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dossiê
ENTREVISTA

Rogério Sganzerla fala da guerra da TV contra o cinema
Por Alvaro Machado



Djin, Sinai, Helena e Rogério/Divulgação

Após sete meses de intrincada luta contra dois tumores cerebrais, Rogério Sganzerla morreu na manhã de sexta-feira, 9 de janeiro, aos 57 anos, no Hospital do Câncer, em São Paulo.

Eternamente dissonante, não apenas em questões de superfície, mas em pontos nevrálgicos, sua voz está agora silenciada. Apenas, contudo, até uma nova projeção de seu clássico "O Bandido da Luz Vermelha", capaz de bradar inconformismos ainda por muito tempo.

O fascismo uniformizador do Big Brother, que ele associava à indigência dramatúrgica e à vulgaridade sem limites da TV aberta na atualidade, não lhe dedica necrológios. Rogério encontrava-se na outra margem, onde vai dar o escolho mais sólido da realidade brasileira, o lixo que ele selecionou genialmente para tornar explosão e celebração de vida em filmes significativamente confeccionados a partir de... restos de negativos cinematográficos.

Poucas trajetórias no cinema brasileiro são marcadas por tamanha sincronicidade e fidelidade a um príncípio criativo: talvez as de Mário Peixoto e Alberto Cavalcanti (este tornado amigo e mestre de Sganzerla em sua última passagem pelo Brasil).

O diretor de "A Mulher de Todos", "Nem Tudo É Verdade" e outras reflexões marcantes sobre a sociedade e cultura brasileiras assumiu comportamento emblemático durante o período de sua enfermidade, com estoicismo, coragem e "fair play" dignos de sua filmografia e de sua conhecida combatividade crítica, que não poupava sequer aos próximos e conhecidos, obedecendo unicamente aos princípios éticos e estéticos que pautaram sua obra singular.

Por influência do ministro Gilberto Gil, que com ele dividiu momentos de exilio londrino, o cineasta recebeu a Ordem do Mérito Cultural, outogada pela Presidência da República em dezembro de 2003. Na cerimônia, em Brasília, foi representado por sua "mulher-coragem" e musa, a atriz Helena Ignez. O diretor deixa as filhas Djin Sganzerla (atriz) e Sinai Sganzerla (compositora).

Recentemente Sganzerla também foi homenageado pelo Festival de Cinema de Brasília, onde seu último filme, "O Signo do Caos" (com estréia prevista para este ano no circuito comercial), recebeu prêmios de direção e montagem. Também recentemente o Canal Brasil (TV paga), exibiu um documentário de Joel Pizzini finalizado em novembro de 2003 sobre a obra do diretor.

Ainda este ano, Helena Ignez e roteiristas com os quais Rogério trabalhou ao longo dos últimos meses devem concretizar o derradeiro projeto do diretor, uma continuação de "O Bandido", significamente intitulada "Luz nas Trevas". Faça-se, pois, mais luz, e recorde-se, na entrevista abaixo, concedida a Trópico no Rio de Janeiro, em 2001, o pensamento sempre perturbador de Rogério Sganzerla.


Rogério Sganzerla não tem papas na língua, e sua visão extremamente crítica da realidade brasileira, além de gerar obras-primas no registro da ironia corrosiva, como “O Bandido da Luz Vermelha” (68) e “A Mulher de Todos” (70), também parece ter sido motivo dele tornar-se cineasta bissexto. As razões mais importantes desse afastamento cíclico das telas de cinema, entretanto, quem revela é o próprio Sganzerla na entrevista abaixo.

Embora sem data de estréia, o diretor coordena atualmente a fase de dublagem de seu último longa, “O Signo do Caos”, rodado em 98 e desde então em processo de montagem e finalização. Participaram como atrizes sua mulher Helena Ignez e a filha Djin Sganzerla, também entrevistadas por Trópico. O último filme do diretor a ser exibido no circuito brasileiro também data de 98: o semidocumentário “Tudo é Brasil”, com material de arquivo a partir das filmagens brasileiras de Orson Welles (no inacabado “Tudo é Verdade”).

“Tudo é Brasil” costuma ser reprisado pelo Canal Brasil, da rede de TV por assinatura, porém o último filme dramático do diretor, o média-metragem “O Perigo Negro”, de 93, não passa em lugar algum. A fita narra a glória e a decadência de um craque do futebol profissional, segundo roteiro original de Oswald de Andrade encontrado casualmente num sebo.

Estruturando atualmente uma seqüência do clássico “O Bandido da Luz Vermelha”, que lançará olhares sobre as transformações sofridas pela cidade de São Paulo desde o final dos anos 60, Sganzerla também retomou, em 2001, sua carreira de crítico cinematográfico, com o lançamento de “Por um Cinema Sem Limite” (Ed. Azougue, SP), reunião de textos publicados em meados dos anos 60 e no início da década de 80 em “O Estado de S. Paulo” e na “Folha de S. Paulo”.

O que aconteceu ao cinema nacional?

Rogério Sganzerla: Houve um retrocesso na forma e na construção dos filmes, na estruturação. Eles se ressentem de uma espinha dorsal. A influência da televisão, a mídia hegemônica, é tão poderosa, que praticamente anula as outras expressões. A lei de mercado transforma os “diretores” -entre aspas- em meros diluidores de formas. Do ponto de vista da linguagem, criatividade e fixação do comportamento, não vejo nada de significativo, nenhum tratamento adequado ao humor brasileiro. As cenas de violência são muito mal feitas, e as cenas eróticas são piores ainda.

Não se faz justiça à tradição cinematográfica brasileira dos anos 60?...

Sganzerla: Não se faz. Isso, porque o processo histórico não é linear, mas cíclico, como diz o filósofo italiano Vico, aquele do “corso e ricorso”. Isso, que eu escrevia freqüentemente nos anos 60 e 70, os físicos atuais são unânimes em observar. Se houve um apogeu nos anos 60 e depois uma decadência inevitavelmente provocada pelo Ato Institucional n. 5 e pela ditadura, não se deu em seguida um ressurgimento... Faltaram aqui aquelas raízes do conhecimento filmológico, porque cinema também é uma ciência. Os filmes hoje são muito cartão-postal, influenciados pela televisão, e acabam não sendo nem uma coisa nem outra.

Você não vê novos bons diretores, esses com primeiro ou segundo filme?

Sganzerla: São poucos diretores competentes, infelizmente, uma coisa mínima. Deveria haver mais produtores também, que é uma atividade mais criativa.

O que houve então nesses quase últimos anos, incluindo a época da Embrafilme?

Sganzerla: Essa instituição foi criada no final de 60, pior período da ditadura, e se transformou numa maneira de o Estado intervir e impor adaptações de livros. Ora, nossa literatura é muito rica, mas até hoje não se criaram os quadros humanos capazes de fazer a transposição para a mídia cinema. Não se trata apenas de copiar as melenas e as suíças dos personagens de Machado de Assis. Houve um retrocesso, não há gente com talento semelhante ao de Machado que se encarregue de adaptá-lo.

Todos querem ser diretores...

Sganzerla: Voltando a Alberto Cavalcanti (1897-1982), cineasta que foi expulso três vezes o Brasil: primeiro na faculdade de arquitetura, depois na Vera Cruz e por fim pela Embrafilme. Uma vez, durante uma conversa, eu antecipei um pensamento dele, que era o seguinte. Eu disse: “Alberto, você ia dizer duas coisas: primeiro, que no Brasil a pessoa empurra um carrinho de travelling e logo depois já quer dirigir; depois, que não temos equipamentos, gravadores etc., e, quando estes aparecem, depois de apenas dois meses já estão totalmente estragados. Não há o respeito pelas máquinas”. Vejo, também, que ninguém quer produzir, e essa é uma grande função, porque você pode ser muito criativo nesse métier, escolher as histórias, montar, intervir. Em lugar disso, temos hoje, aqui, meros intermediários, captadores de dinheiro.

O que mais falta?

Sganzerla: Falta é usar a imaginação. As pessoas praticamente não têm apresentado a imaginação na tela de uma forma condizente com a imaginação que o povo brasileiro tem, no mesmo nível daquilo que você ouve nos ônibus, nos táxis etc. Não se vê no cinema esse comportamento bastante espontâneo, essa intuição profunda brasileira, a ginga e o humor. Enfim: há uma defasagem, e os filmes são uma coisa solene e chata. Para mim, tinha muita razão o criador do espetáculo cinematográfico, o francês Georges Méliès (1861-1938), que dizia: “É preciso usar a imaginação”. Esse era o mote também no movimento de 68 na França, Brasil e EUA.

Quais o melhor e o pior filme que você viu nos últimos doze meses?

Sganzerla: Não teve nem pior nem melhor. Fica tudo numa média... Como na adorável “classe mérdia”. Porque os filmes que são muito ruins podem ser interessantes, porém esses agora não têm alma... Estão como num limbo. Todos os maus filmes, os antiexemplos, esses já foram feitos, como todos os maus livros foram publicados. Falta agora os que ainda interessam, que às vezes podem ser até os inacabados. Por exemplo, outro dia vi um filme chamado “Redes”, de 1934, dirigido no México pelo Fred Zinnemann. Foi surpreendente.

A televisão brasileira tem incursionado bastante por outros setores audiovisuais, especialmente o cinema nos últimos anos. Qual é a sua análise desse processo?

Sganzerla: Ela invade, mas não substitui o cinema. Porém pretende substituir, inclusive esteticamente. E nisso se dá mal, porque os filmes derivados da TV são pretensiosos, extremamente arrogantes, não só do ponto de vista do enquadramento, da valorização do instante. O cinema é a arte do presente, e este é feito de toda uma herança. Portanto, você precisa estudar, assistir aos filmes... Tem de conhecer Mizoguchi. Quem não conhece Mizoguchi, não conhece cinema. Vou citar um exemplo de desinformação. Hoje, depois de 40 anos, falam muito de Ozu, diretor que sempre foi valorizado e cultuado em São Paulo. Porém, falar em Ozu hoje para mim é piada, porque tem gente muito mais importante. Então, falta essa cultura cinematográfica...

Os realizadores não têm referências suficientes?

Sganzerla: É preciso conhecer... Ou se valoriza a aparência ou a essência. Meu livro fala disso. Devem existir passagens culturais para as coisas se multiplicarem.... Deve-se saber como se formam e se desdobram os mitos. Hoje se mistura muito filme e videoclipe, que poderia ser uma linguagem, mas já se extinguiu, não produziu o que deveria. A televisão olha muito para o seu umbigo, a própria imagem, e não sai daí.

Além disso, é tudo “para ontem”. Eles podem formar equipes, mas, para se ter uma idéia na cabeça e uma câmera na mão, é preciso ter, antes, uma idéia na cabeça! Se a cabeça estiver vazia, não adianta grua, não adianta nada, nem cortes intemporais ou qualquer tipo de abstração. Eles acabam resultando inócuos à evolução.

Então, acho que a televisão tem uma dívida para com o cinema. Porque ela faz diariamente uma coisa terrível: passa filmes estrangeiros que, uma vez dublados, se transformam em produto nacional: o som e a língua são brasileiros. E por que os filmes não são legendados também na TV aberta? O grosso do público ouve o De Niro e o Marlon Brando, excelentes atores, falando português. Quem vai querer saber de Antônio Fagundes, depois disso? Isso é uma torneira aberta, jorrando, que ninguém dá valor, mas que, de certa forma, contamina culturalmente. Isso o público não percebe e nem a própria classe cinematográfica enxerga.

Assimila-se como coisa natural...

Sganzerla Por outro lado, acho que a TV até pode estar agravando a questão de doenças, porque eu acredito que os raios catódicos sobre o organismo das pessoas vão produzir conseqüências terríveis em longo prazo, para toda a população. Tudo tem um efeito. As crianças estão ali jogadas, dormindo, dominadas, porque não tem alguém que cuide. E os desenhos animados têm uma violência extrema, gratuita. Isso está gerando monstros, estamos numa sociedade que não respeita o passado, e o futuro será, inevitavelmente, muito difícil para quem não tiver uma estrutura, uma reflexão.

Enfim: não respeitamos nem os velhos nem as crianças. É uma civilização condenada, que num certo sentido vai terminar mal. Enquanto isso, as pessoas vão ficar cada vez mais ricas e o povo mais miserável. Esse modelo está errado. E o cinema também é um reflexo dessa estrutura, oscilando da mesma forma: tudo para uns e nada para outros.

Hoje é preciso ter um banco e um espaço fixo em jornal para se ter uma distribuição e se obter uma audiência. Se a pessoa não tiver um banco e uma coluna de jornal não adianta fazer cinema, não adianta tentar uma relação com o público, se não houver essa mediação. Porém cadeias, equipes e exibições são uma questão de privilégio e não uma questão de cinema, de exercício da profissão.

 
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