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dossiê
CINEMA BRASILEIRO

A beleza radical de "Lavoura Arcaica"
Por Hélio Guimarães



Selton Mello em "Lavoura Arcaica"/Divulgação

Luiz Fernando Carvalho faz manifesto silencioso de não-conformidade

“Lavoura Arcaica” é uma dessas raras conjunções em que o audiovisual e o literário travam diálogo fecundo. Na contracorrente dos filmes que se curvam, por cálculo, a uma abstração comercial equivocadamente chamada de público, o filme de Luiz Fernando Carvalho nega-se à utilização instrumental da literatura, à mera exploração do texto consagrado, usado como medalha para agregar valor e distinção ao espetáculo audiovisual. Pelo contrário, transpira paixão sincera pelo romance de Raduan Nassar e resiste como pode à tentação de se tornar um mero gesto de reverência ao texto, de transformá-lo em fetiche, cristalizando-o em seus aspectos “literários”. Mas não consegue escapar completamente dessa armadilha.

A sensibilidade de Luiz Fernando Carvalho para o texto literário há algum tempo vem sendo registrada na televisão. Em 1994, ele já desafiava os padrões de globais de adaptação ao dirigir “Uma Mulher Vestida de Sol”, recriando na TV o universo de Ariano Suassuna. Já então causava estranheza o privilégio da densidade do texto em detrimento dos cacoetes “regionalistas”, a encenação enxuta e a utilização expressiva da iluminação, o esforço em conter as atuações caricaturais cristalizadas por décadas de novelas com ambientação nordestina.

A minissérie “Os Maias”, que contém muitas das soluções cênicas e dos procedimentos narrativos de “Lavoura Arcaica”, confirmou o talento para as adaptações. A partir do texto de Maria Adelaide Amaral, o diretor transpôs para a televisão não só a atmosfera, mas a textura do romance de 1888. As descrições copiosas, que em Eça de Queirós servem de âncora realista para a história emocionalmente extravagante e turbulenta, foram recompostas pela câmera minuciosa, quase obsessiva na descrição das coisas e objetos, e pela trilha sonora que sem cerimônia arrebatava o espectador para a pulsação da história incestuosa entre Maria Eduarda e Carlos da Maia.

Em “Lavoura Arcaica”, pela primeira vez liberado dos constrangimentos e dos discursos cada vez mais limitados em torno da televisão, Luiz Fernando Carvalho radicalizou ainda mais a manipulação do tempo e do texto. A radicalização começa já na escolha do livro difícil de Raduan Nassar, cujo enredo resume-se a uma variante da parábola bíblica do filho pródigo: a história de um rapaz, André, que foge da casa paterna para se libertar do jugo do pai e da atração incestuosa por Ana, sua irmã.

A história começa quando Pedro, o irmão mais velho, vai ao encontro de André para levá-lo de volta à família e, a partir daí, recompõe-se a história da revolta de André contra o pai e do amor pela irmã. São assim poucos os acontecimentos desse romance escrito em prosa cerrada, que pede para ser lida, relida e treslida, tão armada que em alguns momentos pode ser escandida como se estivesse escrita em versos.

O texto de Raduan Nassar de saída coloca dificuldades assim: como recompor em imagens e sons a descrição do avô como alguém que estava “sempre naquele silêncio de cristaleira”? como concretizar a idéia de que o pequeno André, em êxtase religioso, “entrava na igreja feito um balão”? como transpor para o filme um narrativa pontilhada de parênteses, enumerações e anáforas? como filmar a inexorabilidade da passagem do tempo?

“Lavoura Arcaica” responde perguntas como essas, procurando e encontrando soluções para a filmagem dos mais diversos procedimentos do romance. As enumerações encontram tradução nos planos longos, descritivos, que percorrem os objetos de cena e os gestos dos personagens; os parênteses visualizam-se na intercalação de ações em tempos diferentes e também na profusão das frestas e frinchas pelas quais a câmera revela outros planos de ação; a opressão familiar e a interioridade dos conflitos configuram-se na iluminação sempre coada por folhas de árvores, janelas, cortinas e persianas, indiciando a tensão entre o mundo exterior e a tortura interna de André.

O filme chega ao requinte de criar seu correspondente para o discurso indireto livre, na cena em que Pedro relata para André como informou a mãe da decisão de trazer de volta à casa o filho desgarrado. Num flashback, ouvimos a voz de Pedro e o vemos, de costas, em conversa com a mãe. A fala dessincronizada dos movimentos do maxilar de Pedro parece um defeito até que, com o corte e o retorno à cena de Pedro e André na pensão, o espectador percebe o deslizamento sutil dos discursos e dos tempos, de modo que o defeito aparente se configura como recurso de composição numa narrativa que tematiza o deslizamento entre camadas temporais e entre pessoas do discurso.

A fidelidade e o respeito radicais com que o diretor se entrega ao texto responde tanto pela grandeza quanto pelas fraquezas do filme. A obsessão pela literalidade carrega reminiscências da postura solene e reverente que impera e muitas vezes emperra as adaptações.

De certo modo, o filme reduplica o drama de André em relação ao pai, não conseguindo escapar e se insurgir completamente contra a autoridade do texto literário, tomado como texto antigo, primordial, realidade eterna e imutável. Sem distância, perde-se de vista o caráter também precário das narrativas literárias, elas mesmas imperfeitas e datadas, tributárias de uma infinidade de outras narrativas.

Em certos momentos, cego pela sedução e autoridade secular do romance, “Lavoura Arcaica” sucumbe à tentação de fazer da imagem mera ilustração do texto declamado, como na cena em que a câmera descreve a mesa do café acompanhando a enumeração do texto: “era boa a luz doméstica da nossa infância, o pão caseiro sobre a mesa, o café com leite e a manteigueira”. São momentos em que o filme não consegue se desvencilhar do excesso de palavras, redundando o que já estava dito pelas imagens.

Mas é sobretudo nas cenas da Pensão Scatena que os clichês das adaptações literárias aparecem mais explícitos. Nelas, a excepcional interpretação de Selton Mello resvala na declamação dramática, que se traduz em prolongamentos excessivo das palavras (“lameeentos, soluuuços, gemiiidos”) e em lugares-comuns, estes de origem teatral, de imprimir carga emocional às palavras pronunciando-as de cócoras e às cusparadas.

Armadilha em que um ator mais experiente como Raul Cortez, magistral no papel do pai, não cai. Cuidadoso em assimilar cada palavra antes de enunciá-la, a atuação de Raul Cortez serve de emblema dos momentos em que o filme atinge excelência na leitura do romance, aproximando-se de um leitor ideal descrito por Machado de Assis como “verdadeiramente ruminante, [que] tem quatro estômagos no cérebro, e por eles faz passar e repassar os atos e fatos, até que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida”.

Os deslizes servem apenas para dar a medida da grandeza de “Lavoura Arcaica”, com suas cenas de intensa e maravilhosa densidade emocional: a mãe composta de maneira estupenda por Juliana Carneiro da Cunha acordando o André menino com beijos e gestos doces; o encontro de André e Ana na capela; as cenas da dança de roda em que Simone Spoladore ocupa o centro incorporando a imagem do “demônio versátil”; o diálogo ríspido e apaixonado de André com o irmão caçula; e o diálogo final entre André e o pai.

O filme não se acomoda nem se contenta com a beleza acachapante dessas cenas, que seriam suficientes para distingui-lo de grande parte da produção brasileira. Ao evitar o caminho mais fácil e bancar as complicações de tratar com honestidade de amores, ódios, paixão, loucura, família, “Lavoura Arcaica” faz um manifesto silencioso pela não-conformidade aos padrões, mas não completa sua aposta no caráter incerto, instável e desestabilizador da literatura.

Hélio Guimarães
É jornalista e doutor em Teoria Literária pela Unicamp.

 
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