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dossiê
CIDADE DE DEUS

Três sequências do roteiro: a abertura, uma cena de morte e outra de amor
Por Braulio Mantovani

O filme "Cidade de Deus", dirigido por Fernando Meirelles, foi baseado no romance homônimo de Paulo Lins (ed. Companhia das Letras). O roteiro, escrito por Braulio Mantovani, teve o seu primeiro tratamento selecionado em 1999 para um laboratório do Festival de Sundance e foi premiado pela MPA/WGA, uma associação de produtores dos grandes estúdios e do sindicato de roteiristas americanos. Agora, o script foi um dos indicados ao Oscar de roteiro adaptado. Leia a seguir, três trechos do roteiro.


CENA DE ABERTURA

EXT. CASA DE ALMEIDINHA – DIA

Abrimos com a imagem de um FACÃO sendo afiado.

CARACTERES em superposição: 1981

Ouve-se o murmúrio de VOZES alegres, vozes CANTANDO um samba acompanhado de um BATUQUE. Não vemos as pessoas. Mas os sons deixam claro que se trata de um ambiente festivo.

A letra do samba tem como tema: comida.

MÃOS NEGRAS amarram com um barbante a PERNA de um GALO.

O galo é imponente e vistoso. Alternamos o galo -incomodado por ter a perna amarrada- a imagens que sugerem a preparação de um almoço:

ÁGUA FERVENDO numa enorme panela.

O galo parece reagir à imagem anterior.

Batatas sendo descascadas por MÃOS de uma mulher negra.

O galo reage como se entendesse a situação: vai virar comida.

GALINHAS MORTAS sendo depenadas por MÃOS de mulheres negras.

O galo reage. Ele tenta libertar a perna amarrada ao barbante.

MÃO masculina negra percute o couro de um pandeiro.

A letra do samba faz referência explícita ao tema comida.

O galo parece entender que seu fim está próximo.

Um FACÃO sendo afiado por mãos negras masculinas. A faca vai CRESCENDO, tornando-se cada vez mais ameaçadora.

O galo se desespera. Luta. E escapa.

ALMEIDINHA, o negro que segura o facão, percebe a fuga do galo e dá o alarme.

ALMEIDINHA
O galo fugiu!

Pela primeira vez, vemos a casa de Almeidinha do lado de fora. Trata-se de um lugar pobre, uma casa de alvenaria da Cidade de Deus. A festa está acontecendo no quintal.

A fuga do galo provoca um grande ALVOROÇO entre os convidados: na maioria homens, JOVENS, NEGROS e MULATOS. Apenas alguns são BRANCOS. Estão quase todos de calção e chinelo.

Dezenas de bandidos saem correndo atrás do galo. Eles fazem parte da quadrilha de Zé Pequeno. Todos berrando:

VOZES DOS BANDIDOS
Pega o galo, pega o galo!

***

CENA DE MORTE

EXT. RUAS DO CONJUNTO – AMANHECER.

OS RAIOS DO SOL COMEÇAM A ILUMINAR AS RUAS DA CIDADE DE DEUS.

Alicate -com as mesmas roupas que usava no assalto ao motel - caminha pelas ruas do conjunto.

Está com o olhar vidrado, fita o vazio e fala sozinho.

ALICATE
Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.

PERTO DALI...

Cabeção e Touro caminham lado a lado, rumo ao que parece ser um encontro inesperado e inevitável com Alicate.

PERTO DALI...

Alicate caminha ao encontro dos policiais.

Alguns metros atrás deles, um JOVEM TRABALHADOR caminha no mesmo sentido.

ALICATE
Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.

PERTO DALI...

Cabeção avista algo, pára abruptamente, e saca a arma.

CABEÇÃO
Ali, ali!

TOURO
Ali, onde?

PERTO DALI...

Alicate segue seu caminho quase em transe.

ALICATE
Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia.

PERTO DALI...

Cabeção e Touro preparam o bote.

CABEÇÃO Agora!

Os dois saem correndo e atirando para o alto.

CABEÇÃO
Parado aí seu safado!

Alicate não se altera.

O Jovem Trabalhador Negro, que vinha atrás dele, começa a correr desesperado no sentido oposto.

Cabeção e Touro passam ao lado de Alicate, mas não o reconhecem.

TOURO
Mão na cabeça, seu bandido filho da puta!

Alicate olha para trás.

TIROS.

Alicate prossegue em seu caminho.

ALICATE
Não temerás peste que ande na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia.

Cabeção e Touro examinam o corpo do Jovem Trabalhador. Touro acha a carteira profissional do morto. Esconde a carteira no bolso.

TOURO
Porra! Esse não é nenhum deles! Não é nem bandido.

Cabeção tira uma arma do bolso e a coloca na mão do morto.

CABEÇÃO
Agora é.

Cabeção aperta o dedo do morto contra o gatilho da arma que ele plantou na mão dele fazendo com que ela dispare.

Câmera acompanha a trajetória da bala perdida: ela ricocheteia numa parede, ricocheteia de novo bem pertinho da cabeça de um MENINO que está dormindo na rua e finalmente vai na direção de:

Alicate caminhando. A bala estilhaça o espelho retrovisor de um carro estacionado, onde vimos antes, refletida, a imagem de Alicate.

Alicate, visto de costas, se afastando do perigo.

BUSCA-PÉ (V.O.)
Depois do fracasso no assalto do motel, cada bandido foi pro seu lado. Cada um, pro seu destino... O destino do Alicate ficou nas mãos de Deus.


***

CENA DE AMOR

INT. COZINHA DA CASA DE LÚCIA MARACANÃ – DIA

Berenice lava a louça do café da manhã. Cabeleira enxuga os pratos.

Cabeleira está tenso. Ensaia várias vezes iniciar uma conversa com Berenice, mas não consegue ir em frente. Até que ela toma a iniciativa.

O diálogo a seguir é entrecortado por breves momentos de silêncio seguidos de efeitos de transição que sinalizam passagem de tempo: pequenas elipses.

A cada transição, há menos louça suja.

BERENICE
Se você tem alguma coisa pra dizer, diz logo, Cabeleira! Você tá me deixando nervosa!

CABELEIRA
É que eu ainda tô escolhendo as palavras certa, tá sabendo?

BERENICE
Você deve ser um cara muito escolhedor. Gente assim não se dá bem na vida, não, sentiu?

SILÊNCIO.

EFEITO: PASSAGEM DE TEMPO.

CABELEIRA
Então é o seguinte: vou te mandar uma letra invocada agora: acho que meu coração te escolheu, morou? Quem escolhe é o otário do coração, e quando eu te vi meu relógio despertou pensando que era manhã de sol.

BERENICE
Tu tá é de conversa fiada, rapá... Coração de malandro bate é na sola do pé e não desperta, não, fica sempre na moita!

CABELEIRA
Pô, mina... Já viu falar em amor à primeira vista?

BERENICE
Malandro não ama, malandro só sente desejo.

CABELEIRA
Assim não dá nem pra conversar...

BERENICE
Malandro não conversa, malandro desenrola uma idéia!

CABELEIRA
Pô, tudo que eu falo, você mete a foice!

BERENICE
Malandro não fala, malandro manda uma letra!

CABELEIRA
Vou parar de gastar meu português contigo.

BERENICE
Malandro não pára, malandro dá um tempo.

SILÊNCIO.

EFEITO: PASSAGEM DE TEMPO.

CABELEIRA
Falar de amor com você é barra pesada.

BERENICE
Que amor nada, rapá. Tu tá é de sete-um!

CABELEIRA
Malandro vira otário quando ama.

SILÊNCIO.

EFEITO: PASSAGEM DE TEMPO.

Berenice larga o prato na pia, e coloca os braços em volta do pescoço de Cabeleira, oferecendo-se para um beijo.

BERENICE
Tu vai acabar me convencendo...

Eles se beijam na boca.

FADE OUT.

Braulio Mantovani
É roteirista de cinema e televisão.

 
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