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novo mundo
webcinema

Olhos mudos
Por Giselle Beiguelman


Fotograma de What We Will, de John Cayley
Reprodução

A arte on line joga com uma estética do imponderável e do imprevisível

Arte on line é bem mais do que arte criada para a internet. É arte que depende da internet para se realizar, seja ela e-poesia, cinema interativo, hiperdrama, web arte e/ou a categoria que se invente.

É um tipo de criação que lida com diferentes tipos de conexão, de navegadores, de velocidade de tráfego, de qualidade de monitor, resolução de tela e outras tantas variáveis que alteram as formas de recepção.

O que se vê é resultado de incontáveis possibilidades de combinação entre programas distintos, sistemas operacionais, grosso modo Windows e Mac, e suas respectivas formas de personalização.

Criar nessas e para essas condições é jogar com uma estética do imponderável e do imprevisível. Obriga, por isso, pensar em estratégias de programação e publicação que tornem a obra legível, decodificável, sensível.

Faz com que seu autor (ou seus autores) provoque aquilo que qualquer coisa que mereça o atributo de arte provoca: a empatia do sujeito com a obra e não apenas com o mouse. Ou seja: não basta ser um trabalho clicável, tem que ser interativo.

Mas interação tornou-se uma das mais importantes commodities da nova economia, e termos como “digital” e “multimídia” passaram a ser elementos capazes de agregar valor e status a produtos e programas desenvolvidos para a Internet.

Tudo isso somado põe o webcinema na berlinda, e não é à toa que festivais, competições e lançamentos de filmes on line estejam pipocando como nunca, apresentando uma quantidade de lixo e de coisas ótimas impressionante.

Veja, por exemplo, a gama de alternativas disponíveis no Flashforward2001 (http://www.flashforward2001.com/ ), que começa dia 31 de outubro em Amsterdã. Entre na área do festival de filmes. Você vai ver um monte de projetos ridículos, mas vai também descobrir trabalhos muito bons.

“Morphine”, do hypergeneric (http://www.hypergeneric.com/), é dolorosamente lindo e um desses que se encaixa entre os ótimos flash films dessa edição do festival. Como já é previsível no título, é um drama e remete a uma experiência de extrema solidão.

Não é muito interativo, no sentido de ser clicável. É uma história até que bem linear, com uma trilha melancólica e imagens muito icônicas, que beiram a estética publicitária, mas com um grau de sordidez que desfazem qualquer dúvida sobre sua natureza.

Se quiser algo mais interativo, é melhor tentar a categoria “Games”, pois “Morphine” compete na de artes. Teste o “Polar Rescue”. Você vai literalmente quebrar muito a cabeça tentando fazer o pinguinzinho escapar do bloco de gelo que ameaça despencar sobre ele...

Disputam ainda sites nas categorias e-commerce, inovação tecnológica e outras nove. Em síntese, é parada obrigatória para saber tudo o que dá para fazer com Flash, além de criar letrinhas que pulam e se superpõem gratuitamente.

E, por falar em novos usos de formatos de imagem em movimento para a Web, é bom lembrar que John Cayley, sinólogo e cyberpoeta inglês, ganhador do prestigioso prêmio de poesia digital conferido pela Electronic Literature Organization, lança dia 11, em Chicago, seu novo projeto: “What We Will” (http://www.z360.com/what ).

Exploração confessa e assumida do formato Quick Time VR, da Adobe, que permite vistas panorâmicas a partir de diferentes ângulos e posições dentro de uma mesma imagem, é exibido em modo de tela cheia (“full screen”) e pensando exclusivamente para banda larga.

Mas o que faz o trabalho imperdível é que demanda navegação dentro de dois panoramas superpostos. O que ocupa o quadro superior da tela põe o observador na posição de controle do relógio da catedral de St. Paul, em Londres.

Além de dar uma visão privilegiada da cidade, é a chave para entrar na narrativa, também panorâmica e interativa, que se passa no quadro inferior.

Nessa porção, bem maior que a outra, entra-se no mundo cotidiano dos personagens, penetrando nos seus quartos, nas estações de metrô que utilizam e compartilhando seus momentos de hiato entre atividades, contemplando a cidade dos terraços da Tate Modern.

Só a qualidade das imagens já garante a visita, mas “What We Will” é mais que perícia técnica e bom gosto. É invenção narrativa e, acima de tudo, narrativa sobre o tempo exemplar. Isso porque é tão passível de fruição linear como não-linearmente.

Siga o encadeamento do relógio ou crie a sua própria seqüência de acontecimentos. Dispare o som e novas articulações, clicando em envelopes que aparecem em todas as cenas, nem sempre fáceis de encontrar (é preciso explorar os vários sentidos dos fotogramas para achá-los).

O que está em jogo aqui é a capacidade de reinvenção da cronologia pela linkagem das imagens sucessivas. Não se trata apenas de criar um jogo interessante de planos, que incluem a exploração de técnicas pré-cinematográficas -os panoramas- em um ambiente pós-cinematográfico.

Trata-se de usar e abusar daquilo que confere especificidade à imagem digital: sua possibilidade de ser mapeável, transformando-se em imagem-interface, recuperando procedimentos e atualizando a linguagem e os códigos visuais no contexto híbrido da internet .

Um processo de releitura que ocupa o centro da originalíssima “ascii history of moving images” (http://www.ljudmila.org/~vuk/ascii/film/ ), do esloveno Vuk Cosic, produzida em 1999, na época em que fazia parte do saudoso Ascii Art Ensemble, com o “holandês voador” Walter van der Cruijsen, fundador da desk.org, e com o também esloveno Luka Frelih, o verdadeiro “Wizard of OS” (Operational System).

Nesse trabalho, filmes que marcaram a história do século 20 são convertidos em código ASCII e transmitidos utilizando um sistema de animação programado em Java. Produto curiosamente hi-low-tech, disponibiliza as imagens rapidamente, sem grandes demandas e sem plug-ins.

Utilizado desde 1920, o ASCII é uma evolução do código Morse e era a base das velhas teleprinters, entre as quais o Telex foi o sistema mais popular até cerca de 1980, que converte sinais elétricos em unidades matemáticas de 8 bits, as quais são recombinadas em 256 símbolos.

Com esse instrumental, procura-se interrogar não a história do cinema, mas as das formas de produção da imagem no século 20. Uma história que começa efetivamente com o “Encouraçado Potemkin” (1925) de Eisenstein, apesar de uma menção a Lumière.

Passa depois por “King Kong” (1933), “Star Trek” (1966), “Blow Up” (1966), “Psycho” (“Psicose”, 1960) e termina com “Deep Throat” (“Garganta Profunda”, 1972), “o filme mais próximo da internet”, explicou Cruijsen recentemente em apresentação realizada no literaturWERKstatt, em Berlim.

“Tem ousadia, invenção técnica, sexo explícito, uma fórmula que garantiu seu sucesso comercial e se tornou repetitiva num sistema em que o aspecto lucrativo suplantou de longe todas as outras características”, disse.

Sem necessidade de ser criativa, basta a esse tipo de imagem que se lhe assegurem meios cada vez mais ágeis de distribuição. Interação e exploração da interface são dispensáveis, e isso está bem longe de se restringir à poderosa indústria da pornografia.

Pense nisso antes de dar o nome de “arte on line” a qualquer site. Afinal, já aprendemos com Wim Wenders, olhos não se compram e, como escreveu o poeta Mário de Andrade, “versos não se escrevem para olhos mudos”.

Benchmark
MANOVICH, Lev. “The Language of New Media”. Cambridge, MIT Press, 2001. RÖTZER et. al. (org.) “Photography after Photography- Memory and Representation in the Digital Age”. Amsterdam, G+B, 1996.link-se
Flasforward 2001 http://www.flashforward2001.com/
Hypergeneric http://www.hypergeneric.com/
Desk http://www.desk.org
What We Will http://www.z360.com/what
ascii history of moving images http://www.ljudmila.org/~vuk/ascii/film/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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