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novo mundo
INTERFACE DESIGN

Galáxia Wattenberg
Por Giselle Beiguelman

Nasa entrega o comando da interface da sua galeria on line a um refinado web artista

Um web artista está no comando de uma missão especial da Nasa: construir a interface de sua galeria on line. Seu nome é Martin Wattenberg, criador de pérolas como “The Shape of Song” (turbulence.org, 2001) e “Map of the Market” (para a smartmoney.com, joint venture da Dow Jones e Hearst, 1998).

Matemático, com um doutorado pela Berkeley University sobre mapeamento dos círculos, ele vem se destacando não só pela criatividade e funcionalidade de seus trabalhos, mas por um senso de elegância ímpar, que pode ser traduzido como capacidade de descomplicar, sem perder de vista a complexidade.

Suas principais referências são o artista norte-americano Alexander Calder, famoso por seus móbiles e esculturas, e Santiago Ramón y Cajal, Prêmio Nobel de medicina em 1906. O primeiro “porque utilizou a ciência para criar uma arte grandiosa” e o segundo “por ter utilizado arte para criar uma grande ciência”, disse a Trópico.

E essa curiosa alquimia dá a medida da especificidade do trabalho de Wattenberg. Combinando ciências exatas com humanidades, ele faz a gente rezar pela cartilha de Galileu, que dizia que o universo está escrito em números, triângulos, circunferências... Quem não os enxerga, não compreende as palavras do grande livro da natureza.

Pelo menos o da natureza do cyberspace, é o que se conclui depois de conhecer o trabalho de Martin Wattenberg...

Ah, não? Então, vamos lá. Comece pelo “The Apartment”, aquela coisa linda que apareceu no Data Dynamics (Whitney Museum, 2001), e submerja na cidade imaginária onde as plantas das casas seguem a lógica das emoções dos habitantes.

Aliás, é bom lembrar, que a própria interface dessa exposição foi também criada por ele. Mas isso é detalhe e vamos ao que importa: o “Idea Line”, também produzido para o Whitney, para o seu recém-lançado artport (whitney.org/artport).

Trata-se de um banco de dados sobre web arte que procura -e consegue- fugir da retidão cronológica, a partir de uma estrutura de diagrama que apenas sugere linhas de força, ritmos e movimentos que pontuam essa história tão recente.

Daí, confira o “The Shape of Song” (turbulence.org/Works/song), realizado na turbulence.org, verdadeiro oásis de pesquisa sobre áudio on line, dirigido por Helen Thorington.

Sim, todos os projetos são bárbaros, mas o de Wattenberg é o que está pauta, certo? E por mais que a música faça parte de sua vida, duvido que seja muito corriqueiro vê-las e perceber as formas de seus sons... Então, mãos ao mouse, que aí vem colírio virtual!

Utilizando um programa especialmente desenvolvido para esse trabalho, que analisa arquivos MIDI (um dos mais populares na Internet), você vai converter as estruturas musicais em arcos que revelam os graus de complexidade das composições.

Pode-se ver (e também escutar) as músicas selecionadas pelo artista ou adicionar novas composições à base de dados, bastando para isso indicar a URL do áudio que se quer olhar. Não é necessário instalar plug-ins, nem entender como o site funciona.

Essa afirmação vale para todos os trabalhos de Wattenberg. Ele utiliza apenas linguagem Java e tem motivos bastante precisos para isso, conforme explicou. E eles vão além das discussões técnicas, apesar do artista considerar essa linguagem a melhor para trabalhar dentro dos browsers.

“Uso Java porque quero que meus trabalhos respondam instantaneamente aos visitantes. Acho que isso é fundamental para quebrar qualquer tipo de sentimento de descrença, um pré-requisito para a verdadeira arte.”

Imbuído dessa atmosfera de cumplicidade, visite os mapas do mercado (smartmoney.com/marketmap/ ) que tornaram Wattenberg conhecido do público e desfecharam um duro golpe nos dinossauros parnasianos que ainda defendem a arte pela arte e acham um horror prestar serviço para o mercado...

O “Map of Market” permite visualizar a perfomance de 600 empresas e de tendências do mercado financeiro, dando um show de criatividade, eficiência e usabilidade, outra palavra que costuma provocar urticária em alguns artistas, mas que é quase um dogma religioso para Wattenberg.

“Sou totalmente pela usabilidade. Para mim, uma peça de web arte que não responda a esse princípio é tão ruim quanto uma escultura sem equilíbrio. Desmorona.”

O importante, disse ele ainda a Trópico, “é perceber que novas atividades demandam novas interfaces. O design que domina a internet não é ruim. Pelo contrário, atende bem o que mais se faz na Web: fofoca, ou seja uma das mais velhas atividades humanas”, ironiza.

Mas isso não o incomoda muito. Afinal diz ele, “o mais legal da internet é que você pode sempre fechar o browser. Para falar a verdade, adoro a internet. Se você souber usar, encontra tudo. É, por isso, maravilhosa e aterrorizadora.”

Sem preferências por Mac ou PC, “gosto de qualquer computador que processe Java”, mas mais afeito ao Internet Explorer que ao Netscape “porque é mais rápido”, ele foge à configuração padrão dos web artistas em mais um quesito: o paradigma do código aberto:

“Acho que esse negócio de software com código aberto é como nudismo. Legal de vez em quando, mas não faria disso meu estilo de vida.”

Para a Nasa, conta que está preparando uma interface simples, bidimensional, que evoca o sistema de estrelas e planetas. Nem ele, nem nós, obteve autorização para divulgar as imagens antes do lançamento, prometido para o preciso dia “soon” (breve...).

Fica então aqui uma promessa: mande um e-mail para revistatropico@uol.com.br, com Nasa na linha de assunto da mensagem. Avisaremos assim que o “soon” chegar.

E para ficar no clima, comece já a contagem regressiva. Boa viagem.

link-se
Santiago Ramón y Cajal - http://www.nobel.se/medicine/articles/cajal/
Calder Foundation - http://www.calder.org
Data Dynamics - http://www.whitney.org/datadynamics/
The Apartment (com Marek Walczak) - http://www.turbulence.org/Works/apartment/
Idea Line - http://www.whitney.org/arçãort/idealine/
The Shape of Song - http://www.turbulence.org/Works/song/
Map of the Market - http://www.smartmoney.com/marketmap/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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