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Helena Ignez: Fizemos o primeiro filme juntos, o curta-metragem “O Pátio”, de 1958, lindíssimo. Mas sem a Escola de Teatro, que promovia aquele movimento todo de música, dança etc., ele não teria feito esse filme. Eu fazia o curso e ele freqüentava como amigo. A música de “O Pátio”, por exemplo, é toda dodecafônica, vem de Koellreuter.

O livro de Caetano Veloso (“Verdade Tropical”, ed. Cia. das Letras) fala bem da força que tinham esses espetáculos no próprio teatro da escola, muito bem equipado, ou no Teatro Castro Alves. Era uma escola riquíssima. Brutus Pedreira, que fez “Limite”, com Mário Peixoto, era nosso professor. E também Gianni Rato e outros. Era uma Bahia muito engraçada à essa época, porque a Bahia negra estava ainda escondida, não se ia muito ao Pelourinho ou ao candomblé. Eram poucos brancos que conheciam o movimento negro, como Jorge Amado, Genaro de Carvalho e Carybé.

Quando você se iniciou nesse lado?

Helena Ignez: Foi na festa de 50 anos de ordenação de Mãe Senhora do Gantois. Glauber, que já pesquisava o assunto para o roteiro de “Barravento”, com Luiz Paulino, me levou. Com ele pisei pela primeira vez num terreiro.

O que você fez no curta “O Pátio”?

Helena Ignez: Fui atriz e produtora, usando o prêmio de Glamour Girl que recebi. Um banqueiro me ofereceu um colar, brincos e anel de jade, conjunto muito valioso. Quando fui agradecê-lo, aproveitei para dizer que queria fazer um filme com o menino baiano mais inteligente que havia por ali, e então ele fez um cheque que financiou parte da produção do filme, com as jóias.

Você pode descrever o filme?

Helena Ignez: Hoje ele pareceria moderníssimo, com música atonal e muito influenciado pelo concretismo. Glauber contribuiu com suplementos literários, como o do “Jornal do Brasil”, que divulgou o concretismo. O roteiro tinha uma situação de uma menina e um rapaz muito “nausées”. Trazia várias coisas que logo se tornariam moda, como o “carão”, as “caras e bocas”. Eu era uma moça muito extrovertida, que adorava Carnaval, e no filme tenho apenas dois ou três movimentos corporais. Era um clima um tanto a la Antonioni.

Existencialista?

Helena Ignez: Isso. Mas não se contava uma história, era apenas uma relação de incompreensão, distância e amor, terminando com uma mijada do personagem masculino sobre uma planta. Isso deixou os baianos revoltados, até mesmo a molecada, o mesmo tipo de mentalidade que vaiou Caetano Veloso dez anos depois. Achavam aquilo alienado, de gosto revoltante. O cinema Guarani, que exibiu, teve todas as suas cadeiras cortadas a gilete.

Quem era o seu partner no filme?

Helena Ignez: Era um rapaz amigo de Glauber, um boêmio de origem popular, não recordo o nome. Era muito bonito para o gosto da época, de talhe fino. Ninguém então gostaria de uma “barbie”, de um sujeito musculoso. Ele era um Gérard Phillipe, aquela coisa fina. Até hoje fico muito surpresa quando me mostram os gatinhos: “Olha que gatinho maravilhoso!”. Eu olho e vejo um libelo contra o sexo... Ainda sou fiel ao gosto antigo.

O casamento com Glauber Rocha produziu também uma filha...

Helena Ignez: A Paloma Rocha, que é assistente de direção na Rede Globo e está hoje fazendo o seriado “Os Normais”. Ela tem 41 anos.

Você ficou com Glauber durante quatro anos, até conhecer....

Helena Ignez: Até não conhecer ninguém... (ri). Até, talvez, ter vontade de conhecer alguém, que foi um colega meu na escola de teatro. Mas essa foi uma pessoa tão insignificante... Só foi “significante” para destruir um casamento. Foi um tesão destrutivo, só isso. Rodeado de todos os escândalos possíveis, porque eu namorava em público, não tinha aprendido ainda a fingir, a esconder. Eu era excessivamente confiante na verdade, o que pode trazer problemas enormes, como todos sabemos.

Depois você passaria um período sozinha?

Helena Ignez: Nunca fiquei sozinha, o pior foi isso. Quer dizer: graças a Deus! Houve namoros mais ou menos longos, casamentos mais ou menos curtos e um casamento longo, que é este que tenho e que acho muito interessante. Quero mantê-lo para sempre.

Depois da separação de Glauber, você não parou mais de fazer cinema...

Helena Ignez: Na verdade comecei bem depois. Como namorada de Glauber fui convidada por Anselmo Duarte para fazer a personagem principal feminina de “O Pagador de Promessas”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Mas não aceitei, achei desinteressante. Ruy Guerra também pensou em mim para “Os Cafajestes”, para o papel da outra menina, não o papel que foi de Norma Bengell. Mas eu achava que cinema não realizava o ator. E recusava tudo, exceto “A Grande Feira”, de Roberto Pires, que foi meu primeiro longa-metragem.

Com Glauber eu ia filmar “A Ira dos Deuses”, um roteiro que depois se transformou, de certa maneira, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e que ecoa em todos os filmes de Glauber. Porém fiz mais teatro, e quando cheguei ao Rio fui convidada por Luís Carlos Barreto para “O Assalto ao Trem Pagador”. Aceitei e não parei mais no cinema, até 70.

Fale de sua relação com o diretor Joaquim Pedro de Andrade.

Helena Ignez: Com “O Padre e a Moça” veio o reconhecimento no exterior, o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim. Também no Brasil fui muito premiada com esse filme.

É sua melhor interpretação no cinema?

Helena Ignez: “O Padre e a Moça” tem uma síntese de classicismo cinematográfico muito grande, de Bresson a Antonioni, e muitas outras coisas. É o melhor filme de Joaquim Pedro, aquele que mais resistirá ao tempo. Na peça “Antiga” também existe uma retomada desse personagem. O Dionísio Neto citava o filme desde o começo nos ensaios.

Como a Mariana de “O Padre e a Moça”, Antiga também vem do interior, é hierática, extática, contemplativa. Tem alguns movimentos de cabeça, na peça, que acabei fazendo de maneira semelhante ao filme. Um espectador mais sensível notou isso, me falando do movimento e giro de cabeça. É como se fosse uma frase.

Depois você conheceu quem, como namorado?

Helena Ignez: Aquele romancezinho no final do casamento com Glauber só serviu para me separar e só funcionava como amor escondido. Mas com ele descobri meu lado sexual, que hoje todo mundo experimenta antes do casamento, mas que para mim sempre foi muito refreado. Por exemplo, entre eu e Glauber tudo funcionava, menos a questão sexual. Era a época da Simone de Beauvoir e de “O Segundo Sexo”, e nós, as mulheres, não sabíamos ainda direito como obter o prazer. Era tudo muito encenado. Na cama havia o momento em que tínhamos de fazer aqueles gestos, aquelas caras. Mas na verdade a coisa não acontecia.

Quer dizer, era uma autêntica encenação?

Helena Ignez: É. Mas, então, num belo dia, aconteceu sem encenar, com esse rapaz convidado da escola de teatro. Aconteceu não sei como e foi muito forte, porque todo mundo sabe que sexo é muito forte. Mas quando eu entendi o mecanismo da coisa, três ou quatro meses depois, esse rapaz perdeu o interesse. Para mim, ele não existia mais, e o que existia era um escândalo na Bahia toda, uma menina que namorava pelos lugares todos e freqüentava endereços “absurdos”, como um hotel na Praça da Sé, à tarde.

As pessoas falavam, até que chegou ao ouvido de Glauber. Ele estava viajando. Eu iria dizer a ele, aliás, não sei se teria coragem. Mas a irmã dele, a Anecy, contou: “Olha Glauber, a Helena tem um namorado e a Bahia inteira sabe disso”. Foi um horror, principalmente a reação da família dele. Para além do afeto, havia um orgulho dele, um sentimento de vingança muito claro.

É preciso separar a pessoa do artista?

Helena Ignez: São duas faces que jamais coincidem muito. As pessoas se perguntam: “Como é que fulano, um artista tão grande, é capaz de agir assim na vida pessoal?”. Mas a personalidade é só uma ponta do iceberg. As emoções são o lado “sombra”, e o mais perigoso fica encoberto e nem sempre aflora. Às vezes, quando aparece, é mais forte do que a própria pessoa poderia imaginar.

Vocês haviam casado também no religioso?

Helena Ignez: Claro! Na Igreja do Senhor dos Aflitos, que os dois escolhemos porque éramos loucos. Mas é uma igreja lindíssima. Foi um casamento muito bonito, com Jorge Amado e Zélia Gattai como padrinhos, e também Genaro e Nair de Carvalho. Era um casamento notório, mas logo depois de casada eu já me sentia sufocada...

Era uma responsabilidade social...

Helena Ignez: Que eu já intuía ser impossível para mim levar até o fim. Glauber era extremamente ciumento, machista. Hoje eu sou capaz de viver com uma pessoa assim já tirando de letra, mas na época não, só me submetia. Glauber não queria que eu pintasse os olhos, que clareasse os cabelos, uma chateação, um porre. E ao mesmo tempo eu amava aquele garoto, que era a única pessoa com quem eu gostava de conversar e dar risada. Porém faltava uma base... Como eu não tinha liberdade, o meu lado mais sensual também não florescia.

Aí então veio o Rio de Janeiro...

Helena Ignez: E fui para o Rio, onde fiz muito sucesso. Aonde eu ia tinha convites para fazer peças etc. Comecei a selecionar, e fazia também televisão em São Paulo. Com o diretor espanhol Antonio de Cabo, trazido ao Brasil por Tônia Carrero, fiz uma peça que me deu prêmio de atriz revelação: “Família Pouco Família”, uma coisa meio Broadway.

Depois o diretor Ziembinski me chamou para fazer, com o Cecil Thiré, “Descalços no Parque”, que foi um enorme sucesso. Nesse período também o diretor Eros Martim Gonçalves veio do Rio para a Bahia, e então fiz muitas montagens com ele. Era um dos maiores teatrólogos brasileiros, hoje esquecido porque a memória do teatro brasileiro é muito frágil. Com Gonçalves fiz “Victor, ou as Crianças no Poder”, de Jarry, ao lado de Ítalo Rossi e Maria Fernanda, “A Orquestra de Mulheres”, de Annouilh, “Salomé”, de Oscar Wilde, que foi a estréia de Marco Nanini como ator, também com Paulo Gracindo como Herodes. E veio a primeira versão brasileira de “Hair”, em São Paulo, com o diretor Adhemar Guerra, e com ele também “Oh, What a Lovely War!” (“Oh, Que Delícia de Guerra!”), com Ítalo no elenco, outro sucesso enorme.

Nessa época você não estava casada?

Helena Ignez: Fiz muito teatro, até conhecer Rogério Sganzerla, com alguns namorados antes dele. Mas ele já não queria que eu fizesse o “Hair” e por isso saí do elenco depois de um mês. Tinha muita gente nua, e ele não gostava do ambiente. Portanto, de novo entrei num ciclo machista... Mas nesse caso havia a tal paixão física, um fogo. E achei que valia a pena deixar tudo: “Oh, what a lovely war”, a guerra dos sexos...

“Hair” foi um enorme sucesso. Você não se arrependeu de sair?

Helena Ignez: Todos os meus companheiros de peça entraram depois para a Globo, essa é a base do elenco de novelas da Globo, e eu me tornei atriz do outro lado, cult, que sou até hoje, graças a Deus. Saí daquela carreira normal de uma peça e um filme atrás do outro. Em “Hair” também trabalharam Aracy Balabanian, Sônia Braga, que era minha “stand by”, Ariclê Perez, Antônio Pitanga...

Tem esse lado da atriz que é muito forte e natural em mim, mas existe também um lado que não é, que se satisfaz com uma vida intensa. Eu posso deixar de ser atriz, mas de repente preciso novamente do palco.

Quem você namorou antes de Rogério?

Helena Ignez: Antes namorei Julio Bressane por mais de três anos, e ainda antes disso tive um namorado muito querido, um paulista chamado Carlos Acuyo, jornalista, muito amigo da atriz Maria Alice Vergueiro. Ele participava daqueles saraus organizados pela Maria Antônia (mãe de Maria Alice), também com Paulo Vilaça, Sérgio Mamberti, de quem fui madrinha de casamento. Esse foi meu primeiro período em São Paulo, e fiquei quase três anos com Carlos.

Além de jornalista, o que fazia o Carlos Acuyo?

Helena Ignez: Era jornalista, escritor e louco, mas dos bons! Era amigo de Carlos Henrique Escobar, esse poeta que foi o primeiro marido de Ruth Escobar.

Você conheceu Julio Bressane em São Paulo?

Helena Ignez: Foi no Rio. Ele assistiu à “Família Pouco Família” e era meu fã, mais moço do que eu. Um belo dia me convidou para fazer seu primeiro filme, “Cara a Cara”. Da mesma forma ocorreu com o Rogério, que já me conhecia como atriz. Com Julio era uma relação.... Fiquei um bom tempo sem me apaixonar, depois que me separei.

 
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