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dossiê
CINEMA BRASILEIRO

Bens confiscados
Por Carlos Reichenbach

Um trecho do roteiro do novo filme do diretor de "Anjos da Arrabalde" com a atriz Betty Faria

A vida política do Brasil está no centro de “Bens Confiscados”, o novo filme do diretor Carlos Reichenbach, que será estrelado por Betty Faria. Para o diretor, trata-se de um “melodrama político” sobre o processo de despersonalização de uma mulher e a história de seu amor impossível por um rapaz mais novo, em meio às perversões do poder, à corrupção e ao tráfico de influências.

Serena, o papel principal do filme, foi concebido para Betty Faria. Em 87, o diretor e a atriz fizeram uma bem-sucedida parceria em “Anjos do Arrabalde”, que ganhou o prêmio de melhor filme e de melhor atriz no Festival de Gramado de 87. Betty Faria é também é co-produtora de "Bens Confiscados", ao lado de Sara Silveira e Carlos Reichenbach. A música será composta por Ivan Lins, que fez a trilha do filme anterior do diretor, “Dois Córregos”.

“Bens Confiscados”, segundo Reichenbach, vai se inspirar visual e cromaticamente nos tons dos melodramas de Douglas Sirk (“Palavras Ao Vento” e “Imitação da Vida”) e nas experiências mais ousadas de Michael Bauhaus para os filmes de Fassbinder (sobretudo, os matizes “pesados” de “Martha”).

Leia a seguir as seis primeiras seqüências de “Bens Confiscados”, no roteiro de Daniel Chaia e Carlos Reichenbach, a partir de argumento do diretor.

1. APARTAMENTO DE COBERTURA/ ACLIMAÇÃO, SÃO PAULO - INT-EXT/ ANOITECER

O filme inicia com um close do rosto de Isabela Siqueira, uma linda mulher de 40 anos. Pela iluminação e pela imagem de fundo, pode-se perceber que se trata de um final de tarde, quase anoitecer. O ambiente é o terraço de uma cobertura no bairro da Aclimação, em São Paulo (região típica da classe média “remediada” e de aposentados abastados, dominada pela especulação imobiliária, mas com apartamentos de cobertura sem muita sofisticação). Um dos lados do rosto da personagem está mais iluminado, indicando a iluminação que vem do interior do apartamento.

Os olhos de Isabela estão lívidos. Sua expressão, embora serena, nada reflete. Seus cabelos longos e soltos balançam ao sabor do vento noturno.

Em contracampo, a câmera à altura da sua nuca, com o cabelo por vezes “manchando” o quadro, pode-se avistar um geral da cidade de São Paulo, ao cair da noite, marcada por pontos de luz. Em movimento de grua, a câmera desce pelo corpo de Isabela, o belo vestido de noite sendo agitado pelo vento noturno, passa pelas suas pernas desnudas, pelos pés descalços (revelando discretamente que ela está de pé sobre o parapeito do muro da sacada), até o quadro ser completamente coberto pelo muro.

No interior do apartamento, o adolescente Luís Roberto, filho de Isabela, 16 anos, entra em casa, trazendo na mão seu material escolar. Ele parece agitado e cheio de vida. Atravessa alguns aposentos, vai espalhando os livros escolares em um lugar e outro, até chegar à sala principal. Próximo a um telefone, encontra um jornal. Lê rapidamente a manchete, que não é revelada pela câmera. Subitamente ele fica possesso e rasga o jornal num repente. Só nesse momento, ele se volta na direção da porta que dá acesso à varanda.

De seu ponto de vista, podemos ver, pela primeira vez num plano mais revelador, que Isabela está sobre o parapeito, elegantemente vestida como se fosse sair para uma solenidade, descalça, pronta para se atirar no vazio.

Num plano mais fechado de Isabela, ela vira o rosto para o filho e sorri com a expressão tranqüila. Decisão tomada, ela se atira no vazio, sumindo do enquadramento.

Plano de Luís Roberto, estarrecido, que desaba sentado no chão, como se as pernas não mais o obedecessem.


2. TELA DE TV/ NOTICIÁRIO - INT/ ESTÚDIO

Na tela da TV, a vinheta do telejornal noturno de um importante canal de televisão. Entra o rosto do âncora, dizendo o seguinte:

ÂNCORA: Novas informações sobre o escândalo Américo Baldani. O senador da oposição Rogério Paquistão, do Mato Grosso do Sul, afirma que já está tomando providências para iniciar o processo de cassação do senador.

Insert de close do senador Paquistão, cercado por microfones.

SENADOR PAQUISTÃO: O depoimento da senhora Baldani por si só já constitui forte evidência! Se o senador tiver bom senso, ele renuncia amanhã, mas ele não tem esse bom senso nem essa grandeza. De qualquer forma, já se prefiguram indícios de omissão ou de participação ativa em esquemas de corrupção. Por isso, a bancada oposicionista vai tomar todas as providências para iniciar o processo de cassação do senador.

Uma jornalista, em off, tenta fazer uma nova pergunta, mas o insert é cortado.

ÂNCORA: É, a coisa vai começar a ficar feia. O que já não é mais novidade nenhuma. (O âncora faz uma pequena pausa e vira para outra câmera.) O deputado federal Aristides Majorca, companheiro de partido do senador, suspeito de ser o caixa do sórdido esquema de tráfico de influências, negou as acusações.

Insert de entrevista com o deputado Majorca. Só se vê o rosto dele, cercado por dezenas de microfones e gravadores.

DEPUTADO MAJORCA: Essa senhora não está de plena posse de suas faculdades mentais. E mesmo sendo inimputável, vou processar a madame, pela minha honra e pela minha fidelidade ao senador, que é uma pessoa de carreira política ilibada! Essa senhora está demonstrando que não é companheira... que não merece o marido que tem. O triste é que isso tudo é uma grande farsa, uma fantasia estratosférica arquitetada por uma mulher consumida pela doença do ciúme imaginário. É uma esquizofrênica!

JORNALISTA (em off): O senhor continua afirmando que se trata de uma represália pessoal e afetiva?

DEPUTADO MAJORCA: Só não vê quem não quer! (olhando diretamente para além da câmera) Minha filha, o que não pode fazer uma mulher que se julga desprezada?...

ÂNCORA: É o cúmulo. O escândalo político do ano está tomando proporções de uma novela mexicana. Vamos mostrar novamente trechos da entrevista exclusiva da sua maior protagonista: a senhora Valquíria Baldani, esposa do senador.

Insert da entrevista de Valquíria, feita em seu escritório. A câmera fica o tempo inteiro no rosto dela, enquanto um repórter faz as perguntas.

REPÓRTER (em off): A senhora sempre teve conhecimento do esquema de favorecimento comandado pelo seu marido?

VALQUÍRIA (possessa): Claro que não! Eu sabia que ele era um canalha, um safado mulherengo, mas corrupto, não. Nem podia imaginar! Olha, pra falar a verdade, quando aquele deputado esquisito, o Majorca, começou a freqüentar nossa casa, eu disse pras minhas filhas: “Coisa boa não vem daí.” Tenho certeza que ele tá por trás de tudo, que ele que tem usado meu marido.

REPÓRTER (em off): Mas a senhora chegou a testemunhar alguma dessas reuniões de interesse? A senhora viu pessoalmente seu marido falar de dinheiro?

VALQUÍRIA: Teve muitos jantares em casa. Você sabe que ele não passa muito tempo aqui na cidade, mas quando ele vem sempre tem jantares. Pra políticos, empreiteiros, um bando de puxa-sacos. Eu vi eles falando várias vezes de dinheiro. Como eu não sou boba, eu guardei uns papéis. Inclusive uma agenda que meu marido não desgrudava. Agora eu estou com medo. Mas não é por mim, é por minhas duas filhas. Mesmo contando com a segurança da Polícia Militar, eu tô com muito medo.


3. RIO DE JANEIRO/ FRENTE DO HOSPITAL MIGUEL COUTO - EXT/ NOITE
Movimento normal noturno na frente do hospital Miguel Couto, o mais movimentado dos prontos-socorros estatais do Rio de Janeiro. Uma ambulância entra pelo portão principal, com a lanterna vermelha acesa.


4. HOSPITAL MIGUEL COUTO/ SALA DAS ENFERMEIRAS - INT/ NOITE
O local é espaçoso, indicando uma área de convivência das enfermeiras. Num dos cantos, se destaca uma televisão num suporte de parede alto. A televisão está ligada, mostrando parte da entrevista de Valquíria Baldani. Um grupo de enfermeiras está sentado nas cadeiras em frente à televisão, atenção presa na entrevista. Volta e meia, futricam entre si, em voz baixa.

Corte para um plano geral da sala, por trás das cadeiras. Um corpo de mulher vestindo um uniforme entra em quadro, ocupando metade da tela. A enfermeira Zélia, que está sentada na última cadeira, de costas para a câmera, a atenção presa na TV, sente-se observada e vira o rosto para trás, olhando na direção do vulto que acabou de entrar.

Como se fosse um ponto de vista de Zélia, a câmera, em plano fechado, sobe pelo corpo da enfermeira que acabou de entrar. Nesse movimento, ela sobe do ventre na direção do rosto, passando pelo crachá onde se pode ler: “Serena Antenore - enfermeira-chefe”. Finalmente a câmera revela o rosto de Serena, que está olhando na direção da TV, com expressão nitidamente perturbada.

Zélia se levanta da cadeira, tentando não chamar a atenção das outras, e, com tato, leva Serena para um canto.

ZÉLIA: Cê tá bem?

SERENA: (sem desgrudar o olho da TV) Tá tudo bem.

ZÉLIA: Você devia ter ficado em casa.

SERENA (voltando o olhar para a outra, perplexa): Por quê? Não devo nada a ninguém.

ZÉLIA: Eu sei... É por causa das meninas... da futrica... E ainda pode sobrar pra você.

SERENA: Pra mim, sobrar? Por quê? Eu nunca dependi dele... Sempre me virei sozinha...

ZÉLIA: Mas cê sabe como é que é... Essa mulher tá cheia de ódio, tá se lixando pra esse negócio de corrupção... Ela vai descobrir cada mulher que andou com o senador e vai querer se vingar de todas.

SERENA: Ninguém fora vocês sabem o que aconteceu entre eu e o Américo...

ZÉLIA: É melhor ir pra casa... Não vai dar pra segurar a falação das meninas... Eu te conheço, você vai acabar saindo do sério. Vai pra casa... Eu invento uma desculpa.

Serena tem um momento de hesitação, mas acaba aquiescendo. Sai lentamente, sem fazer barulho, na direção do corredor, observada por Zélia. Neste plano, o quadro se divide entre o corredor, com Serena se afastando cabisbaixa, passando no meio de macas onde indigentes esperam ser atendidos, e a sala das enfermeiras, com Zélia em primeiro plano, voltando sua atenção para a televisão.

Durante todo esse tempo, trechos do depoimento exaltado de Valquíria Baldani atraem a atenção do grupo de enfermeiras.

Em corte, a câmera avança na direção da tela da TV.

ÂNCORA: Desde o início do escândalo, a reportagem da TV X vem tentando insistentemente localizar o senador Américo Baldani. Conforme declaração oficial de seu assessor de imprensa, o senador encontra-se em Tegucigalpa, Honduras, como representante brasileiro nas festividades oficiais de Chamalecon. (virando para outra câmera, e falando com ironia) Nem nosso correspondente em Honduras e nem a embaixada confirmaram a existência de tal solenidade. Enquanto isso, integrantes do Ministério Público começam a investigar minuciosamente a origem dos bens do senador Baldani.


5. SÃO PAULO/ APARTAMENTO DE COBERTURA NA ACLIMAÇÃO/ TERRAÇO E SALA - INT-EXT/ DIA

A câmera sai de um geral de São Paulo e vai encontrar alguns policiais da Polícia Técnica fazendo o levantamento preciso do local do suicídio. A câmera segue em movimento até o interior da sala, passando pela porta que dá acesso à varanda, e indo encontrar um casal de investigadores, que conversam com Luís Roberto, num sofá espaçoso. A investigadora tenta pacientemente extrair alguma informação do rapaz, que está completamente abalado.

INVESTIGADORA (maternal): Tenta lembrar, Luís... Colabora... Algum problema recente... de dinheiro... No trabalho... Ela era conhecida no meio... Uma profissional de sucesso... Isso causa inveja... Ela não tinha nenhum inimigo?...

Luís Roberto não mexe um músculo do rosto. O outro investigador, sempre de cara amarrada, observa-o com indisfarçada desconfiança.

A investigadora respira fundo, diante da dificuldade que percebe pela frente. Ela pega uma carteira de cigarros na própria bolsa. Pega um cigarro e vai acendê-lo com o isqueiro. Luís estica a mão para pegar um cigarro da carteira dela. Ela acende o cigarro dele. O outro investigador, sem desgrudar o olho um segundo, parece ter um insight.

INVESTIGADOR (duro, para Luís): Você usa drogas?

A investigadora olha perplexa para ele.

INVESTIGADOR (sem perder a pose): Vai ver ela descobriu que você é um drogado... Não quis mais te dar dinheiro... Será que foi suicídio mesmo?...

INVESTIGADORA: Pára com isso, Tavares! O menino tá traumatizado...

Ouve-se a campainha tocando. Tavares levanta do sofá, fazendo muxoxo. Um dos homens da Polícia Técnica passa por eles, e Tavares o segura.

 
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