1
dossiê
O valor das coisas

O valor do veneno
Por Luiz Henrique Horta

“Venenos, com eles morremos, sem eles não vivemos”, pensei de repente, picando uma cebola na cozinha enquanto escutava o noticiário sobre o antraz. Não há lugar melhor para pensar -principalmente sobre venenos- que a cozinha, esta sucessora do laboratório de alquimia da Idade Média.

O antraz é conhecido velho. Supostamente terá sido ele uma das dez pragas bíblicas do Egito, ainda no Velho Testamento. Curioso que essa tão precária forma de matar seja a escolhida para dizimar populações. Talvez pela sedução de ser um mero pó branco, discreto, sutil, o que vai direto ao encontro de nossa morbidez, cultivada em romances policiais, cheios de envelopes assassinos e contaminações estranhas.

É, mas como veneno delivery acho que não vai dar certo, muito pouco eficaz.

Olho à volta tentando achar coisas comestíveis com as quais pudesse eliminar alguém, exercício hipotético, garanto. Umberto Eco diz ter escrito “O Nome da Rosa” porque acordou um dia com ganas de acabar com uns monjes...

Bem , há centenas de possibilidades de intoxicar comensais, mas, matar mesmo? E por que será que o assunto “venenos” é tão atraente? Pois até mesmo comemos alguns por prazer...

“Veneno”, informa o dicionário, é aquilo que destrói ou altera as funções vitais, no que incluiríamos todas as substâncias que provocam algum tipo de desequilíbrio no organismo. As toxinas, todas elas são venenos, o que significa que nos envenenamos diariamente.

Na cozinha há de tudo, desde os perigos da podridão, da ostra estragada em meio às inocentes, botulismo, salmonela, até os cogumelos impróprios, os pesticidas na alface mal lavada, o saturnino chumbo, as mansas contaminações pelas panelas de cobre, pedra, alumínio. Estes, venenos acidentais.

Nestas alturas, já me interesso por aqueles venenos que consumimos por gosto, voluntariamente, sendo o homem o único animal que escolhe o seu cardápio com uma semana de antecedência.

Cientificamente é muito simples. Qualquer coisa mata. Colocam toneladas de papaína num rato e ele morre de overdose de mamão papaia. Seria muito difícil repetir isto com qualquer outra substância em quantidades digeríveis.

Comer sucrilhos até a morte, por exemplo, é uma viagem tragicômica, absolutamente impossível. É neste ponto que os venenos alimentares se distinguem. Pela quantidade. Porções minúsculas de venenos industriais são suficientes para matar em instantes, como nas famosas cenas clichês de cinema, de anéis cheios de pó que fulmina. As toxinas naturais, já não; diluídas em proporções grandes, na comida, só causam mal estar, muito mal estar, mas morte certa é difícil.

Vejamos: a cafeína, por exemplo, que tomamos em diversas formas, refrigerante, chá, e principalmente café, nosso “ligador” diário, deliciosa toxina viciante, padroeira dos que se levantam da cama com dificuldade. Oliver Sacks escreveu um livro inteiro sobre enxaqueca para no final admitir que o café forte era um dos poucos remédios eficazes contra ela. E, no entanto, há também, uma dose fatal de cafeína. Para atingi-la, corrompendo o sistema nervoso central, seriam necessárias cerca de 200 xícaras de expresso (variável conforme a forma de preparo e tamanho das xícaras). Provavelmente morrer-se-ia antes de gastrite, outra vez a minha velha tese do rato de laboratório.

Pimenta, para quem não gosta, é uma coisa só, picante e desagradável. Para quem gosta são milhares, com diferenças de efeito, cor, tamanho, perfume. A culinária mexicana quase que se baseia nelas, na intensidade do ardor, nas filigranas de suas virtudes, do início da refeição à sobremesa.

Não me esqueço de um ensaio de Woyle Soyinka, prêmio Nobel da literatura, nigeriano, que nos conta de um inhame apimentadíssimo, comido como rito de limpeza e descarrego, em que o comensal passa tremendamente mal, transpira em jorros, tem uma paralisia de glote, sufoca, estupora por segundos. Depois vem o êxtase, a iluminação pela pimenta. Numa escala menor já passamos por isto num prosaico acarajé qualquer, desde o desconforto inicial, à vontade de comer mais.

Jambu parece ser daqui mesmo (mas, não é...), uma folha meio misteriosa, com o espilantol, aparentemente o mesmo componente da folha de coca e que causa dormência nos lábios. Ingrediente que frequenta com assiduidade os pratos indígenas da Amazônia, os tucupis fragrantes. Parece um espinafre, o gosto é indefinido, mas é bom comer com a sensação de anestesia leve na boca, comer com o tato, que a língua tem tato, sim senhores.

Mas o mais fascinante de todos, porque mata mesmo, continua matando e mata rápido, é fugu. Fugu é aquele peixe feioso, que incha como um pastel ao ser fisgado. Seu fígado contém uma neurotoxina terrível, muito mais poderosa que o cianureto. Uma dose do tamanho de uma cabeça de alfinete pode matar trinta adultos fortes. E matava. Até que em 1958 o governo japonês resolveu interferir e legislou a respeito, admitindo apenas cozinheiros treinadíssimos para o manuseio do peixe e proibindo que se deixasse aquela dose mínima do veneno na carne, prática anterior, que segundo os apreciadores dava o sabor especial a este sashimi. Mas, mesmo assim, ocorrem casos fatais.

E as pessoas querem se arriscar. Continuamos curiosamente provando do que não conhecemos. Nem tentarei explicar a razão pela qual nos arriscamos o tempo todo. Talvez porque a hipótese da saída apressada e indolor seja sempre cativante, cercados que somos pelo sono, sabedores do nosso destino comum e inescapável.

O veneno rebolando na língua, picando, adormecendo, ardendo, é uma flertada com a morte, como os esportes radicais, a alta velocidade, as aventuras malucas e os paraísos artificiais. Mais uma forma de quase-morte. Temperos.

Luiz Henrique Horta
É crítico de cultura, viajante interessado em comida e autor de "O Costume de Viajar".

 
1