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Ninguém vai ficar com inveja disso, mas há um desequilíbrio na imposição desse modelo vertical. Nós sabemos também que o brasileiro é bastante deslumbrado e, quando aparece alguém com maiores recursos as pessoas vão bajular, viram papagaios de pirata. Então nós temos todos esses equívocos, não existe mais boa crítica... Os parâmetros são esquecidos...

Seu filme “Tudo é Brasil” tem sido exibido na TV paga...

Sganzerla: A TV paga até US$ 200 mil para exibir um filme estrangeiro e uma média de R$ 20 mil, 10 mil ou até 5 mil para passar um filme brasileiro. Eu me preparei para fazer cinema, estudei, fiz crítica e estudei não apenas cinema, mas as várias artes, e isso parece que não tem valor hoje, nem nunca teve.

A gente observa isso com os criadores que praticamente foram impedidos do exercício de sua profissão, o que é um direito constitucional... Ocorreu com todos os cineastas brasileiros: Lima Barreto, Anselmo Duarte, Walter Lima Jr., todos. Há uma distância temporal muito grande entre as produções de cada um. A linha evolutiva de nosso cinema foi rompida por uma deslealdade da televisão e por falta de controle do governo federal. Não à toa dizem que a TV é o quinto poder, mais forte que o governo...

Mas as TVs são concessões do governo, não é assim?

Sganzerla: São concessões estatais, porém nem o governo dá algum exemplo. O governo deveria fazer primeiro algo nas TVs oficiais, as Culturas, Educativas, que às vezes chegam a ter quase 30 emissoras associadas. Elas poderiam passar curtas-metragens, filmes de estreantes, mesmo de madrugada, ou para iniciar a programação.

Não peço para mim. Mas o que fazem é copiar o modelo errado da Globo, que por sua vez é uma cópia do modelo norte-americano de TV. Porém a TV norte-americana valoriza o quê? Você vai à Califórnia e vê no vídeo um cantor de lá mesmo. Existe uma vida municipal, um interesse local; é como um jornal, que tem a obrigação de falar das coisas que acontecem na sua cidade, e não impor uma coisa hegemônica. Até as crianças do Amapá estão falando com os clichês da Globo. Um bando de índios aculturados e não bons selvagens, um exército de sofredores sistemáticos...

Por que “sofredores sistemáticos”?

Sganzerla: Porque o jugo é muito grande. Não há nem mais teatro no Brasil, com raras e honrosas exceções, também por influência da mídia TV, que é avassaladora. E isso não apenas no Brasil... Porém nós aqui temos a quarta TV do mundo e uma pressão fenomenal. Tudo se tornou uma cadeia de casuísmos, que aprisiona a liberdade de expressão, com uma censura econômica brutal e equipamentos custosos, ao mesmo tempo em que a perspectiva mundial de automação aponta para uma democratização que garantiria um custo muito menor para um grande cinema.

Está tudo pronto para isso, mas basicamente a TV brasileira é formada por canastrões. E o canastrão não sabe e não reconhece que exagera, que é over... Nós temos ótimos tipos histriônicos: devidamente assumidos, eles ficariam ótimos. Mas o que falta são diretores para eles, não só na TV como no cinema e, mais ainda, os recursos para filmar.

E a crítica, não exerce o seu papel?

Sganzerla: Um país formado de puxa-sacos no plano cultural não se dá ao trabalhar de criticar e corrigir. Não há aprimoramento, ninguém diz a verdade para os canastrões. Falta crítica e falta programação de cinema: não há quase ninguém nessa área, como tínhamos na década de 60. Daí puderam vir os filmes. É todo um sistema...

Os bons programadores foram alijados pela Embrafilme. Hoje, num Espaço Unibanco, você vê passarem ao mesmo tempo três filmes ruins. Podia ter um Bergman no meio, uma reprise de “Morangos Silvestres”, que sempre dá algum dinheiro, como havia nos primeiros cinemas de arte. Mas os atuais programadores estão interessados no “ti-ti-ti” fora da sala, e não no que passa lá dentro. Eles procuram atender interesses... É aquela coisa de “a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. E a miséria brasileira advém desse tipo de voracidade.

Você já foi crítico...

Sganzerla: Acho que fui um bom crítico. E quando falava “esse filme está errado dessa forma etc.” era para melhorar, era um lado construtivo, da crítica polêmica, que no Brasil é muito mal vista, porque as pessoas não têm essa cultura cinematográfica. Houve grandes críticos regionais no Brasil, mas não tem mais, talvez pelo custo industrial, do papel, dos jornais: não tem espaço. Tem bons caras que fazem aquelas “pílulas” mínimas...

E o fundamental é conhecer o cinema: não adianta falar de moda, do chapéu do personagem, como se lê muito hoje em dia. Você tem de dominar algum repertório da própria linguagem cinematográfica e dar alguma informação nesse nível. O que temos hoje são críticos anedóticos, que contam a historinha e o final do filme.

Existe alguma exceção na crítica cinematográfica hoje?

Sganzerla: Tem o Inacio Araújo, por exemplo, que tem uma apreciação mais valorizadora, sabe ver os pontos realmente positivos. Porque ninguém gosta de uma crítica que só esculhamba, sem nenhuma fundamentação. É muito difícil fazer isso em poucas linhas, dar um ângulo de informação.

O Inacio sabe, por exemplo, quem é Douglas Sirk. A maioria dos críticos nem conhece. Outro dia, alguém falou: “Eu adorava aqueles filmes da Sandra Dee”. Sim, claro, eles passavam no Cine Ipiranga, grandes sucessos, porém quem era o diretor? Douglas Sirk. Não saber isso é o cúmulo e é também não saber a importância do antigo e verdadeiro cinema americano. Pensa-se que é igual ao atual, que é o falso cinema americano.

A faculdade não forma bons críticos ou diretores?

Sganzerla: A faculdade só serve para a gente se enturmar ou para ver coisas em VT. Sobretudo é preciso assistir a muitos filmes. O cinema tem um repertório muito grande. Por mais que você assista, sempre há grandes lacunas. É uma coisa que você preenche com a vida inteira, vendo e revendo filmes que às vezes você não consegue apreciar numa primeira visão.

Então a formação do crítico pede um respaldo material. Porém, desde o Ato Institucional n. 5, quando o cinema nacional foi cortado nas exibições, com a censura policialesca, diminuíram os salários dos críticos, o que fez com que muita gente boa se desinteressasse da atividade.

Comecei com 17 anos, porém São Paulo nos anos 60 era um manancial de filmes brasileiros e internacionais, o que não existe mais. Hoje as pessoas não conhecem, por exemplo, a importância do semidocumentário brasileiro, tal como foi, por exemplo, na escola de Nova York ou na escola inglesa de cinema. Contudo é nesse documentário que aparece o Brasil.

Fale sobre o filme que está finalizando, “O Signo do Caos”.

Sganzerla: Foi filmado em 97, 98. Depois parei, porque resolvi terminar antes o “Tudo é Brasil”, que não é um trabalho tão pessoal, mas tinha todo o material reunido. A finalização, a montagem de “O Signo do Caos” foi bem mais difícil... As pessoas não valorizam esse aspecto, mas aqueles interessados em levantar o barco do cinema já perceberam que é básica a questão da produção executiva, da edição, da montagem. É preciso ter um produtor acompanhando, um mínimo de respaldo. Todos os filmes brasileiros se ressentem disso: de uma montagem adequada, pois as condições de trabalho são bastante difíceis.

Qual é o tema de “O Signo do Caos”?

Sganzerla: É sobre o abuso de autoridade que vem desde o tempo do Estado Novo. Tem um ator excelente estreante, o Sálvio Prado, de Bauru, tem o Otávio Terceiro, que faz um personagem amnésico, que quer esquecer, dissolver as coisas. Helena Ignez dá um show, a Djin (filha de Sganzerla e Helena Ignez) aparece em preto e branco...

O filme fala de cinema?

Sganzerla: É uma defesa do cinema, e desse ponto de vista é um filme raro para o Brasil, porque fala disso que estamos discutindo agora, da questão básica do direito de exercer a profissão. Agora estou na fase de pré-mixagem.

Vai ser lançado em algum festival?

Sganzerla: Estou mais preocupado em terminar bem o filme, dar maior qualidade com esses novos recursos sonoros etc. É quase cômico e terá uma boa relação com o público. Tem essa reflexão da substituição de uma censura por outra... Os burocratas acabaram com o cinema. Em vez de fomentar o cinema onde ele acontece, essas pessoas estão lá, posando com gravatas italianas.

Esse pessoal conseguiu acabar com a criatividade do cinema no Brasil. E a televisão, com toda a sua máquina, vai ocupando o espaço com cinco ou seis produções por ano. Não há interação. Essa violência deveria ser atenuada por uma ação disciplinadora do governo. Por exemplo: é melhor passar nossos abacaxis que os estrangeiros, porque os enlatados que vêm para cá são quase só porcaria.

Você já sofreu ações especificamente dirigidas a você depois que voltou a morar no Brasil?

Sganzerla: Sim, em certa época, por ter defendido publicamente o diretor Alberto Cavalcanti, as pessoas acharam que eu queria comprar uma briga. Mas defender um cineasta essencial e desconhecido em seu próprio país foi para mim uma honra que repetiria quantas vezes fosse necessário. A história provou que eu estava certo. Ele saiu daqui com ódio da burocracia, renegando tudo... “Não quero deixar nem os ossos neste país.” E foi para a França, onde teve aposentadoria etc. Ficou lá, enterrado, no Pére Lachaise.

Não quis permanecer no Brasil pela humilhação, que não se deve fazer com um velho. A troco de quê? Ele estava iniciando aqui uma produção, já tinha contratos assinados. Tiraram e deram para um “amiguinho”, um colega de escola. Parece que as escolas de cinema constituíram aqui um desserviço para a evolução da sintaxe cinematográfica. Elas criaram o apadrinhamento, acentuaram o nepotismo, o sistema de comissões. Por que o cinema no Brasil ficou tão ruim? Alguns cineastas conseguem manter a chama, mas o resto é de uma mediocridade atroz. Há injunções econômicas, caixinhas, corrupção... como numa capitania. E você sabe, as capitanias hereditárias faliram no século 16.

Assim, em vez de andar, o Brasil carangueja. Um dos cinemas mais criativos do mundo, que influenciou a produção européia, onde está? Hoje em dia existe cinema na Ásia, em todos os lugares, menos no Brasil, porque a produção ficou condicionada a se filmar livros sem uma adaptação realmente cinematográfica. Esses clássicos da literatura não resistem a isso. Faltou investir nas pessoas: roteiristas, argumentistas, dialoguistas. Não adianta pegar um bom catatau e... Sem diálogo apropriado fica inócuo.

Cavalcanti parece ter exercido grande influência sobre você como cineasta...

Sganzerla: Como também o Lima Barreto, que o Cavalcanti empurrou muito. Além de diretor, ele também era um grande roteirista. Fez dez tratamentos de “O Cangaceiro”, que foi grande sucesso mundial. Mas o Lima ficou só um ano na Vera Cruz... É uma situação limite, o mesmo caso do Anselmo Duarte, que ganhou a Palma de Ouro e não pode exercer a profissão, do Cavalcanti, do Luiz Sérgio Person, de todos os outros que morreram, que não agüentaram. Cinema depende de dinheiro. Se bem que só dinheiro não resolve. Demais faz até mal, como se vê no futebol brasileiro atual. Tem de saber usar com sensibilidade.

Você tem esse projeto de juntar o material bruto não utilizado de “O Bandido da Luz Vermelha” e rodar novas cenas para um “Bandido 2”...

Sganzerla: Seria uma nova produção, com cenas em cores. Inicialmente, o projeto do “Bandido” era colorido. Essa segunda parte depende, ainda, de captação financeira. Mas o material bruto não utilizado no “Bandido” já está bem editado. Nessa triagem, encontramos até a cena da prisão do João Acácio, material de interesse para a história de São Paulo.

Mas como é a trama, o roteiro?

Sganzerla: O filme fala de São Paulo, de uma realidade atual. O que aconteceu? Mudou o país ou mudou o bandido? Há um salto no tempo, e o material em preto e branco é um gancho para um filme mais rápido, completamente distinto do “Bandido” original.

Fale sobre o seu livro, que saiu há pouco.

Sganzerla: Foi uma experiência agradável. É em torno de um assunto pouco valorizado pelos críticos atuais, que é a própria anatomia do cinema moderno. No que ele se diferencia do cinema clássico? É combinação de História com um pouco de Fenomenologia. São análises às vezes um pouco esquemáticas, mas que definem padrões de captação da realidade.

 
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