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dossiê
CINEMA BRASILEIRO

A guerra de "Caramuru"
Por Esther Hamburger

Guel Arraes testa outra vez a sua ponte arriscada entre TV e cinema

Guel Arraes vem realizando uma ponte inovadora, pouco usual e corajosa, entre a televisão e o cinema. Conhecido por sua abertura ao vídeo experimental e há anos trabalhando com um grupo de pessoas com quem tem afinidade, Guel criou um estilo com cara própria, pop, ritmo acelerado, edição clipe, traços de quadrinhos, humor e aventura. As versões cinematográficas desses trabalhos televisivos experimentam em terreno polêmico.

O filme baseado na minissérie “O Auto da Compadecida” constitui um exemplo raro. A minissérie foi exibida na televisão para dezenas de milhares de telespectadores brasileiros, o que seria suficiente para esgotar o assunto. Mas a versão cinematográfica, condensada, surpreendeu pelo sucesso de bilheteria e de crítica.

O filme fez cerca de 2 milhões de espectadores, mais do que qualquer outro filme brasileiro em 10 anos. Embora cinéfilos mais estritos insistam em considerar que aquilo pode ser qualquer coisa, menos cinema, “Auto” mereceu críticas favoráveis e prêmios de melhor direção, roteiro, ator (para Matheus Nachtergale) e lançamento no Grande Prêmio Brasil.

Mesmo que não venha a percorrer trajetória igualmente brilhante, “Caramuru - A Invenção do Brasil”, versão condensada e transformada, que agora chega ao cinema, da minissérie “A Invenção do Brasil”, reitera a viabilidade da proposta, que vai sugerindo maneiras específicas pelas quais a TV pode estimular e alimentar o cinema no Brasil.

“Caramuru” trás ainda uma novidade. É o primeiro filme brasileiro gravado em HDTV. O suporte digital reduziu os custos de produção e de edição, viabilizando a versão cinematográfica.

A versão original de “Caramuru” é um docudrama feito para comemorar uma efeméride, no melhor estilo do “gancho” jornalístico. O filme chega às salas de cinema um ano depois, quando a data já passou. A perda de atualidade justifica a eliminação do lado “documentário”. A edição do filme é guiada pelo drama, em tom de comédia, sobre o primeiro rei do Brasil, aquele degredado português que se casa com uma índia. Paraguaçu representa uma espécie de Chica da Silva nativa, personagem dos primeiros anos de colonização, quando a civilização indígena ainda detinha o domínio sobre seu território.

Talvez um pouco como o próprio diretor, Diogo Álvares, o protagonista, é um pintor criticado por embelezar a realidade. Ele prefere eliminar o feio do reino da representação pictórica, fugindo do naturalismo, em nome da arte. Seus retratos distorcem o modelo, melhorando traços. Seus mapas são ilustrados com capricho, em detrimento da exatidão.

Mas o bom gosto pessoal do artista não é oficial e gera mal entendidos. Responsável por decepções amorosas e autor de ilustrações que atrapalham a leitura de mapas aprimorados pelos avanços da cartografia, o artista ingênuo é deportado. Náufrago em território hostil, teria escapado quase que por acaso de ser devorado pelos índios, iludidos por um tiro acidental. Reverenciado, pode manter feliz suas duas esposas -princesas Tupinambá.

O resultado se sustenta como narrativa ágil e leve, que não acrescenta muito, mas funciona. Estamos mais uma vez diante de um anti-herói, como outros que continuam a inspirar a ficção nacional, personagens que não movem a trama com sua determinação de realizar projetos ou desejos, mas que se deixam -literalmente- levar pela correnteza e, com sorte, terminam se virando. O foco é moral, e a ironia ajuda a afirmar a possibilidade de princípios diferentes dos canônicos.

Cinema e TV disputam o favoritismo do profissionais do audiovisual nas mais diversas partes do mundo. Na comparação, a TV, meio mais recente, mais diretamente afetado pela lógica comercial, situado, quase que como um eletrodoméstico, no interior da casa, ainda ensaiando transmitir imagens com a profundidade que a película propicia, sai em desvantagem.

O cinema propicia a concentração, na sala escura, com a tela grande, que a TV não alcança. Mas a TV, por seu lado, especialmente no Brasil, atinge um público dramaticamente maior.

“Caramuru” chega às telas em um momento em que a guerra por audiências mobiliza as emissoras de TV aberta, colocando em cheque as convenções da teledramaturgia, que nos últimos 30 anos ocupou posição de destaque na engrenagem industrial da televisão brasileira.

Em seu desespero por cativar a atenção da audiência, as emissoras inventam versões degradadas do “popular”, reafirmando preconceitos convencionais que distinguem o popular do erudito. Guel Arraes insiste em afirmar a possibilidade de transcender essas categorias. A viabilização de produções capazes de circular da televisão para o cinema aparece como um alento.

Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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