para criar justamente os “Prêt-à-Porter” etc. Então fiquei seis meses lá, com acesso à videoteca de artes dele, que é uma das mais completas da América Latina. Ele tem raridades. Durante o dia, nas aulas, líamos e discutíamos Borges, taoísmo... Mas tive de optar entre o curso e a temporada de “Rimbaud” em Barcelona, porque Antunes pede dedicação exclusiva, o que é compreensível, porque ele tem uma dedicação exclusiva aos atores.

O Antunes ficou muito bravo com você?

Djin: Parece que ele sempre tem uma reação de se fechar, de mandar recado pelo outro etc. Acho que não precisava ser assim, essas saídas em clima de ruptura. Mas depois as coisas se ajeitam. Além do mais, quantas centenas de pessoas já não passaram por ele? Não dá para ele se apegar demais.

Você herdou muito da beleza de sua mãe. Isso foi uma vantagem ou te atrapalhou?

Djin: Não foi só a beleza, mas o nome que eu também carrego. Sempre procurei usar isso a meu favor, mas na realidade não me abre portas. Não me faz ganhar um papel.

Mas, e a Rede Globo, por exemplo? Um rosto como o seu facilitaria o caminho, não?

Djin: Sim e não...

Você não quer isso?

Djin: Eu não estou atrás disso. Mas você sabe que a Globo acaba sendo, na verdade, uma grande família. E eu não faço parte dessa família, e minha família não faz parte dessa família, com exceção de minha irmã Paloma Rocha, que é assistente de direção lá, há seis anos.

Contudo eu tenho grande fascínio pela câmera. Teatro é a arte mais difícil, exige tua presença integral, mas o cinema tem o poder de captar um pequeno pensamento, um olhar, te pega no íntimo, com muito pouco esforço. Tenho paixão pelo cinema de Bergman e por Liv Ullmann. Então a TV é uma empresa, é o contrário do teatro artesanal. Tem outro tempo etc. Não me atrai o processo para chegar até lá. Quero explorar mais o cinema e o teatro, sempre.

Qual é o estágio artístico em que você acredita estar?

Djin: A beleza que você fala, essa semelhança física com minha mãe, me cobra um pouco, exige um nível de qualidade, porque Helena foi ótima desde muito jovem. Então as pessoas me comparam, não posso começar fraca. Porém somos muito diferentes em temperamento. Eu sou, de certa maneira, muito mais metódica, e vou indo assim, já com alguma experiência, acrescentando as coisas aos poucos, cursos de teatro em Londres etc.

Trabalhar com Zé Celso em “Cacilda!” foi uma grande escola, e também no cinema, com Julio Bressane (“São Jerônimo”) e com meu pai. Trabalhar com Helena em “Rimbaud” e “Savannah Bay” foi outra grande escola. É tudo bem diferente de alguém que começa no elenco de “Malhação”. Minha carreira está ligada ao esforço e ao estudo.

Que cursos de teatro são esses em Londres?

Djin: Fiz curso de “teatro físico” em Londres. O teatro brasileiro carece um pouco de técnica, ao mesmo tempo em que sobra talento. Fiz um curso de “teatro físico”, segundo o método do francês Etienne Decroux, um dos pais do teatro do século 20, companheiro de Picasso em Paris...

A escola que ensina o seu método, que se chama “mímica corporal dramática”, migrou de Paris para Londres. Não é ligada à pantomima clássica, mas ao expressionismo, ao cubismo. Um tanto próximo ao que Denise Stoklos faz no Brasil, pois ela estudou com Desmond Jones, que por sua vez estudou com Decroux.

Como foi seu trabalho com Zé Celso Martinez Corrêa e qual a diferença maior dele em relação a Antunes Filho quanto à direção de atores?

Djin: Zé me convidou para o papel de irmã de Cacilda Becker, a Dirce, feita na primeira montagem de “Cacilda!” por Iara Jamra. Zé tem um processo muito diferente de Antunes. Este grita “Vamos ter prazer!” com um grau de tensão que te eletrocuta. E com Zé não, você toma um vinho, toca piano, relaxa, entra no clima de prazer mesmo. Eu me identifico mais com este método, mas de alguma forma o Zé e o Antunes se encontram.

Como veio a atuação no texto de Marguerite Duras, “Savannah Bay”?

Djin: O Sesc de São Paulo convidou-nos para concretizar o projeto que montei com minha mãe, na qual sou atriz e produtora. É um dos poucos textos escritos para teatro por Duras, que também dirigiu essa peça.

A situação da peça poderia ser também uma relação entre mãe e filha...

Djin: Pode ser, uma jovem atriz tentando resgatar a memória de uma antiga diva...

Mas essa dupla mãe-filha parece recorrente, porque em sua última peça, “Antiga”, você interpreta com todas as letras a filha da personagem Crista, feita por Helena.

Djin: Acho que foi coincidência, ao contrário da nossa escolha de trabalhar juntas em Duras. Samantha Monteiro faria Gertrúria em “Antiga”, mas teve problemas na época em que fez propaganda eleitoral para Maluf e saiu, foi para a TV. O diretor convidou ainda uma outra atriz, Luciana Vendramini, que ensaiou cinco meses, mas não deu certo. Só então eu entrei.

Esse lado de cultura oriental absorvido ao lado de Helena te ajuda na técnica de teatro?

Djin: No internato do interior de São Paulo nós cantávamos mantras e meditávamos. Eu estudava sânscrito, medicina ayur-védica... Então herdei, de fato, esse lado espiritual. Essa herança indiana me ajuda em minha técnica de atriz, sobretudo porque eu acho que o grande ator também é grande na vida. Não acredito no ator talentoso e mau caráter. Para a formação com Antunes foi ótimo, já que ele estuda taoísmo. Eu e minha mãe freqüentamos ainda hoje uma sociedade taoísta no Rio. Também fui à China em 2001, conhecer a cultura.

Vejo nesta prateleira que você lê os livros de técnica do ator japonês Yoshi Oida...

Djin: Tanto eu como minha mãe, pois moramos juntas. Li uma entrevista sobre esse grande ator na “Folha de S. Paulo” e fui ver seu espetáculo no Sesc Pompéia, há dois anos. Então comprei os livros dele publicados no Brasil: “O Ator Invisível” e “O Ator Errante”. Ele seguiu muito jovem do Japão para Paris. O diretor Peter Brook o descobriu. Agora ele tem carreira solo.

Com essa formação, as pessoas do meio teatral não vêem você como “bicho grilo”? Afinal, esse interesse pela cultura oriental foi mais forte lá pelos anos 60.

Djin: Esse é um dado que torna minha mãe um tanto singular no panorama teatral. Acho que existe um certo mistério em torno dela, que os artistas, diretores e atores, percebem de algum jeito, pela maneira como eles a abordam. Eu acho isso muito verdadeiro, e não uma coisa de moda. Da minha parte não fiquei tão marcada, ao menos exteriormente.

Como foi trabalhar com Dionísio Neto? Ele é muito parecido com Zé Celso?

Djin: Ele tem um pouco do Zé, com o qual trabalhou, mas também do Antunes Filho, porque foi ator do CPT por mais de dois anos. Ele está criando a sua própria linguagem como ator, estilizada, e eu admiro isso. Dirigindo é obsessivo, te manda bilhetes durante o espetáculo, mas tem também um carinho muito grande.

Como é seu trabalho no filme “O Signo do Caos”, de seu pai, ainda a ser lançado?

Djin: “O Signo do Caos” foi, na verdade, um de meus primeiros trabalhos. Eu fazia uma espécie de Lolita, tinha só 19 anos. O filme só ficará pronto daqui a alguns meses. Foi a primeira vez em que fui dirigida por Rogério (depois foi na peça “Savannah Bay”). O trabalho em família é altamente construtivo: tem o lado da panela de pressão. A coisa cozinha velozmente, porém, se você não sabe fazer uma boa mistura do caldo, fica muito pesado. Rogério é muito habilidoso para dirigir, tira o melhor das pessoas. Minha mãe o entendia melhor que eu, porque as indicações de cinema são muito diferentes das de teatro.

Qual é o seu próximo trabalho?

Djin: Vou fazer um novo curso teatral em Londres, em janeiro e fevereiro de 2002. Depois volto, e viajamos com “Antiga” pelo Brasil. Há também previsão de apresentações da peça na Europa.

A.M.
Alvaro Machado é jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo" na área cultural, autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador dos catálogos "Mestres-Artesãos" e "Folias Guanabaras". Edita a revista cultural eletrônica “Opera Prima” (www.opera-prima.com).

 
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