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LITERATURA

Conversa na janela
Por Thiago Blumenthal

Projeto gráfico de livro de E.T.A. Hoffmann segue o mesmo trabalho cuidadoso que o autor alemão teve com a imagem

"Quanto mais eu olho para essa jovem, mais me chama a atenção certa particularidade que não consigo exprimir com palavras", diz o narrador de "A Janela de Esquina do Meu Primo", de E.T.A Hoffmann. E, sem contar a aposta em um escritor pouco publicado ou conhecido no Brasil, talvez o principal mérito deste livro agora laçado pela Cosac Naify seja o cuidado editorial com a imagem, um dos motivos-chave do autor alemão.

Pois a janela de seu quarto, ou a vista que se tinha dela, foi o primeiro motivo essencial para a inspiração dessa história. Panorâmica, diante do Gendarmenmarkt, a grande praça do mercado de Berlim, "na região mais bonita da capital", se desenhava como cenário perfeito para o autor atender ao pedido de colaboração para a revista literária "Der Zuschauer" (O Observador), em 1822.

Muito distinta de sua produção anterior, já prenunciando um realismo que logo seria inaugurado na Europa, a narrativa aborda a questão do observar, do descrever, do contemplar, em um jogo com as visões exterior e interior, e bem traduz o nome da revista para a qual começaria a colaborar a poucas semanas de sua morte.

O enredo simples e estruturado em ritmo dramático, em que o leitor acompanha e a tudo observa pelo diálogo dos dois personagens-narradores, expõe o encontro, em determinada manhã, de dois primos diante da tal janela de esquina do apartamento de um deles, que é escritor e paralítico.

Dali, do alto daquela espécie de posto de observação, os primos tecem as mais variadas observações sobre quem passa, quem chega no mercado, criam hipóteses sobre a finalidade de cada um dos transeuntes e dos compradores naquela praça, descrevem suas roupas, e tais conversas ou pormenores se desdobram em considerações sobre a sociedade berlinense, a herança napoleônica, mas principalmente sobre a atividade literária e o papel da literatura que, àquela época, passava a ganhar novos contornos e feições diante de um mundo cada vez mais mercantilizado e onde o artista se encontrava em xeque.

Trata-se, sem dúvida, de um Hoffmann diferente. O autor sempre teve sua imagem ligada a temas fantasmagóricos, como nota o professor de literatura Marcus Mazzari no posfácio do livro. No Brasil, quem balizou a recepção de sua obra foi a escola francesa que o ligava ao horror –Machado de Assis, no conto "Um Esqueleto", se valeu de tal imagem, como exemplifica Mazzari.

Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822) nasceu em Koenisberg, Alemanha (então Prússia), e ficou conhecido como o autor do conto "Quebra-nozes", escrito em 1816. Nessa história, o brinquedo predileto da jovem Marie cria vida e então derrota o rei dos ratos, transportando-a para um mundo fantástico, habitado por bonecos –a história inspiraria a suíte composta por Tchaikovsky e o famoso balé. Aliás, a ligação de Hoffmann com a música não é fortuita: musicólogo, o autor acrescentou o "Amadeus" ao seu nome em homenagem a Mozart.

Também jurista e caricaturista, Hoffmann foi um dos autores mais influentes do romantismo alemão e um dos pilares desse movimento na Europa. Modesto Carone, na quarta capa do livro, considera o "ultrarromantismo" de suas histórias algo superlativo demais para um autor que de fato sempre colocou suas caretas bizarras em situações da realidade terrena, não se descuidando das dimensões histórica e social da literatura.

Talvez não valha a pena o mergulho nessa questão, se Hoffmann era de fato ultrarromântico ou se sempre teve um passo no realismo, pois a própria apreciação do conto basta e fornece muito material para a discussão literária e o papel do escritor em um período de transição estilística. Além de dialógico, "A Janela de Esquina do Meu Primo" se estrutura por uma figura de linguagem bastante simples, mas eficaz: a comparação. Logo de cara, nas primeiras linhas, temos: "Meu pobre primo é atingido por destino similar ao do conhecido Scarron. Assim como ele, meu primo perdeu completamente a força dos pés...".

O escritor francês Paul Scarron (1610-60) sofria do mesmo mal que Hoffmann e o personagem de seu conto, ou seja, uma paralisia progressiva. A propósito, há uma pequena ficção de Karl Friedrich Kretschmann, intitulada "Scarron à Janela", de 1799, em que o autor narra observações feitas por Scarron de seu apartamento defronte ao Jardin des Tuileries, em Paris.

Quando comparam, os personagens-narradores se valem de uma estratégia que ora podem dar autoridade ao relato, ora podem servir de "boutade" com efeito humorístico. O humor aqui decorre da própria tentativa de se ganhar autoridade com as comparações: "Primo, é o meu fim! Sinto-me como aquele velho pintor destruído pela loucura, que permanecia dias a fio diante da tela esticada na moldura (...) e enaltecia aos visitantes as diversas belezas do quadro rico e maravilhoso que ele acabara de concluir. Eu desisto, renuncio à vida ativa que (...) saía de mim mesmo, familiarizando-se com o mundo. Meu espírito se retrai à sua clausura!".

O trecho é longo, mas necessário, e o exagero aqui deixa escapar a marca ultrarromântica pela qual Hoffmann era conhecido: a renúncia da vida em sociedade, a necessidade da clausura e todo o enfeite romântico proporcionado pela comparação.

O pintor a quem o primo se refere é Berklinger, um personagem do próprio Hoffmann na novela "O Pátio de Artur", e as cores escolhidas para sua descrição são próprias do romantismo. Tal qual um José Dias no romance "Dom Casmurro", o superlativo e as comparações dão efeito cômico.

Hoffmann pontua o texto inteiro com autorreferências, mas analisá-las ou atribuí-las qualquer sombra de relato autobiográfico empobreceria a narrativa. Antes (e no máximo), a realidade do autor alemão serve de contraponto complementar à sua ficção, que observa com um distanciamento mais ou menos parecido àquele da altura da janela de seu apartamento o movimento romântico, do qual foi representante inconteste, em falência ou caminhando por novas trajetórias.

É mais um olhar para o movimento romântico na Europa, em especial o francês e o alemão, do que um olhar para si mesmo, Hoffmann, que já havia escrito tantos livros e residido ali bem em frente ao Gendarmenmarkt. Há, portanto, dois motivos que se entrecruzam na história: o importância do olhar está ligada a essa crítica, cheia de bom humor, da produção literária de seu tempo.

Quando o primo diz "a julgar pela minha acurada intuição de fisiognomista", é impossível não rir de sua pretensão que se pode acompanhar durante toda a narrativa, seja pelas comparações ou pelas inúmeras referências, à moda romântica, aos clássicos, como Horácio.

Os dizeres "et si male nunc, non olim sic erit" (e se por ora o mal se faz sentir, não será sempre assim) do poeta romano, que estão fixados à cabeceira da cama do primo, dão a pista para como tamanha grandeza e riqueza de pensamento pode se subverter –não por acaso são as palavras que o narrador pronuncia ao final do conto, logo antes de suspirar um "Pobre primo!".

  Ainda sobre a questão da "acurada intuição de fisiognomista", vale lembrar que Hoffmann fazia as caricaturas de seus personagens. As mesmas referências feitas de maneira repetida no conto são também as fontes explícitas dessa "arte de enxergar", ressaltada no enredo. A teoria da "fisiognomia", em voga no fim do século XVIII, realça a dimensão pictórica desejada e aqui alcançada.

Na edição da Cosac Naify, o projeto gráfico segue o mesmo trabalho cuidadoso que Hoffmann teve com a imagem. O ilustrador Daniel Bueno, que já havia trabalhado com a editora em livros como "O Melhor Time do Mundo", de Jorge Viveiros de Castro, e "O Pequeno Fascista", de Fernando Bonassi, retorna ao seu estilo habitual de ilustração: inspirada no uso de recortes de fotos para os rostos das personagens, em silhuetas simples, com as beiradas das páginas definindo os ambientes.

Bueno também usou as próprias referências de observadores e comentaristas de costumes explicitadas por Hoffmann, como o francês Jacques Callot, o inglês William Hogarth e o polonês Daniel Chodowiecki. A aplicação das vestimentas e os apetrechos da época, selecionados após muita pesquisa (com o apoio do Instituto Goethe), também foi um ingrediente importante.

As personagens descrevem em detalhes os trejeitos, as roupas e o comportamento dos berlinenses em 1822, que transitam pelo Gendarmenmarkt. Buscou-se seguir essas descrições: as ilustrações são muito fiéis e traduzem a vista da janela (que enxerga a parte de trás dos edifícios principais). A maior parte dos transeuntes e compradores que se acotovelam na praça está retratada na imagem, com os mesmos trajes apresentados pelos narradores.

A cada página folheada pelo leitor, tem-se a impressão de que o olhar vai se fechando cada vez mais naquela ilustração, naquela imagem, como a luneta dos dois primos que observam do alto. São olhares diversos, de perto e à distância, utilizando apenas uma ilustração grande, capaz de gerar recortes –em diferentes aproximações– para todo o livro, mérito da concepção do ilustrador, que soube enxergar na história de Hoffmann esse jogo visual. Os pequenos recortes em sequência nas beiradas das páginas se aproximam da ideia de "flip book", com essa sensação de movimento.

Em todas essas imagens, o primo visitante (vamos dizer que ele seja o "narrador principal") se detém mais na descrição precisa dos fatos, enquanto o primo escritor cria situações ficcionais, hipóteses, fantasias a partir daquilo que observam lá da janela de esquina.

Esse primo escritor assume a autoridade de um romântico, que busca interpretações variadas a fatos corriqueiros do dia a dia berlinense, não sem razão. Como se estivesse a defender que a verossimilhança romântica não tem compromisso algum com a Verdade, em caixa alta, a ponto de o primo visitante reconhecer seu talento: "Caro primo, (...) graças à sua animada exposição (...), tudo se torna tão plausível para mim que sou obrigado a acreditar em suas palavras, quer eu queira ou não".

No entanto, fica clara a dificuldade de manutenção dessa postura do primo romântico. Em uma história tragicômica transmitida ao seu outro primo, relata que uma florista entrou em estado de choque quando ele lhe revelou que os livros que ela tanto admirava foram escritos por ele: "A noção de um escritor, de um poeta, era-lhe absolutamente estranha, e na verdade creio que, se continuasse perguntando, acabaria trazendo à luz a ingênua crença infantil de que é o bom Deus que faz crescer os livros, à semelhança de cogumelos".

Sem dúvida, esse é o trecho mais cômico no livro, ainda que absolutamente trágico para o primo romântico, que, embora se vangloriasse desse posto autoral absoluto, tinha consciência das consequências ridículas que isso acarretava, como ilustra o episódio.

O diálogo abaixo pode ser considerado uma chave para a compreensão da dualidade de tempos e de estética que Hoffmann promove. A juventude com o olhar mais crítico e maduro do primo; a realidade crua de uma cena banalizada com sua interpretação e indulgência românticas:

Primo visitante: "Não me agrada vê-la (a encantadora moça) andando e, ao mesmo tempo, mordiscando cerejas do cestinho".

Primo escritor: "O momentâneo apetite juvenil não se incomoda com possíveis nódoas de cereja".

Como um Camilo Castelo Branco de "Coração, Cabeça e Estômago", Hoffmann parece apresentar uma reflexão, a partir do olhar, sobre o movimento romântico. No posfácio da edição, o professor Mazzari ressalta que "o incipiente realismo hoffmanniano deve ser considerado muito mais enquanto reflexão do que reflexo". E é justamente nesse contraponto dialógico e imagético do diálogo e da visão dos dois primos que percebemos o poder e o impacto dessa reflexão. Se fosse reflexo, talvez os primos entrariam em algum tipo de consenso, mesmo que temporário.


O livro:

"A Janela da Esquina do Meu Primo", de E.T.A. Hoffmann. Tradução: Maria Aparecida Barbosa. Ilustração: Daniel Bueno. Ed. Cosac Naify, 80 págs., R$ 45.


Publicado em 26/7/2010

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Thiago Blumenthal
É jornalista.

 
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