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dossiê
CINEMA BRASILEIRO

A catástrofe de "Mater Dei"
Por Alessandro Giannini

Vinícius Mainardi faz publicidade de seu pessimismo e de sua ironia

“Mater Dei - Made in Brazil”, dirigido por Vinícius Mainardi e roteirizado por seu irmão, o jornalista Diogo Mainardi, parte do princípio que o Brasil tem uma relação problemática com o dinheiro. Assume que falcatrua e negociata sejam palavras de ordem na gramática de quem quer que seja brasileiro, do mais rico empresário ao serviçal menos remunerado -ninguém foge da corrupção. E toma o próprio cinema nacional, categoria da qual o filme faz parte inexoravelmente, como exemplo da tese dos seus “autores”. É um primor de acidez, corrosão e, principalmente, pessimismo.

Coerentes com o enunciado, Vinícius e Diogo produziram “Mater Dei” sem o apoio das chamadas leis de incentivo fiscal. Em compensação, contaram com os empresários João Paulo Diniz (Grupo Pão de Açúcar) e Patrick Siaretta (Teleimage) como parceiros na produção do filme. Toda a captação foi feita em sistema digital. Os “autores” explicam que não se trata de uma opção estética, como acontece com os títulos do movimento Dogma 95. Mas de uma alternativa industrial para barateamento de custos.

A grande ironia é que Vinícius e Diogo se inserem na história como personagens. Eles são o cineasta Vini (Gabriel Braga Nunes) e o jornalista Diogo (Dan Filip), que procuram investidores para financiar a adaptação de um conto de Machado de Assis para o cinema. Bem nascidos e não muito bem relacionados, eles tentam obter patrocínio para o projeto com um construtor inescrupuloso (Celso Frateschi), envolvido numa guerra mafiosa com um juiz corrupto (Luis Bacelli).

Visitam outros empresários, oferecendo-lhes a possibilidade de lavar dinheiro por meio das leis. Como não conseguem nada, voltam ao empreiteiro e acabam se envolvendo eles também no imbróglio com o juiz. Para equilibrar a guerra e selar a paz, o construtor decide que entregará seu filho recém-nascido em sacrifício ao magistrado. Maria (Carolina Ferraz), mulher do empreiteiro, resiste e foge com Vini. Mas acaba sendo capturada e se entrega no lugar da criança.

Curioso nesse entrecho tortuoso, que mistura crítica social e um enorme ressentimento com a “classe cinematográfica” brasileira, é a posição assumida por Vini e Diogo. Apesar de bem intencionados na tentativa de fazer o filme, eles não se diferenciam de nenhum de seus piores interlocutores. O sistema é podre e as pessoas que fazem parte dele não prestam. A única exceção é Maria, que se oferece em sacrifício. Morre por ser íntegra. Não há espaço para ela nesse cenário insano.

O grande problema de “Mater Dei” está na falta de consistência. Reiterativo no limite do exagero, o roteiro de Diogo Mainardi se esforça em apontar defeitos, anomalias, incongruências, como se fosse difícil para o espectador entender do que se está falando. Não há espaço para a nuance e a ambigüidade naturais de qualquer ser humano. E toma como exemplar uma parte que não representa nem de longe o todo.

Esse retrato ganha contornos ainda mais tortuosos na direção de Vinícius Mainardi. Egresso da publicidade, com dois longas-metragens de ficção em seu currículo, ele imprime ao filme uma estética de comercial de luxo. E o cenário resultante dessa concepção é tal e qual. Ou seja, falso e sem qualquer apoio na realidade mais comezinha. Quantos jovens cineastas brasileiros com um filme no currículo moram em coberturas e tomam banho de ofurô ao final da tarde?

Melhor do que comparar os irmãos Mainardi aos mestres é colocá-los lado a lado com Todd Solondz, cujo novo “Histórias Proibidas” ainda permanece inédito nos cinemas. Celebrado como o novo grande contestador do cinema americano desde “Bem-vindo à Casa de Bonecas” (1996), Solondz não fez mais do que apelar para o politicamente incorreto e dar uma roupagem pop aos seus filmes. Choca apenas para chocar. Sua elaboração não passa disso. A vantagem em relação aos pares brasileiros é que, como a maioria dos diretores norte-americanos, ele tem uma noção básica da gramática cinematográfica.

No final de “Mater Dei”, Vini e Diogo, conseguem, a duras penas, realizar o projeto. Mas como o filme está curto, decidem encerrá-lo com um clipe musical. É quando surge na tela o grande Tom Zé cantando “Made in Brazil”, uma música que nada tem a ver com o retrato do país pintado pelos irmãos Mainardi nos 80 minutos anteriores. Se houvesse nele um pingo de realidade, a melhor saída seria desistir do Brasil e de ser brasileiro.

Alessandro Giannini
É jornalista e crítico de cinema.

 
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