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novo mundo
BELAS LETRAS

Fontes.etc
Por Giselle Beiguelman

CD-ROM de designers brasileiros aposta na fecundidade das linguagens híbridas

Em uma obra premonitória, “Gramatologia” (“De la Gramatologie”, 1967), o filósofo francês Jacques Derrida alertava para a inadequação do livro, como artefato, ao pensamento contemporâneo.

Longe de pregar a barbárie, esse expoente do pós-estruturalismo solicitava, ao longo de quase 400 páginas impressas, que se refletisse sobre o tipo de escrita (ou escritura) que referenda a cultura do livro.

Trata-se de um universo simbólico, mostrava o filósofo, que parte do pressuposto que existe uma clivagem entre a fala e o texto. A primeira estaria diretamente relacionada à espontaneidade (fala-se sem pensar) e a segunda, a uma mediação da razão.

Nem é preciso explicar por que Derrida tem textos antológicos que criticam a antropologia estruturalista, através de “Tristes Trópicos” -de Lévi-Strauss, a lingüística, centrando fogo em Saussure e a psicanálise, tendo como interlocutor imaginário Lacan.

Todas essas formas de pensar, grosso modo, privilegiam o lugar da fala sobre o lugar da razão e cedem ao que Derrida identifica como uma certa metafísica aristotélica que vê “a voz como sopro da alma.”

Operar uma crítica da fonética e de suas articulações internas, fazer pensar que se pode ousar um pensamento não-fonético como matriz de novas práticas culturais, capazes de implodir as noções de volume e de linha, rumo a um mundo transdisciplinar é, sem dúvida, um dos méritos desse livro seminal.

Um livro que deveria estar no “read me” -aqueles arquivinhos chatos e imprescindíveis que acompanham os programas- do CD-ROM recentemente publicado pelos designers brasileiros Rafael Lain e Angela Detanico.

“Entre” é o nome do CD e traz já no seu título algumas das suas características. É um convite e um desafio. Convite porque nos chama a não pensar em mais nada além de incursionar no seu universo. Um desafio porque nos faz, a todo momento, titubear ao tentar defini-lo.

Trata-se de um projeto que fica entre a escrita e a fala, entre a música e o desenho, entre a letra e o dígito. Sem explicações, dá-se ao leitor duas possibilidades: tocar imagens, desenhando com sons, utilizando, aleatoriamente o teclado do computador, ou instalar uma série de 26 fontes criadas por Rafael Lain.

No primeiro caso, escolhe-se um fragmento de um dos desenhos dos autores, que vêm encartados como miniposters junto com o CD, e ao iniciar a digitação, começa-se a processar novas formas, ao mesmo tempo em que se compõe uma trilha sonora, dando cor ao áudio e som aos traços.

Apesar de parecerem composições musicais, os sons dados à reconstrução pelas imagens, são, originalmente, produzidos com um programa (o kinky beep) para criação de indicações sonora de rotinas e/ou problemas do sistema operacional dos computadores (tipo chegada de e-mail ou erro de processamento).

“Queria evitar a idéia de música como melodia. Comecei com sampler e depois deixei. Tudo ficava com uma harmonia muito circunscrita ao universo do áudio. Esse shareware, o kinky beep, pareceu mais adequado à proposta do trabalho”, diz Lain.

Não é só esse campo entre o áudio e a visão que interessa aos designers. As fontes também sofrem um tratamento rigoroso para que se posicionem nesse universo de fronteiras fluidas em que se interceptam tipografia, imagem e som.

Das 26 fontes disponíveis no CD, 14 são não-fonéticas e explicitam essa constelação. Todas foram criadas pela necessidade que Angela e Lain sentiam de dar uma voz própria aos trabalhos que desenvolviam, desde 1994, e foram se tornando com o tempo cada vez mais conceituais.

O marco decisivo, conta Lain foi o desenvolvimento da fonte “Ultrapassada”, disponível para download no site dos artistas (femur.com.br) feita a partir de estilhaços de um disquete.

“A partir daí o trabalho passou a ser realmente um exercício de recombinação de linguagens”, assinala Lain. Simultaneamente, foi assumindo um perfil deleuziano, evidente na própria epígrafe do CD, que cita uma passagem de “Mille Plateaux”, escolhida a dedo por Angela, que responde pela conceituação cuidadosa do projeto.

“Há ritmo desde que haja passagem transcodificada de um para outro meio”, diziam Deleuze e Guattari nessa obra. Um axioma que é levado ao limite na fonte “Utopia”, criada por Lain a convite da revista “Big”, para compor um número especial dedicado a Oscar Niemeyer, e que também está disponível para download no site da Fêmur.

Feita com miniaturas de projetos de Niemeyer, como o Memorial da América Latina (SP) e o Palácio da Alvorada (Brasília), e ícones dos resultados da falta de planejamento que prevalece nas grandes metrópoles brasileiras, “Utopia” consegue imprimir tensões urbanas às frases, sem apelar a qualquer recurso vernacular.

Às letras maiúsculas ficaram reservadas as belas linhas que tornaram a arquitetura de Niemeyer internacionalmente conhecida. Às minúsculas, placas que remetem a congestionamentos sem fim, grades que pretendem impedir a ocupação dos viadutos pelos sem-teto, entre outros signos de nosso horror urbano...

Propositalmente, as letras minúsculas foram construídas em quadros mais largos do que as maiúsculas e, por isso, quando digitadas em conjunto, seguindo as regras básicas da ortografia, fazem com que as minúsculas (os dejetos urbanos) subam, literalmente, em cima das maiúsculas (as formas da arquitetura modernista).

Emerge daí um texto que aparece como um tecido social sujo, em que o impasse entre o rigor e a beleza da arquitetura modernista e sua fragilidade para enfrentar o descontrole do crescimento urbano torna-se a chave de leitura de parte de nossa história recente.

Misturando referências diversificadas, que vão de zuzana licko (tipógrafa do famoso estúdio californiano Emigre) ao traçado revolucionário de El Lissitzky, “Entre” é um CD que desincumbe o design de qualquer função suplementar.

Não se desenha aqui apenas o que não se pode dizer com palavras. Tampouco, dá-se à escrita uma função de mediação entre a natureza e a razão. As relações não são de convenção.

Antes, fazem pensar, novamente, lembrando Derrida, que a conjunção das práticas da informação, da cibernética e das ciências humanas conduz a uma profunda subversão, em que a escritura aparece como “uma partilha sem simetria que desenha de um lado o fechamento do livro e, do outro, a abertura do texto”.

A confusão conceitual que os designers propõem em “Entre” está apenas começando. Não por acaso, foram convidados a apresentar “Entre” no festival “Eletrônika”, de música, em maio, em Belo Horizonte (MG), e, ao mesmo tempo, a desenvolver a tipologia do encarte sobre a 25 ª Bienal da revista “Bravo” (edição de março).

“A tipologia desse encarte foi toda inspirada na anarquia geométrica do bairro de Santa Cecília (região central de São Paulo), sem se ater à arquitetura particular de algum edifício. Ficou bem desconstrutivista. Mas o mais legal vai ser em Belo Horizonte. Fomos convidados como banda”, diz Lain, entre risos, orgulhosamente irônico.

Tem barulho bom aí.

link-se
Fêmur - http://www.femur.com.br
Emigre - http://www.emigre.com/
El Lissitzky - http://www.getty.edu/research/tools/digital/lissitzky/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

1 - “Entre” pode ser comprado na Bizarre (rua 24 de maio 116, cj. 13, São Paulo – SP) e pela Internet: femur@sindicato.etc.br . Custa R$ 30,00.

 
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