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novo mundo
CONTESTAÇÃO

Para não dizer que não falei das flores
Por Giselle Beiguelman



Divulgação

Arte hacktivista contesta estatuto de propriedade intelectual e testa limites da privacidade

Enquanto juristas discutem o spam e hackers ocupam as páginas policiais, Taiwan se prepara para celebrar o reino da pirataria durante o ArtFuture 2002, que acontece em março, na Acar, galeria da Acer (fabricante de computadores), em um espaço de intervenção virtual.

Com curadoria de Armin Medosch, editor da revista alemã “Telepolis”, Shu Lea Chang, diretora do filme cult “I.K.U.” e do crítico de arte digital japonês Yukiko Shikata, “Kingdom of Piracy” (KOP) reúne projetos artísticos e teóricos que problematizam o conceito de “propriedade intelectual”.

O objetivo é consolidar uma rede de trocas de programas, códigos e experiências de trabalho que incentiva a pirataria em prol do desenvolvimento intelectual e da criação artística.

Parece discurso político e é. Não por contestar a legalidade, mas porque parte do pressuposto que essa ilegalidade impera em todo lugar e, por isso, propõe-se a ser uma esfera pública desse reino, que se expande em trocas de MP3, deslacramento de DeCSS (DVD content encryption system) e infinitos copy & paste.

O que vale aqui não é a contestação pontual da propriedade intelectual, mas a interrogação do seu estatuto no bojo da imaterialidade da nova economia. Não se trata, portanto, de uma apologia da barbárie, nem de uma reedição do velho debate sobre os limites entre a voz do dono e o dono da voz.

Trata-se de um ato de arte hacktivismo (“art hacktivism”), e até aí nada de novo, mas o fato de ser patrocinado por uma multinacional do ramo da informática transforma todo o contexto em um panorama mais complexo, porém difícil ainda de avaliar, sob esse ângulo, pois o que se tem é um site-piloto com algumas propostas.

Enquanto março não chega e a exposição não começa, vale pensar um pouco sobre o fenômeno do hacktivismo. Hackers e hacktivistas têm algumas semelhanças, contudo são diferentes, pois o hacktivismo é uma forma de contestação política que discute as relações de (cyber) poder.

Espécie de filhos pródigos dos grupos de “tactical media” (mídias táticas), chama a atenção que os hacktivistas começam a ocupar espaço na mídia e no circuito das exposições tradicionais e dos festivais de novas mídias.

Depois do lançamento do vírus artístico da 0100101110101101.org, na última edição da Bienal de Veneza, os softwares criados por artistas ganharam atenção da crítica especializada e dos curadores.

Além de KOP, já pré-lançado, o museu da Universidade de Princeton prepara-se para receber, no fim de janeiro, uma mostra artística sobre vigilância e controle on line que incopora essas questões.

A mostra é, na verdade, uma versão condensada de outra exposição sobre o tema, realizada pelo ZKM (museu de novas mídias da Alemanha), no ano de 2001, e seu diferencial é que inclui agora o projeto “Carnivore”.

Colaborativo, o projeto é realizado por um grupo de seletos web artistas, como Joshua Davis, o web designer número 1 do momento, Mark Napier, autor de “Riot”, “Feed” e outras pérolas, e Alex Galloway, diretor da Rhizome.org, a mais movimentada lista de discussão sobre webarte.

Programa rastreador (sniffer), ele transforma o fluxo dos dados em representações visuais. Quando alguém acessa o servidor do “Carnivore”, atualmente instalado na Rhizome, em Nova York, ele identifica o usuário e o tipo de dados que está enviando (mandando e-mails, navegando etc.).

Depois de interpretar os dados, os reenvia, por IRC (o programa mais antigo de bate-papo da internet), aos artistas que participam do projeto, os quais, em seus computadores, que aí funcionam como máquinas clientes, reprocessam as informações em outros formatos (imagens, áudio etc.) e as disponibilizam on line.

Por motivos de segurança, paradoxalmente, em Princeton, “Carnivore” funcionará dentro de uma sub-rede, a fim de impedir que os servidores da universidade sejam hackeados. Portanto, serão rastreados apenas os pacotes de dados que trafegarem no interior da exposição.

Ao que tudo indica, será necessário aguardar até fevereiro, quando acontece o “Transmediale” de Berlim, festival que vem se concentrando na proposta de ser o grande evento da criação de softwares artísticos, para ver o programa fuçando a todo vapor.

Se KOP mexe com o estatuto da propriedade, “Carnivore” desafia os limites da privacidade on line, já tão abalada pelos chatésimos spams, fazendo uma crítica sutil aos grandes centros de produção de poder e coerção.

É que esse programa foi inspirado numa polêmica ferramenta de vigilância da internet desenvolvida pelo FBI, o “Carnivore”, de quem o projeto não só decidiu incoporar os métodos, mas também o nome.

Irônico, retoma o estilo “We Love Your Computer” dos hackers e afina a sensibilidade debochada que marcou a onda do Spam Art, hoje meio em baixa, mas que continua firme e forte.

Iniciativa do web-interventor francês Frederic Madre, acabou se tornando mania e é a própria razão de ser de um dos servidores da Actions Réseaux Numériques e da lista de discussão asco-o, que, apesar de congregar vários adeptos da Ascii Art, tem seu sucesso diretamente relacionado a uma outra particularidade.

Ninguém se inscreve na asco-o para se comunicar, mas para gerar e receber spam. Dotada de boas ferramentas e interfaces que funcionam dentro de qualquer browser, ela permite, por exemplo, endereçar, via formulário, palavras censuradas por mecanismos de busca e/ou portais aos membros da lista, selecionando na vasta relação disponível no site.

Besteira? Masoquismo? Cybermonguice? Um pouco, mas nem tanto. A gente tende a tratar o Grande Irmão como um personagem de ficção orwelliana e acaba esquecendo que a internet não é um moto contínuo, capaz de funcionar sem programação, desenvolvida por insubstituíveis peoplewares e seus interesses políticos, econômicos e ideológicos.

Então, quando se entra em uma dessas listas do tipo da asco-o, ao invés de se sentir inundado por uma enxurrada de besteiras, toma-se um verdadeiro chá desalucinógeno de realidade.

Melhor que isso só instalando o salva-telas de Mark Dagget, que responde pelo sugestivo nome de “You’ll Show Me Yours”. Você instala o programa e, se estiver conectado, recebe um salva-telas com imagens do desktop de outros usuários desse software, e eles recebem as suas. Outra idéia é assinar a newsletter do Monty Phyton. Basta clicar em “Spam Club” e relaxar.

link-se
asco-o http://www.d2b.org/asco-o/
Carnivore - http://rhizome.org/carnivore/
Frederic Madre - http://www.nettime.org/nettime.w3archive/200011/msg00054.html
Kingdom of Piracy - http://kop.adac.com.tw/
Pythonline - http://pythonline.com/home.html
Spam Art Center - http://x-arn.org/spam/
Trasmediale 02 http://www.transmediale.de

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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