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novo mundo
ARTBIZ

Feliz Natal
Por Giselle Beiguelman

Consumo de protesto questiona relações entre mercado, arte e patrimônio

Parece que as viradas de ano ficaram mais chatas, depois daquela em que ficamos esperando o apocalíptico bug do milênio que não aconteceu. Mas, fazer o quê, não é?

Sem cometas, prenúncios ou alardes, 2002 está chegando e isso quer dizer no mínimo duas coisas óbvias: que o ano 2001 está terminando e que o Natal está próximo. Quer dizer mais, com certeza. Está aberta a temporada de retrospectivas, previsões e compras.

Entre mortos e feridos, expressão que neste ano não é clichê, apenas uma constatação, chegamos, feliz, infeliz ou inexoravelmente ao admirável mundo novo do artbiz (uma espécie de “upgrade” erudito no conceito -e prática- do showbiz).

Leilões virtuais ocupam o espaço de redutos tradicionais da intelligentsia conectada, como a thing.net, que foi a primeira comunidade virtual devotada à arte digital (fundada ainda na época das BBSs, em 1991).

Ali agora se pode comprar arte digital para a posteridade com a ilusão de que esse leilão é “guilty free” (sem culpa). Sinal dos tempos...

Pegando carona nessa idéia do potencial “vendável” da arte digital, mas guiando na contramão, vão se consolidando iniciativas curiosas que apregoam sutilmente um certo consumo de protesto.

Bom exemplo disso é o CD “The Best of 386DX”, do russo Alex Shulgin, com os melhores momentos da sua banda de cyberpunk rock, formada pelo artista e seu computador.

Traz clássicos como “Light My Fire” e “Should I Stay or Should I Go”, sintetizados em formato midi e reprocessados por um programa de conversão de texto em áudio. Imperdíveis, várias faixas estão on line, mas não a grande surpresa do CD: uma versão não-autorizada do Windows 3.1.

Sim, dá a impressão de ser presente de grego, mas se você utilizar o CD como disco de partida (um ritual jurássico, que se costumava chamar de “boot”) seu PC vai ganhar mais do que aquela carinha típica de computador “plug & pray”, que aterrorizou toda uma geração como a minha.

Seu computador vai virar um 386DX legítimo porque vai pensar (sic) no ambiente da primeira versão do Windows (entendeu a razão do sic?), permitindo criar imagens e sons no estilo da infoarte dos anos 80, processar programas escritos para esse tipo de máquina e reescrever, inclusive, as músicas que estão gravadas no CD.

Parece bobeira, mas no horizonte de bens descartáveis da indústria da informática isso faz um bocado de diferença. Obriga a pensar numa cultura sui generis que, na impossibilidade de manter e reatualizar seu presente, vai ficar sem passado em um futuro próximo.

Não deixa de ser fascinante, é certo. Vão ter que ser reinventadas as linhas e os métodos de se fazer história e talvez até nossas próprias técnicas e estratégias de memorização. Mas a rapidez do processo cria também uma paisagem cheia de traquitanas inúteis, que constitui um problema cultural, econômico e até mesmo ecológico...

Gebhard Sengmüller, inventor do maluquíssimo Vynil Video, que o diga. Ele produz vídeos em discos de vinil. Para assisti-los é preciso de um toca-discos (a vitrola, lembra?), televisão (tanto faz a marca) e o conversor que integra os equipamentos e é vendido junto com os vinis.

Os vídeos são de autoria de webartistas consagrados, como a dupla holandesa JODI e a russa Olia Lialina, além de criadores não integrados ao mainstream. Confira catálogo, imagens, loja virtual e documentação no site. É realmente um “must see”.

Pensando essa movimentação em busca do passado ultrapassado no contexto do “balanço”, que a época do ano inspira, percebe-se que ela não diz respeito apenas ao mundo do B2C (business to consumer, ou seja, varejo).

Situa-se também na escala macro do B2B (business to business), que é a escala dos grandes empreendimentos institucionais e dos acordos tácitos entre museus e patrocinadores. Em uma frase: o mercado da arte da nova economia e seu marketing.

Difícil falar dessas coisas e não citar o Guggenheim, que vem se tornando -para o bem ou para o mal, ou ainda para além de ambos- a fábrica dos paradigmas de novos modelos de gestão cultural.

Aqui, no entanto, a referência é inevitável. Foi nessa instituição que se lançou, no início de 2001, o ousado projeto “Variable Media Initiative”, que pretende estabelecer parâmetros de preservação de obras de arte efêmeras.

Pilotado por Jon Ippolito (sem “agá”), curador assistente de mídias do museu, em Nova York, não é apenas mais uma iniciativa de museologização da webarte. Isso já se faz há quase cinco anos no MoMa de São Francisco e no ZKM, museu de novas mídias da Alemanha.

O conjunto tipológico das obras é mais amplo e inclui, além de internet, perfomances, vídeo-instalações e obras concebidas para espaços determinados (site specific). Mais amplo, também é o conceito que articula essa política de preservação.

Ela é elaborada partindo do pressuposto que as estratégias de conservação, nesse caso, tem que ser delineadas levando em conta o grau de descartabilidade dos equipamentos. Um dos casos em estudo, por exemplo, é o “TV Garden” (1974), de Nam Jum Paik.

As questões que se colocam aí são do tipo: “Se o vídeo original do trabalho for regravado em DVD, deve-se acentuar, na remasterização, as características das imagens no formato original ou atualizar sua resolução e qualidade?”.

Uma equação simples poderia estar por trás dessa preocupação. Conservar a obra permitiria que se lhe atribuísse um valor e um peso econômico ao acervo, como capital de giro, no mercado de arte.

Mas essa equação simples é na verdade simplista. Embora tenha validade, não leva em consideração um elemento inédito em termos de preservação de patrimônio cultural.

O mais intrigante da proposta é o investimento na dinâmica do objeto e o diálogo entre a obra de arte, concebida para um dispositivo, e os novos equipamentos eletrônicos que o suplantam.

A emulação, um processo em que se transferem rotinas fazendo com que um programa ou equipamento incorpore o comportamento do outro, passa então a fazer parte dos métodos de preservação, que deixam de restaurar para readequar.

Mais complexas do que as simulações, as emulações, banais no cotidiano dos games, mas ainda uma novidade no circuito da arte institucionalizada, não nos põem em um túnel do tempo, animam fragmentos de um passado que nunca foi em um presente que nunca existirá.

São talvez o anúncio de outras relações de uso e fruição, que se compõem com essas transformações profundas que afetam as relações entre mercado, arte e patrimônio, apontando tanto para um neocolecionismo como para um jogo inusitado entre o reciclável e o descartável.

Mas, antes que esse metapresente nos engula ou nos delete, é bom lembrar que tem calendário de 2002 para download grátis, feito por Ken Friedman, do lendário grupo Fluxus que marcou os anos 60 e 70.

Bom, não. É ótimo! E oportuno. Afinal, toda essa história de consumismo às avessas e desenvolvimento de gadgets críticos às ações museológicas e suas relações com o mercado passa por esse grupo e sua inspirada ironia.

Boas festas.

link-se
auction.thing.net - http://auction.thing.net/
The Best of 386 DX - http://www.easylife.org/386dx/
Vynil Video - http://www.vinylvideo.com/
Variable Media Initiative - http://www.three.org/z/varia_root/variable_media_initiative.html
52 Events by Ken Friedman - http://www.heartfineart.com/Images/Friedman%2052%20Events.pdf
Fluxus - http://www.fluxus.org
Artcart - http://www.artcart.de

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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