1
novo mundo
PÓS-HUMANIDADE

A coelhinha e a bioarte
Por Giselle Beiguelman



Camundongos do projeto "O Oitavo Dia"/Divulgação

Eduardo Kac discute ética e afeto no mundo dos seres criados em laboratório

Uma das páginas mais desconcertantes da filosofia contemporânea foi escrita por Michel Foucault. Dizia que “é um reconforto e um profundo alívio pensar que o homem não passa de uma invenção recente, uma figura que não tem dois séculos, uma simples dobra do nosso saber, e que desaparecerá, assim que se encontre uma nova forma”.

Isso foi publicado em 1966, no livro “As Palavras e as Coisas” (o do ensaio antológico sobre “As Meninas”, de Velásquez). Se você não leu, leia, pois Foucault anunciava reflexões que estão na pauta do dia, nesses tempos de transexualismo, Botox, Johnny Mnemonic, Michael Jackson, projeto Genoma e muito silicone.

Recombinam-se agora as relações entre tecnologia e natureza, rumo ao mundo dos seres livres do atavismo biológico. Um mundo pós-humano, onde seremos talvez apenas uma população entre outras de avatares (personas virtuais) e indivíduos gerados por manipulação do código genético.

Um mundo que já pode ser parcialmente observado e vivido, durante o lançamento do mais recente projeto de Eduardo Kac, “O Oitavo Dia” (“The Eight Day”), ocorrido no fim de outubro, na Arizona State University.

Brasileiro, carioca, nascido nos idos de 62 e vivendo desde 89 nos EUA, onde leciona e pesquisa, ele é um dos mais renomados artistas envolvidos na criação com novas mídias.

Dedicado à reflexão sobre arte e biotecnologia desde 1997, quando apresentou “A Positivo” (“Positive A”), em Chicago, incorporou a engenharia genética ao seu trabalho em 1999, tendo o início do projeto “Gênesis”, como marco de sua incursão no que chama de arte transgênica.

“Gênesis” já rodou o mundo e foi exposto também no Brasil, no Itaú Cultural, em 2000. Foi feito com um gene sintético, chamado por Kac de gene artístico, produzido a partir da tradução de uma frase bíblica em código Morse. Essa frase foi retraduzida na estrutura de DNA, dando vida a um gene artificial, o qual foi injetado em uma bactéria.

A frase original, do próprio livro do Gênesis, era: “Que o homem domine os peixes do mar e o vôo no ar e sobre todos os seres que vivem na Terra”. Pela Internet, os espectadores podiam modificá-la, controlando a iluminação ultravioleta do espaço e, com isso, causando mutações no código genético da bactéria.

Kac introduzia aí novos elementos à discussão sobre poder e tecnologia, ética e estética, chamando a atenção para o peso da tradição religiosa nas crenças científicas e questionando todo tipo de heranças imutáveis. Um questionamento que em “O Oitavo Dia” ganhou contornos ecológicos e sociológicos.

Os títulos dos trabalhos (ambos baseados na história da Criação, do ponto de vista bíblico) enunciam parte das motivações conceituais do projeto.

“São trabalhos que se referem de forma crítica a aspectos gerais da cultura judaico-cristã, também presentes no budismo, com destaque para a crítica da noção hierárquica da vida, que coloca o ser humano no topo e os outros seres vivos abaixo”, disse Kac em entrevista a Trópico.

Pensando a profunda transformação cultural que a biotecnologia enseja, ele lidou em “O Oitavo Dia” com uma população de criaturas fluorescentes criadas em laboratório, que, vistas em conjunto, sugerem o núcleo de um emergente sistema sintético bioluminoso.

Essas criaturas conviveram com um robô (o biobot), em um domo de vidro de 1,20 metros de diâmetro, compondo um ecossistema formado por plantas, peixes, amebas e camundongos, todos frutos de uma alteração de seu código genético.

A alteração do código genético foi causada pela introdução de um gene artificial, responsável pela proteína GFP (Green Fluorescent Protein, proteína verde fluorescente) e pelo próprio biobot (um robô que dispõe de um elemento biológico ativo, no caso uma colônia de amebas-GFP que funcionavam como suas células cerebrais).

Toda vez que as amebas se reproduziam, o robô se movia, suavemente, para cima e para baixo, e se deslocava pela galeria acompanhando os momentos de atividade, ascendentemente, e repouso, de forma descendente.

Era dada ao visitante a possibilidade de ver a instalação do ponto de vista do biobot, ao interagir com a obra pela Internet, integrando o sujeito remoto nesse ecossistema transgênico pelos olhos do ser robótico.

“Houve uma dinâmica muito interessante, na qual todos os organismos afetaram os demais”, contou Kac em sua entrevista. “Um aspecto inesperado foi que alguns camundongos gostaram de passar o tempo em baixo do biobot. Outro aspecto interessante foi o encontro da rede de seres humanos na Web com a rede de amebas dentro do corpo do biobot.”

Prestar a atenção nesse movimento é o que mobiliza o artista, explicando a diferença entre os pressupostos da pesquisa genética e da arte transgênica que pratica:

“Não me preocupo com a produção desses organismos em série. Não sou um criador de animais, mas desenvolvo projetos de arte transgênica. Não são as questões do objeto genético que me interessam, mas a invenção de temáticas transgênicas sociais, que nos obriguem a refletir sobre novas relações” .

Relações que são éticas e afetivas e que se tornam centrais, quando se lembra que entre “Gênesis” e “O Oitavo Dia”, ficou Alba, a coelhinha que teve seu código genético alterado no laboratório de Jouy-en-Josas, na França, e que protagonizou o polêmico “GFP Bunny”, do artista.

Albina, a coelhinha, nasceu em 29 de abril de 2000. Kac fala emocionado como foi tê-la nos braços, quando nasceu: “Assim que a peguei no colo, se aninhou, e instantaneamente me despertou a consciência da responsabilidade que tinha com ela como ser vivo”.

E isso é importante, porque é aí que a emergente bioarte mostra sua distância em relação aos projetos dantescos da eugenia nazista, que fizeram uso da pesquisa genética para dar uma dimensão estética e política à biologia.

“O que Mengele e os nazistas fizeram não foi experimentação genética. Foi tortura sádica de seres humanos a serviço de uma agenda genocida. É essencial desautorizar toda e qualquer aura de autenticidade científica do nazismo. Não há nada no nazismo que seja propriamente científico. O que há é abuso de idéias oriundas da ciência e da filosofia para fins totalitários”, disse o artista.

Kac não conseguiu obter autorização para levar Alba para sua casa, em Chicago. Isso já deu o que falar e continua dando. Resultou em uma intervenção urbana do artista em Paris, onde afixou, entre 3 e 20 de dezembro de 2000, uma série de pôsteres relativos ao assunto, e movimenta um interessante livro multiautoral na Web, o “Free Alba!”, até hoje.

Mas ele gosta que se pondere bem a questão: “Proponho a presença em casa de Alba, assim como de outros possíveis organismos, ainda por serem imaginados e criados, não porque quero ter a casa cheia de seres fluorescentes, mas porque reflito nas questões psicossociais dessa relação.”

Uma reflexão que mistura a psicologia de Humberto Maturana, especialista em biologia da cognição, para quem o afeto emerge na medida em que é criado o “domínio consensual”, à compreensão da “diferença que não é indiferença, é responsabilidade", pressuposto do filósofo judeu Emanuel Levinas.

Não se trata, portanto, de dizer que o afeto é a única forma de lidar com questões éticas, e sim de reconhecer, diz Kac, “como já o fazem as pensadoras feministas há décadas, a importância prática e intelectual do contato físico, do afeto e do cuidado mútuo. No caso da arte transgênica, a ênfase no aspecto relacional e ambiental também nos permite resistir a falsas noções de determinismo biológico”.

Dá o que pensar, não dá não?

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
1