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dossiê
O valor das coisas

Wolton fala sobre a valor da mídia e da diversidade
Por Juremir Machado da Silva



Eder Chiodetto

Inquieto, irreverente e disposto a andar na contramão do discurso crítico oficial sobre os meios de comunicação de massa e também sobre a endeusada internet, Dominique Wolton, pesquisador do CNRS (o prestigioso Centro Nacional de Pesquisa Científica da França), 56 anos, é um homem que acredita no Iluminismo, na democracia, nas concepções republicanas de organização social e no papel da mídia como fator de vínculo social.

Em quase três décadas de reflexão e de pesquisa sobre a “comunicação política”, Wolton publicou 16 livros importantes, entre os quais “Terrorismo e Mídia” (1988), “War Game - A Informação e a Guerra” (1992), “Elogio do Grande Público” (1990), “A Última Utopia” (1993), “Pensar a Comunicação” (1997) e “Internet, e Depois?” (1999).

Dos desgastes do progresso às ilusões ecológicas, passando pelas redes de telecomunicação e as relações entre velhas e novas tecnologias de informação, tudo é motivo para Dominique Wolton descarregar as suas baterias de argumentos pesados contra a mercantilização da vida.

Em “Elogio do Grande Público”, teve a ousadia de defender as televisões abertas, consideradas por ele como construtoras de laço social, contra os “guetos” das televisões por assinatura. No mesmo impulso, bombardeou o elitismo intelectual que nunca enxerga o papel democratizador exercido pela mídia. Com uma artilharia desse calibre, Wolton, evidentemente, soube arranjar seus inimigos, mas não deixou de obter aliados.

Com os atentados de 11 de setembro de 2001, Wolton voltou à carga para dissecar o par terrorismo/mídia. O homem que, sem rejeitar o grande salto de comunicação instaurado por internet, atreveu-se a mostrar que a técnica não substitui a política, apontou seus mísseis na direção da fábrica explosiva de estereótipos representada pela mídia globalizada.

Nesta entrevista exclusiva, Dominique Wolton prova que é possível ser crítico sem cair no apocalipse e denunciar os Estados Unidos sem mergulhar no ressentimento ou no antiamericanismo vulgar. Para ele, o 11 de setembro dobrou o sinos pela etapa neoliberal e selvagem da globalização. A queda das torres do WTC, assegura, é o símbolo de um problema maior de comunicação, o da incapacidade de compreensão entre as culturas, ou simplesmente o da incompetência dos Estados Unidos para aceitar e respeitar a diversidade cultural.


Como se pode analisar as relações atuais, depois dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, entre mídia e terrorismo?

Dominique Wolton: O objetivo do terrorismo é semear o pânico e levar ao desequilíbrio político mundial através da mídia. Na medida em que a mídia desempenha um papel importante nas sociedades democráticas e que a informação, hoje, funciona em escala mundial, os terroristas jogam também com a mídia, fazendo dela um amplificador.
Prova de que a mídia e a internet podem fazer o melhor e o pior. Isso reclama uma visão política, no sentido amplo da comunicação, ou seja, é preciso uma orientação, um projeto para os midia clássicos e novos. A mídia, ao contrário do que diz um poderoso estereótipo, é frágil e pertence ao patrimônio da democracia, assim como a escola, a justiça e as liberdades fundamentais.
Por isso, não se pode deixá-la entregue somente às leis da concorrência. Não se pode impedir os terroristas de utilizar a mídia, mas é possível dar contornos à liberdade fundamental da informação e da comunicação. A existência de lei não contraria à liberdade de comunicação, mas a protege. Deve-se rejeitar a ideologia liberal que, em nome de uma suposta apologia da liberdade da informação e da comunicação, sem controle, entrega, em realidade, esse setor essencial da democracia e da cultura aos ditames das leis do mercado e da globalização. Sim à economia da informação e da comunicação, mas à condição que simultaneamente se defenda também a informação e a comunicação como valores fundamentais da democracia.

Nesse momento, por toda a parte, existe um forte sentimento antiamericano. Intelectuais puderam, novamente, disparar toda uma gama de argumentos contra os Estados Unidos. Trata-se de uma postura legítima ou de um acerto de contas um pouco vulgar que contesta tantos os Estados Unidos quanto à democracia?

Wolton: Os intelectuais não são responsáveis pelo antiamericanismo. Com o fim do comunismo, só há uma superpotência econômica, técnica, militar, financeira. É normal que ela suscite oposição. Ainda mais que, e nisso reside a grande fraqueza dos Estados Unidos, trata-se da potência número um, mas de uma potência sem nenhuma curiosidade cultural por outra coisa que não seja ela mesma.
Como dirigir o mundo não querendo conhecer nada das civilizações, culturas, ideologias, representações, da Ásia, da América Latina, da África ou da Oceania? Os americanos crêem que o mundo pensa como eles e deve evoluir como eles. É nessa incapacidade de compreender os outros, nessa boa consciência e nesse espírito, pelo qual o dólar-rei tudo decide e determina, que reside a causa do antiamericanismo.
Para além das desigualdades entre Norte e Sul, das quais os Estados Unidos são o principal beneficiário, penso que a causa profunda do antiamericanismo não é econômica, mas política e cultural. Está nessa indiferença dos americanos pelas outras culturas. A CNN, rede que não é mundial, como pretende, dá o ponto de vista americano sobre o mundo, de forma caricatural.
De resto, os americanos devem refletir sobre este paradoxo: eles são favoráveis à globalização da informação e da comunicação porque a dominam, mas não percebem que, ao cristalizarem essa visão tão estreitamente americana da sociedade, da cultura e da política, com tão pouco interesse pelos outros, suscitam violentamente o antiamericanismo.
Na era da globalização da informação, os povos e as culturas querem ser reconhecidos. É o bumerangue da informação e da comunicação. Feito com base no modelo americano, com tão pouco espaço deixado às culturas do Sul, provoca, de parte das sociedades menos ricas economicamente, mas culturalmente ricas, um fenômeno de rejeição ao Ocidente.

Vejamos as relações entre mídia e representações sociais. Busca-se com freqüência culpar os meios de comunicação de massa pelas situações explosivas. Por exemplo, o papel da rede árabe Al Jazeera tem sido muito contestado por quem viu nela um instrumento do terrorismo, a serviço de Bin Laden. Os ocidentais conseguem fazer melhor ou apenas de comportam como instrumentos dos Estados Unidos?

Wolton: Os meios de comunicação desempenham um papel, no conjunto, positivo e democrático na informação, em nível mundial, denunciando ditadores e regimes autoritários. Se o modelo cultural da globalização da comunicação está muito marcado pela americanização, a informação globalizada, em contrapartida, especialmente graças ao papel fundamental das agências de notícias, é um fator de democracia.
Contudo, ainda é a visão ocidental da informação que predomina, o que explica a rejeição dos receptores, ou seja, da opinião pública, principalmente árabe, contrária à nossa visão de mundo. Desse ponto de vista, a dependência da CNN, depois de 11 de setembro, das imagens da Al Jazeera, é uma boa coisa. Serve para ensinar um pouco de modéstia.


Muito se falou, depois do choque de 11 de setembro, que o mundo nunca mais seria o mesmo após a destruição do World Trade Center. Agora, com a guerra vencida no Afeganistão, pode-se dizer que foi um exagero típico da mídia ou uma realidade compreendida imediatamente por jornalistas e observadores da cena política internacional?

Wolton: O mundo nunca mais será o mesmo depois do 11 de setembro de 2001. Ficou demonstrada a fragilidade americana. Atacou-se o símbolo do poderio técnico total dos Estados Unidos. Descobriu-se que o mundo ocidental é frágil e pode ser atingido no coração por militantes mais inteligentes do que todos os sistemas de informação automáticos.

A internet nada pode fazer contra os aviões suicidas, o que mostra também o nível de desespero exigido para aceitar o suicídio como forma de ataque. A violência do atentado reflete a violência da sociedade capitalista e a sua dificuldade para conviver com outras culturas. O terrorismo é inaceitável. Mas é preciso compreender o desespero que o gerou.

As desigualdades sempre existiram, mas a mudança, graças à globalização da informação, se tornou agora mais visível. Todo o mundo vê a desigualdade. Em resumo, a democracia fala de igualdade enquanto o capitalismo cria desigualdade. Para além da desigualdade econômica, o mais grave, sem dúvida, é a falta de comunicação entre as culturas.

Se o fundamentalismo islâmico é condenável, isso não elimina o problema do respeito à diversidade cultural e da convivência de diferentes religiões no mundo. O Ocidente rico, aparentemente tolerante, respeita as culturas que o atacam?

Há quem pense que os intelectuais têm a mania de pôr a culpa de tudo na mídia e de querer sempre andar na contramão da opinião dominante. Há verdade nessa suspeita ou se trata apenas de mais uma tentativa de tirar a responsabilidade dos meios de comunicação em relação à vida social?


Wolton: Os intelectuais continuam a não gostar da mídia, pois, em geral, consideram que os meios de comunicação manipulam as opiniões e os indivíduos. Entretanto, em 50 anos, viu-se muito mais o contrário disso. O público é, em geral, crítico em relação às imagens e nada passivo.

Além disso, os intelectuais, com freqüência de esquerda, que defendem a emancipação do povo, deviam perceber que o rádio e a televisão são instrumentos de emancipação de massa. Resultado: faz mais de 50 anos que os intelectuais não conseguem pensar o estatuto dos meios de comunicação de massa, contentando-se em repetir os mesmos estereótipos sobre o “povo manipulado pela mídia”, sem ver que, ao contrário, o público é mais inteligente do que parece, pois permanece crítico em relação às mensagens recebidas.

Os meios de comunicação informam, criticam e distraem. Se queremos que sejam melhores, é preciso que os intelectuais, mais do que criticá-los, lutem para melhorá-los.


Fala-se, novamente, muito de “sociedade do espetáculo”. As idéias de Guy Débord sobreviveram à queda de quase todas as previsões dos pensadores dos anos 60 ou se está tentando explicar o novo com velhos conceitos?

Wolton: O tema da “sociedade do espetáculo” remete à desconfiança e à crítica dominante entre os intelectuais em relação à mídia, em especial à televisão. Não concordo com esse pessimismo justamente por saber que nos últimos 50 anos se detectou que o público, o receptor, é, no fim das contas, muito mais crítico do que se imaginava.

Estamos numa sociedade na qual a imagem desempenha um papel muito mais importante do que há 50 anos. Mas o espetáculo não transforma tudo, não dirige toda a sociedade. Ocupa um lugar cada vez mais destacado do que há meio século, porém existem outras dimensões sociais relevantes, econômicas, culturais e políticas. Haverá um retorno a outros valores, pois o indivíduo não pode viver somente na imagem.


Os atentados de 11 de setembro, para ancorarmos a análise em fatos recentes e extraordinários, se inscrevem numa lógica da “sociedade do espetáculo”?

Wolton: Sim, se pensarmos que os terroristas quiseram fazer um espetáculo de morte e de medo. Não, se compreendermos que esse não era o único objetivo. Por trás da imagem espetacular, havia a vontade de destruir seres humanos, de estabelecer uma guerra de “religião”, de desestabilizar o Ocidente. Em outras palavras, a intenção era claramente política, antes de ser espetacular.

Os ocidentais enganam-se quando falam da política midiática de Bin Laden. Se Bin Laden é popular, não é por causa de sua estratégia de mídia. Mas por causa do combate político que representa, o qual encontra eco na população. O tema da “sociedade do espetáculo”, com freqüência, economiza as causas políticas, sociais ou culturais que explicam o sucesso do espetáculo. Simplifica. Em suma, o espetáculo é uma conseqüência, não uma causa.

A propósito das duas idéias sobre a mídia: o seu ponto de vista sobre a televisão aberta é, em geral, bastante otimista. Em contrapartida, o senhor parece muito reticente em relação à internet. Por quê?

Wolton: Não, não sou tão otimista em relação à televisão aberta, nem tão pessimista quanto à internet. Trata-se de duas formas de comunicação diferentes e complementares. A televisão, para a cultura de massas, está ligada ao extraordinário projeto de democracia para todos.

 
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