1
dossiê
FAMÍLIA DO BARULHO

A atriz Helena Ignez conta sua história de amor com o cinema brasileiro
Por Alvaro Machado



Helena Ignez em "Família do Barulho",
de Bressane/Foto de Ivan Cardoso

A atriz Helena Ignez mantém um caso de amor com o cinema nacional desde os anos 50. Do primeiro filme de Glauber Rocha, seu primeiro marido (o curta-metragem “O Pátio”, de 58), até o auge do chamado “cinema marginal” nos anos 70, com os diretores Júlio Bressane (seu namorado por alguns anos) e Rogério Sganzerla (seu marido há 31 anos), ela atuou em 17 títulos importantes. Com Sganzerla, Helena teve duas filhas, que também seguiram carreira artística: Sinai compõe trilhas sonoras e é musicoterapeuta, e Djin é atriz de teatro e cinema. Os quatro já trabalharam juntos, e suas biografias somadas sugerem que eles são, de fato, a verdadeira “Família do Barulho”, título de um longa-metragem de Bressane estrelado por Helena em 1970

A aura de escândalo e a fama de debochada colaram-se à imagem da baiana Helena Ignez desde sua interpretação em “O Bandido da Luz Vermelha” (69) e “A Mulher de Todos” (70), filmes dirigidos já em São Paulo por seu atual marido, Rogério Sganzerla.

Também no ano de 1970 sua boca escorreu sangue de catchup para uma cena de “A Família do Barulho”, de seu ex-namorado Júlio Bressane. A cena tornou-se ícone da vanguarda, homenageada por artistas do neoconcretismo carioca.

Antes disso, Helena foi musa e mulher de Glauber Rocha, no período baiano do qual saiu com estigma de “bandida”, como ela conta na entrevista concedida a Trópico, em duas sessões (São Paulo e Rio, dezembro de 2001 e janeiro de 2002).

Porém, quando se conhece melhor Helena Ignez, como nessa entrevista, o que mais impressiona é perceber que sua personalidade cheia de conflitos e sua biografia coalhada de reviravoltas refletem, nada mais nada menos, o acelerado processo de mutação da consciência e status social da mulher ocidental na segunda metade do século 20.

Belíssima e “educada para ser mulher de ministro”, como observou Glauber, aos 17 anos ela não se conformou em desfilar a plástica no concurso Glamour Girl de um clube exclusivo para brancos da sociedade soteropolitana. Na passarela comportada, sambou e fez caras e bocas, performance que arrebatou os rapazes e ao mesmo tempo angariou a execração da “gente bem”. O episódio não está contado nas conversas a seguir, mas percebe-se aí claramente que ela viveu de maneira intuitiva, porém intensa, a aventura de autoconhecimento e conquista que tem como marco inaugural o livro “O Segundo Sexo” (49), de Simone de Beauvoir.


Helena, parece que hoje você está preparando uma festa...

Helena Ignez: É o último dia da nossa temporada de “Antiga”, a peça esrita e dirigida por Dionísio Neto, e à noite vou abrir um champagne e servir um vatapá vegetariano, coisa que não faço há anos. Aprendi com Gilberto Gil na época do restaurante dele, o Expresso 2222, no Rio Vermelho (Salvador), nos anos 70. Vamos comemorar com o elenco e a produção um ano de trabalho, porque começamos em 5 de janeiro de 2001.

Esse processo de trabalho de um ano de ensaios para uma única montagem traz pouco retorno financeiro, não é?

Helena Ignez: Para os ensaios tivemos apoio da Formação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo (oficinas Oswald de Andrade), por meio do Antônio Carlos Sartini. Mas houve, também, muitos problemas no caminho de “Antiga”. Entraram e saíram diretor, atrizes, produtor... O que prejudicou bastante a busca de patrocínios. Estreamos em outubro de 2001 e em abril de 2002 voltamos ao Sesc Pompéia (SP), interior de SP, Salvador, Porto Alegre e outras cidades. Há perspectivas de apresentações no Festival do Porto (Portugal) e em Berlim.

“Antiga” teve, portanto, processo de trabalho bem diferente dessas produções com atores globais, que começam a ensaiar dez dias antes de estrear...

Helena Ignez: Nada a ver... Até mesmo o texto inicial foi trabalhado durante dois meses ao lado do autor: de quatro horas passou a uma e meia de duração.

Mas conta como você faz esse vatapá vegetariano...

Helena Ignez: O sabor não vem do peixe e do camarão, como no vatapá tradicional, mas de outros elementos. Porém também leva farinha de mandioca ou pão inchado, que ficam de molho no leite de coco. Eu uso os dois juntos, dá uma consistência bem legal. Depois você prepara o coentro, elemento essencial da comida baiana, e as outras coisas. Na África comi muito vatapá completamente vegetariano, e isso foi uma surpresa, ver como a comida africana é vegetariana... A coisa de colocar camarão seco no acarajé é baiana.

Como você chegou à África?

Helena Ignez: Com Rogério Sganzerla. Era o começo do namoro e nós estávamos morando em Londres, porque o Brasil estava impossível de se viver em 1970. E o inverno londrino era frio demais. Então resolvemos passar uns três meses na África do Norte, descendo também pelo deserto do Saara até a África Negra: Nigéria e Senegal.

Vêm dessa viagem os elementos místicos que você colocou no espetáculo que idealizou em 98, o “Cabaret Rimbaud”?

Helena Ignez: Tive muitas conversas com o marabu, o chefe religioso dos tuaregs. Também me espantou, na África negra, a versão deles sobre a própria raça. Diziam que a pele de seu povo era escura por causa do excesso de sensualidade, e que isso foi um castigo... Estranho ouvir tal coisa numa região onde há alguns séculos nem passavam brancos. Parece uma culpa, uma inferioridade, achei muito estranho.

O Gil também participou de uma caravana, mas fez só metade dessa viagem. Nós atravessamos lugares onde parece que nunca tinham visto branco. Estava conosco também o Johnny Howard, fotógrafo, iluminador de Zé Celso (Martinez Corrêa). O Johnny tinha migrado para Londres com essa turma grande: Antônio Peticov, Antônio Bivar, Leilah Assumpção, o cenógrafo Clóvis Bueno...

Quem era a sua amiga mais íntima nessa época do “exílio” inglês? Com quem você tomava chá?

Helena Ignez: Tinha muita gente por lá, mas Dedé Veloso era muito próxima. E também Sandra Gadelha, então mulher do Gil. Eu saía muito com Maria Helena Guimarães, fundadora do bar Ritz e do restaurante Spot de São Paulo, e com seu marido Artur Guimarães. Havia também a Rosa Maria Dias, que na época estava casada com o músico Péricles Cavalcanti, mas que há mais de 20 anos é casada com o diretor Júlio Bressane, que também morava lá...

A impressão que se tem dessa época quase mitológica dos brasileiros auto-exilados em Londres é que se usava muita droga...

Helena Ignez: Experimentavam-se coisas, mas ninguém usava cocaína, por exemplo. Jamais conheci alguém naquela época que usasse essa droga. E heroína também não. A “droga” mesmo não era usada. O que se tomava? Foi o “boom” da maconha no Ocidente naquela época e do LSD, que então era mesmo um ácido lisérgico, puro, sem anfetaminas.

Era uma descoberta do Timothy Leary, e pessoas como o diretor de teatro Fauzi Arap usavam LSD acompanhadas por psicanalistas. Interessava era o “open mind”, descobrir coisas vedadas a mentes tão politizadas como as nossas. Éramos então bastante marxistas, voltados para o consciente. Eu, por exemplo, tinha vindo do CPC (Centro Popular de Cultura), com uma formação política...

Na verdade, na época não gostei de nenhum dos dois, nem de maconha nem de LSD, sabe? Eu achei que a maconha me “desbundou”, que a “Helena Ignez desconhecida” me tirou do que eu era. Mas, por outro lado, abriu uma perspectiva de autoconhecimento. Na verdade eu não era tão interessada...

Mas eu falo de todo o grupo...

Helena Ignez: Bem... Queimava-se muito fumo, que na época vinha do Afeganistão e do Marrocos, o haxixe e o ácido eram dos melhores, o pessoal sabia fazer. Contudo, para mim foram apenas experiências juvenis, tipo “Lucy in the Sky”, porém com momentos visuais muito fortes, campos que se transformavam em verdadeiros quadros de Van Gogh... Mas também havia coisas muito dolorosas: sentir como o ser humano é mínimo diante de toda a pujança da natureza... Tive, por exemplo, a impressão muito forte, sentida no corpo mesmo, de que eu não passava de uma folhinha caída de uma árvore, com nenhum significado para a história da vida no planeta.

Em Londres também se trabalhava?

Helena Ignez: Bastante. Escrevia-se muito, filmava-se... Rogério, por exemplo, tem vários trabalhos na época dessa viagem africana. Caetano compôs muito. Mas era uma época mais de “curtição”, de conhecer a vida, um período em que estávamos deslocados de nossas origens, banhados por certa tristeza. O Caetano mesmo, nessa época, era bastante melancólico. Tinha saído da prisão e ficou mexido com aquilo. Havia a coisa forte da autopercepção. Queríamos sair daquela situação terrível em que estava o Brasil e trabalhar de alguma maneira para mudar os destinos do país.

Quanto tempo você morou na Europa?

Helena Ignez: Foram dois anos, durante os quais viajava-se também para outros lugares. Nesse período vim ao Brasil apenas uma vez, para a Bahia, lugar onde acreditava existir certa proteção. Fui a Arembepe, para curtir. Eu comecei a trabalhar muito cedo, com 17 anos estava na escola de teatro e fui uma tremenda “c-d-f”, com atividade muito intensa no teatro e no cinema ao mesmo tempo. Naquela época eu já tinha 30 anos. Portanto foram as minhas férias...

Você fez a escola de teatro da Universidade Federal da Bahia?

Helena Ignez: Numa das primeiras turmas, época extraordinária dessa escola de teatro, quando contava com patrocínio da Fundação Rockefeller. Era realmente um luxo, tínhamos os melhores diretores, inclusive norte-americanos. Lá também estudei dança, com a polonesa Janka Rudska, e música, com o mestre Koellreuter. Era um pessoal da pesada... Só depois do quarto ano de curso fui para o Rio.

Por que começou tão cedo? Que eu saiba, você era protegidíssima, no seio de uma tradicional família baiana...

Helena Ignez: Com 17 anos fiz vestibular para direito, mas também para a Escola de Teatro. A família é tradicional, sim, de origem portuguesa, Pinto de Melo e Silva, antiga, já quase extinta. Em casa tínhamos brasões, a Ordem do Cruzeiro do Sul e comendas desse tipo... Eles foram os fundadores do Elevador Lacerda, porque também sou Lacerda de Melo e Silva por parte de minha avó. Mas por parte de mãe, que é Villas-Boas, tenho descendência direta da índia Catarina Paraguaçu, a mulher de Caramuru.

Minha mãe era “prendas domésticas”, tocava piano e falava francês. Porém não eram ricos. Meu avô tinha sido poderoso, um dos donos da Bahia, mas já havia empobrecido, porque a região de Cachoeira, que era uma fazenda enorme, dos Lacerda e dos Muniz Aragão, já havia passado pela decadência das culturas agrícolas. Porém eles mantiveram princípios e educação muito cuidadosas. Eram aristocráticos, mas sem preconceitos raciais, ou com minorias como os homossexuais. Então não tive uma formação pequeno-burguesa típica da nossa detestável classe média... (ri), mas uma educação ligada a princípios humanistas.

E como era o ambiente da sociedade de Salvador que você freqüentava então?

Helena Ignez: O ambiente dessa alta classe média era escroto, para usar uma palavra bem correta. Extremamente hipócrita, racista, fazendo tudo por baixo dos panos. Engraçado que nessa época na Bahia se usava muita cocaína, entre os grã-finos do café society, ao qual graças a Deus eu não pertencia enquanto formação. Mas, como era uma menina muito bonita, antes dos 17 anos já me convidavam para concursos de Glamour Girl etc. e também para as grandes festas nas mansões baianas.

Como contratada?

Helena Ignez: Não! Como convidada! Queriam casar comigo figuras como Luiz Vianna Neto, que foi governador da Bahia, Ângelo Calmon de Sá, presidente do Banco Econômico, nas mãos do qual desapareceram bilhões recentemente, e outros. Mas era um tipo de ambiente que não me despertou afeto. Pelo contrário, formou meu outro lado, mais revolucionário. Depois acabei me engajando em movimentos como os CPCs.

O choque era inevitável?

Helena Ignez: Apesar da pureza de minha família, tudo conduzia para eu ingressar num caminho de alta sociedade. Glauber (Rocha) mesmo me dizia: “Helena, você foi educada para ser mulher de ministro”. Porém jamais gostei desse ambiente e, ao contrário, me apaixonei por um menino baiano louco, extremamente corajoso, talentoso, revolucionário, que era o Glauber.

Com que idade?

Helena Ignez: Tínhamos 19 anos quando nos casamos. Eu o conheci um ano antes, na faculdade de direito. Glauber era repetente em direito, por falta de freqüência às aulas. Começamos a namorar e então abandonamos o curso.

Mas você continuou a estudar...

Helena Ignez: Optei por Teatro, que era um curso que tomava o dia inteiro, uma formação extremamente completa. E Glauber já era uma vedete literária baiana, escrevia muito bem poemas, críticas de cinema, editava uma revista chamada “Mapa”... E era um charme, um encanto, menino frágil, bem intelectual. A gente se gostou logo de cara. Aquela troca de olhares fulminante, o destino. Depois de casados nem ficamos tanto tempo juntos, mas foi tudo muito intenso.

Vocês trabalharam juntos...

 
1