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novo mundo
BIENAIS

Qual é o lugar da webarte?
Por Giselle Beiguelman

Curadora fala como criações para internet se integram à bienal do Whitney Museum

Christiane Paul é a curadora de novas mídias do Museu Whitney (Nova York). Intelectual com um currículo invejável na internet ela se tornou conhecida no começo dos anos 90, quando criou “Unreal City”, um guia hipertextual do poema “Wasteland” de T.S. Elliot.

Alemã, doutora em literatura pela Universidade de Nova York, onde também desenvolveu seu pós-doutorado e se sintonizou com o pensamento pós-estruturalista, ela foi também a fundadora e editora-chefe da lendária revista de cultura digital “Intelligent Agent” (ainda on line, mas não mais viva) e mentora do Art Port, o portal de webarte do Whitney.

Está à frente de um projeto importante: apresentar obras de webarte na Bienal que esse museu inaugurou em 7 de março, integrando o setor ao conjunto da mostra.

De maneira bem objetiva, isso quer dizer expor obras concebidas para serem vistas não só no computador, mas também on line, sem dar cara de escritório ao espaço, nem de lounge, onde os computadores e telões costumam virar apenas peças decorativas do ambiente.

Desde a última Documenta de Kassel, quando pela primeira vez se expôs webarte em uma exposição que integra diversas linguagens artísticas, a discussão sobre como lidar com trabalhos dessa natureza ocupa curadores e gera atritos com os artistas.

Questões aparentemente banais, a começar pela própria necessidade de conexão no local, que para muitas instituições ainda é um problema, mas é inerente à arte criada para a internet, juntam-se a outras, mais conceituais, como: qual o sentido de se expor internet em um local determinado, se a fruição desse tipo de obra está diretamente relacionada à experiência deslocalizada?

A essas, adicionam-se outras que dizem respeito às instâncias intermediárias no processo de produção cultural contemporâneo, em que os patrocinadores dos projetos tornam-se, por um lado, capitais para viabilizar sua concretização, mas, por outro, muitas vezes, inviabilizam a plenitude da realização da mostra, tal qual foi concebida.

Um exemplo claro, singelo e extremamente corriqueiro. Se o patrocinador for da Intel, da IBM, da Toshiba etc., danem-se os visitantes usuários de Macintosh. Se for da Apple, virem-se os criadores que utilizam programação incompatível com o sistema operacional dos Macs.

Se o sponsor for a Netscape, azar dos artistas que conceberam trabalhos que demandam recursos específicos do Internet Explorer (da Microsoft). E por aí vai... E pena que não é só por aí, pois questões estruturais também são relevantes.

É bastante comum o uso de recursos que, a pretexto de dar unidade à mostra e impedir que o visitante “deixe” a exposição, retiram a barra de endereços do navegador, confinando o visitante nos sites escolhidos pela curadoria.

Alguns curadores mais tradicionais chegam até, por esses motivos, a defender o uso de cópias em CD ou no próprio disco rígido da máquina local, impedindo a exposição de peças interativas ou que tenha links para outros sites. Ou seja, para esses, paradoxalmente, webarte só interessa se prescindir do elemento intrínseco à sua natureza: a própria internet...

Esses são alguns dos problemas que Christiane Paul enfrenta. A eles ainda adiciona-se um outro, menos comum, mas não menos importante, que responde às características institucionais do próprio Whitney e de sua bienal: só expõe obras de artistas que criam e residem nos EUA.

Uma dor de cabeça louvável para quem pensa a internet como mídia global e que chama a atenção para um debate que, possivelmente, permeará a 25ª Bienal de São Paulo, pois ela terá duas mostras de webarte -uma “internacional”, com curadoria de Rudolf Frieling, do ZKM, e uma “brasileira”, com curadoria da pesquisadora em arte mídia Christine Mello, de São Paulo (clique aqui para conhecer a lista de convidados do núcleo brasileiro de webarte da Bienal de São Paulo).

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Christiane Paul à Trópico.


Trópico: Você é curadora de uma instituição tradicional, comprometida com a arte norte-americana. Qual foi a maior dificuldade que enfrentou ao apresentar seus projetos à direção do Whitney?

Christiane Paul: O maior desafio foi (e é) combinar o enfoque do Whitney sobre arte norte-americana com os aspectos globais da webarte. A definição do Whitney do artista americano é "aquele que vive e trabalha nos EUA". A questão que levantei é: "O artista que tem seu trabalho hospedado em um servidor norte-americano deveria então ser considerado como um artista que trabalha nos EUA, pois seu trabalho reside aqui, não é?”. Acho que quem cria para a Web, cria para um público global. Alguns projetos podem até ser considerados “nacionais”, em termos do seu conteúdo, mas não da distribuição.

Trópico: A distribuição na internet altera o estatuto de nacionalidade da obra?

Christiane: Quando um artista cria um trabalho desse tipo (on line), ele sabe que estará disponível para todo o mundo no momento em que fizer o upload de seus arquivos. Portanto, mesmo que esteja lidando com questões particulares a um país ou sociedade, ele sabe que suas propostas serão apresentadas e relidas em um contexto global. É por isso que lidamos com a noção de “netizen” (cybercidadão, em tradução livre). Em suma, diria que quem está criando on line endossa a superestrutura da internet e não se define em termos de sua nacionalidade.

Trópico: Como o museu vê a webarte?

Christiane: A própria natureza da webarte e da arte digital em geral impõe uma série de desafios ao museu como instituição. Isso, porque as tecnologias digitais e as mídias interativas redefinem as noções tradicionais de obra de arte, artista e público. Alguns trabalhos on line até têm algumas semelhanças com os objetos artísticos tradicionais porque transmitem uma idéia de objeto fechado, disponibilizando, por exemplo, imagens que se movem quando alguém faz com que se movam. São navegáveis para um usuário individual, mas não estão abertas à interação com a rede.

Contudo, muitas outras obras dependem de um constante fluxo de informações e incorporam os usuários ao trabalho. O conteúdo torna-se aí informação em trânsito, desconectado do objeto físico, e o público se converte em participante. Só isso já contraria a idéia do museu como um espaço para a contemplação de objetos sagrados. Freqüentemente, nesses casos, o artista se transforma em um agente mediador e facilitador da interação e contribuição do público ao seu trabalho, e todas essas questões demandam que o museu se reconfigure e se adapte às necessidades da arte digital.

Trópico: Como o público reage à introdução da webarte no museu?

Christiane: Esse é um outro problema. A arte digital requer uma compreensão mínima da mídia e da tecnologia, coisa que não é um “a priori” para o visitante que freqüenta o mundo dos museus tradicionais. Muita gente ainda se sente em pânico diante da tecnologia e acha que é necessário ser um “nerd” para entendê-la. É preciso ainda investir muito em um trabalho de base, expedientes educativos, simpósios, seminários e discussões, a fim de introduzir esse tipo de arte ao grande público.

Trópico: A webarte precisa estar presente no ambiente físico de uma mostra para que seja considerada parte integrante da exposição?

Christiane: A apresentação de trabalhos de webarte no espaço físico do museu levanta alguns problemas importantes. Trata-se de um tipo de arte criada para ser vista por qualquer um, a qualquer hora e em qualquer lugar, desde que se tenha acesso internet. Portanto, não necessita realmente de um museu para ser apresentada ao público.

Aliás, é bom lembrar que muitos webartistas escolheram justamente desenvolver trabalhos de webarte para se contrapor ao contexto do museu e todos os seus desdobramentos no circuito da arte tradicional e seus mecanismos de validação e de produção de commodities.

Para mim, webarte é Arte (com “a maiúsculo”) e me parece interessante vê-la em um contexto de mídias mais tradicionais e apresentá-la a um público maior. Mas, o mais importante, e o que me interessa particularmente, é o processo de recontextualização que a obra on line sofre no espaço físico do museu e a exploração da conexão entre o espaço físico e o virtual.

Trópico: Qual será o grande diferencial entre a mostra de webarte que você prepara para a Bienal de 2002 do Whitney e tudo o que já foi realizado na área?

Christiane: A grande diferença é que a seção de webarte estará integrada ao conjunto da Bienal do Whitney. Não haverá um espaço “especial” para os trabalhos de webarte. Eles serão vistos no contexto de outros trabalhos, mais tradicionais, espalhados entre os andares do museu. Alguns serão projetados, outros apresentados em pequenas instalações. Espero que todos sejam especiais, cada um a seu modo.

link-se
Whitney of American Art http://www.whitney.org
Unreal City - http://www.eastgate.com/catalog/Unreal.html
Intelligent Agent - http://www.intelligentagent.com/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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