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dossiê
O valor das coisas

TV e o o valor do domingo
Por Esther Hamburger

Domingo é dia cristão do senhor, primeiro dia da semana, dia de descanso e oração, dos trajes formais de missa, do comércio fechado, do futebol, da vida em família. Não há registros precisos sobre a institucionalização do domingo.

Sabe-se que, ao fim do século primeiro da era cristã, o domingo já significava a vitória de Cristo na ressurreição. E em 321, Constantino, imperador romano, legalizou o domingo e proibiu o comércio no dia sagrado.

No domingo as cidades supostamente param silenciosas. Ao longo da história, as proibições atingiram o circo e o teatro. Até hoje, cidades com origens puritanas, como muitas nos Estados Unidos, proibem certas práticas, como a venda de bebidas alcoólicas, aos domingos.

Mas esse tempo do não trabalho ganhou valor. No mundo da economia globalizada e flexível que o século 21 anuncia, os limites institucionais de horário são cada vez mais tênues. Em países de capitalismo rigoroso, onde fazer compras é lazer, os domingos e feriados oferecem oportunidades de promoções especiais nas lojas que abrem depois do meio dia.

Em regiões mais permeáveis às novas ondas de comunicação digital, a conquista do domingo pode ser mais radical. A internet não tem horário ou dia da semana. O rádio e a TV oferecem um fluxo de programação contínua, que, aos domingos, acena com a possibilidade de conexão para além dos limites da casa, do trabalho, da igreja ou da escola. Foi aos domingos que Walt Disney consolidou seu espaço na TV.

No Brasil dos últimos anos o domingo se tornou o pomo da disputa milionária pela audiência de televisão. Nas favelas, cortiços e bairros de periferia, aos domingos a TV fica ligada o dia inteiro. O som das gincanas variadas oferecidas nos diversos programas de auditório como que preenche o silêncio das ruas, acenando com a possibilidade da performance no palco, difundida pelas ondas de TV para milhares de domicílios.

Meninas se preparam desde pequenas para desempenhar nos palcos de domingo. Um “book” de fotos, produzido por cadeias de fotógrafos especializados, instalados no largo 13 de Maio ou em São Miguel Paulista, sugere a possibilidade de uma carreira de modelo ou bailarina. Poses variadas, maquiagem carregada, penteados afetados, figurinos clichê, a fada, a soldadinha, a garota sensual.

A dança da garrafa, escandalosamente ensaiada nos quintais e salas de visita, praticada nas festas escolares, legitimada por pais e professores, como a Brasília amarela e inúmeras outras canções dramatizadas, oferecem o treino para uma almejada carreira artística.

Mães e pais estimulam o investimento de tempo e talento no que pode ser uma chance de inclusão naquilo que aparece como o supra-sumo do mundo real, o mundo do espetáculo. E o domingo, que é o dia de folga, se torna também o dia do acalento do futuro.

Os auditórios e palcos de domingo aparecem como via privilegiada da realização do sonho. O domingo há quase 40 anos é do Sílvio Santos e de suas “colegas de trabalho”. Os carnês do Baú da Felicidade, de porta em porta, se disseminaram com a ajuda televisiva. A TV promoveu o caixeiro viajante, divulgou eletrodomésticos e acenou com a possibilidade de disseminação de “bens de consumo não duráveis”, em suaves prestações, às vezes reduzidas por um sorteio.

Programas de auditório, precursores dos “reality shows”, oferecem a chance de consagração ao calouro que se apresenta sonhando com o sucesso, oferece dinheiro vivo, propõe gincanas, testa conhecimentos, joga com o sentimentalismo. O reencontro de entes queridos, acareações de conflitos familiares ou provas bem recompensadas compensam o trabalho de se expor na TV.

Esse domingo de sempre operou um marco na história da televisão brasileira. Depois de ameaçar a Globo com o Gugu no dia do descanso do trabalhador, com “Casa dos Artistas”, o SBT derrotou sistematicamente a concorrente. Afinal o sonho da realização no mundo do espetáculo não é exclusividade popular. “Casa dos Artistas” trouxe o público AB, ao menos o paulistano, para a emissora de Sílvio Santos.

Em “Casa dos Artistas”, a televisão funcionou como rede. A interação dos participantes da gincana no interior da casa esteve acessível ao público da Direct TV em tempo real, ao vivo, sem edição. Um capítulo editado com os melhores momentos do dia foi ao ar em horário nobre.

A cada domingo a rede se ampliava em sessões de “eliminação” conduzidas ao vivo por um Sílvio Santos que passava a intermediar a relação dos artistas na casa com o seu auditório, com os telespectadores. Ampliando a cada domingo o alcance de sua rede, o apresentador comentou notícias da imprensa e chegou a dialogar no ar com seu colega da Record. De emissora para emissora.

A rede realizou conexões inesperadas e foi animada pelo frescor do embate entre jeitos diferentes de ser com ares de novela sem roteiro. A ausência do autor eliminou a figura de um emissor centralizado a quem cabe a decisão sobre a sorte dos personagens.

A história foi se fazendo a cada dia, com interferências explícitas e comentadas, da produção, esse ente invisível que deixou de ser prerrogativa de Sílvio, da edição, da cobertura, dos parentes dos participantes, dos índices de audiência, dos intervalos comerciais, do voto de uns nos outros e, sobretudo, do voto dos telespectadores.

Os rumos da trama foram se definindo no embate imprevisível desses diversos vetores. “Casa dos Artistas” realizou uma ponte popular-elite, um pouco como nas novelas, que, ao menos por algumas semanas, perderam o apelo diante do dinamismo maior, não do drama, mas da rede que o “reality show” anima. Diante do “realismo” que performances ao vivo propiciam, o folhetim eletrônico parece velho e desprovido de emoção.

Na disputa entre “reality shows”, o domingo assume conotações de culto secular. O dia do senhor, tempo contido, reservado à preces sagradas, se vê ocupado por exercícios de veneração ao mundo da comunicação eletrônica, com seus ídolos mortais e fugazes, além de suas promessas de fama.

Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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