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INVESTIGADOR: Deixa que eu atendo. Deve ser gente da imprensa...

A câmera segue Tavares até o hall de entrada. Ele abre a porta. Dá de cara com Paulo Hermes, o assessor e braço-direito do senador Baldani. Está trajando um terno elegante, e pela postura percebe-se que é uma pessoa influente.

PAULO HERMES (estendendo a mão): Você é o Tavares, não é?

O investigador perde toda a pose rígida que vinha representando.

INVESTIGADOR: Doutor Paulo Hermes... O chefe avisou que o senhor viria... A gente já tava começando a apertar o garoto.

PAULO HERMES: Eu disse pra não fazer isso! O menino acabou de perder a mãe, porra!

INVESTIGADOR: Tem que fazer o serviço... O senhor demorou...

PAULO HERMES (passando por ele, entrando no apartamento e caminhando na direção da sala, seguido por Tavares): Ah, meu Deus... Cês pensam que eu vim de onde? Da Barra Funda? Eu tava em Brasília! No meio da confusão que aquela maluca inventou! A oposição enchendo o saco, jornalista pra tudo que é lado... Quase que eu perco o avião! O menino... A gente tem que sumir com ele antes que a imprensa apareça...

INVESTIGADOR: Até pensei que era repórter.

PAULO HERMES: Alguém abriu o bico?

INVESTIGADOR: A mulher é conhecida no meio da moda... Cê sabe como é que é na delegacia... Sempre vaza.

PAULO HERMES: Se isso vaza e descobrem o garoto, vai ser merda pra tudo que é lado...

INVESTIGADOR: Mas o que o garoto tem a ver com isso?

PAULO HERMES: O garoto, Tavares, é filho do homem!

Tavares coça a cabeça. Os dois chegam na sala. Paulo Hermes se apressa em ir até Luís.

PAULO HERMES (para a investigadora): Me deixa sozinho com ele.

Paulo Hermes, com jeito, força Luís a se levantar do sofá.

PAULO HERMES: Onde a gente pode conversar sossegado?

LUÍS: No quarto dela...

Paulo Hermes hesita, olhando Luís com estranheza.

PAULO HERMES: Por que não no seu quarto?

LUÍS (encarando Paulo Hermes com dureza): Não. No quarto dela.

Os dois saem da sala na direção do quarto. Os investigadores ficam sozinhos.

INVESTIGADORA: Quem é o “bom” aí?

INVESTIGADOR: É um fodão de Brasília, braço-direito do senador. Diz o chefe que manda mais que o “pica-doce”. A ordem é dar uma força.


6. SÃO PAULO/ COBERTURA/ QUARTO DE ISABELA - INT/ DIA

O quarto de Isabela é bem espaçoso, muito bem decorado e arrumado, típico da estilista renomada que ela era. Num dos cantos, há uma grande bancada onde se destacam os desenhos de um vestido de noiva criado por ela. Destaca-se também uma cama de casal, coberta por uma belíssima colcha lilás, trabalhada. Luís Roberto e Paulo Hermes entram no recinto. A expressão do rapaz, no momento em que entra no quarto, é de profunda desolação. Paulo Hermes percebe e aperta seu ombro, paternalmente.

PAULO HERMES: Você ainda não tinha entrado aqui, não é?

Luís, sem responder, vai até o local de trabalho da mãe. Passa a mão pelo desenho e desaba a chorar. Paulo Hermes vai até ele. Volta a colocar a mão em seu ombro.

PAULO HERMES: Você precisa sair desse apartamento. Ficar longe da polícia, da imprensa... dos abutres... Eles não vão te deixar em paz... Você vai sofrer muito...

Luís consegue reprimir o choro. Vira o rosto para o outro, com os olhos molhados mas com severidade.

LUÍS: Cadê o filho da puta? Ele devia estar aqui pra eu cuspir na cara dele!

PAULO HERMES: Isso não vai trazer sua mãe de volta, Luís... Você sabe que ele é louco por você... Que tudo que tá acontecendo é porque a maluca descobriu que você existe. Ela não perdoa não ter tido um filho homem... do teu pai ter se apaixonado por uma mulher como a sua mãe... bonita, sofisticada, independente... O que ele mais queria é ficar com vocês... Ele abriu o jogo com a maluca, e ela ameaçou fazer o escândalo... Ele foi pra Brasília, e ela fez o estrago...

LUÍS: Mas ele é um canalha, mesmo! E as outras mulheres?

PAULO HERMES: Coisa do passado... Eu que sei o quanto ele está abalado com a morte da sua mãe.

LUÍS: Então por que ele sumiu?... Por que não tá aqui?

Paulo Hermes faz um gesto de impaciência com as mãos, e senta na beira da cama.

PAULO HERMES: Porque tá todo mundo em cima... a oposição inteira, a imprensa... Até os cagões do partido... (mais para si mesmo) Esses são uns filhos da puta, traidores... Vê o senador Basset... tem quatro famílias espalhadas pelo país, vendeu cargo pra todo mundo, e ainda vem dar lição de moral! Deve um monte de favores pro seu pai, e tá aí... Enxovalhando o nome dele pros jornais de Brasília! Esse, deixa a coisa esfriar que eu “armo” pra ele...

LUÍS: Minha mãe...

PAULO HERMES: Que foi?

LUÍS: Se ela estivesse viva, ela não deixava você sentar aí.

PAULO HERMES (pasmo): Por quê?

LUÍS: A colcha... Você tá amassando...

Paulo Hermes imediatamente se levanta e arruma a colcha.

LUÍS: Ela tinha ciúme dessa colcha... Deu muito trabalho pra ela...

PAULO HERMES: É linda.

Luís caminha até a bancada e começa a tocar nos objetos de trabalho da mãe. Paulo Hermes consulta o relógio.

PAULO HERMES: A questão é essa, Luís: eu tenho que levar você comigo. Seu pai quer você longe da bagunça...

Luís apanha uma tesoura e aperta-a com a mão direita.

LUÍS (visivelmente irritado): Essa é a minha casa. Eu não vou sair daqui.

PAULO HERMES: Você ainda é menor de idade. Você não pode ficar aqui sozinho.

LUÍS: Tem minha avó no interior, eu trago ela...

PAULO HERMES (respirando fundo e falando com dureza): Seu sobrenome é Baldani, esqueceu? Você acha que seu pai não tomou todas as providências? Agora ele é o único responsável por você!

Luís vira para Paulo Hermes, possesso, com a tesoura na mão.

LUÍS: Isso é uma loucura! Eu quase nunca vi esse cara! Eu só vejo você!

PAULO HERMES (tentando chamá-lo à razão): Você tem que vir comigo! São ordens.

LUÍS: Mas não vou mesmo!... (se dando conta) E minha mãe? Eu tenho que enterrar ela!

PAULO HERMES: Tem gente cuidando de tudo no IML. O corpo vai ser liberado e ela vai ter um enterro à altura do nome dela. Eu juro. Se você ficar, você acha que vão te deixar em paz? Você não tem idéia do inferno que você vai passar!

LUÍS (completamente perplexo): Como vocês podem ser tão escrotos? Você acha que eu não vou no enterro da minha mãe?

PAULO HERMES: Seu pai não quer.

LUÍS (perdendo a paciência): Ele não quer? Quem ele pensa que é? Ele pode mandar em você, que é propriedade dele! Em mim ele não manda... Ele nunca fez nada pela gente!

PAULO HERMES (respirando fundo, e jogando duro): Olha, moleque... Isso não é brincadeira. Você vai comigo! Põe na cabeça que agora quem manda em você é teu pai, goste você dele ou não! Você agora não tem nada, só tem ele! E tem mais! Tudo que tá aqui dentro é dele! Sempre foi! O apartamento, o carro, a sua mãe, você... Até esse edredão que sua mãe tinha tanta frescura é dele!

Corte para câmera colocada no exterior do apartamento, mostrando o que acontece no quarto através das janelas de vidro fechadas. Luís, num repente, vai até a cama com a tesoura em riste, e, violentamente, desfere tesouradas a esmo na colcha lilás. Em segundo plano, pode-se ver Paulo Hermes caminhar calmamente na direção da porta, sair do quarto e fechá-la, como se nada estivesse acontecendo (ele, agora, dono da situação). Em pleno desvario, Luís usa a tesoura para rasgar a colcha.

Carlos Reichenbach
É diretor de cinema, realizador, entre outros, de "Amor, Palavra Prostituta", "Anjos do Arrabalde" e "Dois Córregos".

 
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