1
dossiê
CINEMA BRASILEIRO

As mazelas de "Xangô"
Por Inacio Araújo

Filme de Miguel Faria Jr. faz teoria geral da incompetência pátria

Na cena central de “O Xangô de Baker Street”, Sherlock Holmes é levado a uma sessão de candomblé. Ali fica sabendo que é Xangô, mas o pai de santo não consegue revelar o essencial: a identidade do “serial killer” que vem matando moças no Rio de Janeiro, fim do século 19. É por conta dele que o detetive acaba no Brasil.

O que vem a seguir tem efeito humorístico, mas se deixa levar por certa facilidade: Watson incorpora uma entidade feminina -maneira de sugerir a homossexualidade dos dois ingleses em questão.

O achado e a facilidade subsequente não são casuais. O primeiro é o momento em que se revela talvez a idéia básica do filme: a impossibilidade de convivência entre a lógica e o trópico. É, também, de certa forma, o que explica o fato de as investigações de Holmes no Rio lembrarem não raro as da Pantera Cor-de-Rosa.

Evita-se, no entanto, o burlesco da Pantera. Holmes, assim como o delegado brasileiro, mantêm-se na tradição da comédia sofisticada (o que é reforçado pelo fato de a única dedução certa do filme vir da sub-utilizada mulher do delegado -recurso humorístico usado por Hitchcock em outro filme sobre assassinatos seriais, “Frenesi”).

Mais próximo ao burlesco está o dr. Watson, que com sua imbecilidade atende a outro aspecto importante do filme: a aproximação com um público mais amplo. No trópico, sua incapacidade dedutiva não chega a distingui-lo fundamentalmente de Holmes. Mas este preserva a panca, inútil, enquanto Watson, com seu jeito simplório, acaba dando o que parece ser considerado pelos realizadores do filme como uma inestimável contribuição à cultura nacional: a invenção da caipirinha.

Sob a forma de um relato policial-humorístico, o que “Xangô” (dirigido por Miguel Faria Jr.) exercita, em última análise, é a impossibilidade brasileira de ser. Aqui, tudo perde sentido. Mesmo Sherlock Holmes, em contato com o trópico, não consegue ser senão um português de piada de português (não por acaso, ele é interpretado pelo ator lusitano Joaquim de Almeida).

Não é raro o cinema brasileiro denegrir o Brasil. Não digo criticar, mas denegrir. Com a desculpa do niilismo, Sergio Bianchi fez mais ou menos a mesma coisa em seu “Cronicamente Inviável”.

Mas, diferentemente deste, “O Xangô de Baker Street” é uma produção suntuosa, destinada a um público mais amplo. Não diz as coisas com a franqueza de Bianchi, mas a conclusão é mais ou menos a mesma, na medida em que aponta para a nossa inviabilidade. Não por acaso, regride ao século 19 para desenvolver uma idéia do século 19: a de que os trópicos e a civilização não se coadunam.

O ponto negro dessa proposta ficcional não está nem no humor, nem no aspecto policial da trama, mas no fato de o abolicionismo ser uma espécie de personagem oculto do filme.

Talvez a palavra oculto merecesse ser colocada entre aspas: os abolicionistas estão presentes, fala-se do assunto a torto e a direito, mas tudo se passa como se a agonia do escravagismo fosse não mais do que um pano de fundo. É em torno dessa inconseqüência no tratamento do histórico, em favor de uma teoria geral da incompetência pátria, que a rigor gira o filme.

Esse princípio permite ao “Xangô” se estabelecer como um filme de pretensões industriais, com ambição de chegar a um público amplo. Deter-se sobre uma questão histórica chave como a escravatura, seu final tardio e mesmo suas decorrências catastróficas eqüivaleria a aborrecer um público pouco disposto a levar essas coisas em consideração. Implicaria tirar o filme da chave do lazer descompromissado, crime de lesa-pátria contra a “diversão”.

Mas é também o que faz de “Xangô” um espetáculo perfeitamente insípido. Na verdade, há muito a discutir ainda, antes de decretar se o Brasil é ou deixa de ser viável. Mas uma coisa é certa: todo filme brasileiro com pretensões a participar da edificação de uma indústria de cinema tende a esse incipiência.

Por que isso acontece é uma questão complicada. Ao sair da sessão, escutei de um espectador a frase inefável: “Até que enfim um filme brasileiro que se pode assistir”.

O que significa essa frase tão antiga, que retorna de tempos em tempos? A rigor, ela apenas nos lembra de que estamos, permanentemente, em atraso em relação à produção mundial, especialmente à americana. Quando, em determinado momento, juntamos os elementos capazes de criar um filme “de verdade” (atores, texto, luz, efeitos etc.), chegamos ao “até que enfim”.

Mas o “até que enfim” não designa nossa contemporaneidade. Pelo caráter de exceção que enfatiza, ao contrário, nos lembra de nosso atraso, de nossa precariedade, de nossas insuficiências. Ou, para resumir, da impossibilidade de fazer cinema nos trópicos.

Essa tem sido nossa história desde Adhemar Gonzaga. Sua intenção era fazer filmes “de qualidade”. Para fugir da falência acabou nos musicais chanchadescos. Talvez tenha sido nesse momento que a Cinédia, enquanto companhia, olhou efetivamente para o Brasil, para os brasileiros, para nossas deficiências, mas também para certas tradições (o teatro de revista, a música popular) que as elites da época desprezavam.

Isso podia servir de lição ao presente. Mas não. “O Xangô de Baker Street” é o perfeito exemplo de um cinema que busca referências olhando para fora. Assim como na história se importa o Sherlock com resultados patéticos, na produção acopla-se um imaginário estrangeiro a um cenário local.

A contradição que é a passagem de Sherlock Holmes pelo Brasil, sua perfeita inutilidade, não deixa de ser uma esperança: talvez seja melhor resolver nossas mazelas à nossa maneira. É uma pena que o filme não incorpore essa idéia e opte por ver na incompetência tropical de Holmes uma prova não da incompetência de Holmes, mas da impossibilidade de uma civilização tropical.

Inacio Araújo
É crítico de cinema da "Folha de S. Paulo" e escritor, autor de "Casa de Meninas" (romance) e "Cinema" (ensaio), entre outros.

 
1