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APARTHEID

Entre o diabo e a esperança
Por José Gatti

Segregação racial ainda impera na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, que já produziu cinco prêmios Nobel

a José Gatti


A primeira impressão que o visitante tem da Universidade da Cidade do Cabo (University of Cape Town - UCT) é maravilhosa. O campus pousa aos pés do maciço do Pico do Diabo; abaixo a Cidade do Cabo, certamente uma das mais lindas do mundo; perto dali, o encontro dos oceanos Índico e Atlântico e o imponente Cabo da Boa Esperança.

O lema da UCT é justamente "Bona Spes" -boa esperança, em latim. Construída no estilo neoclássico, a UCT é um enclave de tradição acadêmica inglesa na África. Os primeiros cursos superiores abriram em 1874; desde então, a universidade produziu cinco prêmios Nobel e é hoje o centro de pesquisas mais produtivo do continente.

Eu estava lá para realizar uma pesquisa sobre os meios audiovisuais sul-africanos e logo constatei que são raros os pesquisadores visitantes, especialmente do Brasil. Fui recebido sempre com deferência e, todas as manhãs, encontrava uma pilha de filmes preparados pelo atencioso pessoal da African Studies Library.

Frequentemente os funcionários, entusiasmados, interrompiam meu trabalho com mais informações ou um novo título: "Você já viu este filme?". Senti que expressavam o desejo de reconhecimento de uma cultura que ficou confinada pelo isolamento internacional durante os anos do apartheid.

Percebi, então, um pouco do que significa a realização da Copa do Mundo naquele país. Em que pese a falta de infra-estrutura -transporte público, hotéis- os sul-africanos são hospitaleiros e cuidadosos com os visitantes estrangeiros.

Quando cheguei no campus, meu colega-anfitrião, o professor Martin Botha, insistiu em dizer que "a UCT tem de ser vista como uma universidade africana", apesar das "tendências europeizantes" de muitos de seus colegas.

Para quem chega à África do Sul, é sempre um pouco paradoxal ouvir essas palavras saídas da boca de um homem loiro e de olhos azuis, mas é assim mesmo que os africâners se vêem. Também chamados de bôeres (palavra de origem holandesa que quer dizer "agricultor"), os sul-africanos de ascendência holandesa ou francesa não se consideram "europeus" e têm orgulho de fazer parte da terra -para desespero de certos grupos radicais de origem negra.

Como lembra o africâner Rian Malan, em sua autobiografia "My Traitor's Heart", os bôeres se tornaram uma "tribo de brancos", cuja ligação com a Europa foi ficando cada vez mais tênue durante os anos da colonização. Talvez seja para demonstrar essa ligação com a terra que africâners de todas as classes sociais costumam andar descalços nos espaços públicos sul-africanos. Não raro, famílias saem descalças de seus carros luxuosos, para passear nos shopping- centers.

O caso de Botha é especial: ele faz parte de um segmento crucial neste momento histórico do país, pois é um dos intelectuais progressistas mais importantes da UCT, um homem branco que lutou durante anos contra o regime do apartheid. Foi agredido por grupos paramilitares de racistas brancos e, como muitos outros sul-africanos de origem europeia, teve de articular alianças com grupos não-brancos historicamente oprimidos por um governo apoiado por leis abertamente racistas até 1991.

Ser africano, para Botha e muitos outros sul-africanos, não equivale a ser "branco'" ou "negro". A antologia organizada por ele, "Marginal Lives & Painful Pasts", traça a história do cinema na África do Sul e da construção de uma imagem africana do país após a queda do apartheid. Já é uma obra de referência nas ciências humanas sul-africanas.

Até 1991, o regime subsidiava a produção de filmes falados em africânder (língua derivada do holandês), dirigidos ao público interno e sem pretensões de exportação, já que a economia do país sofria um bloqueio internacional. Nesses filmes, personagens de etnias diferentes não podiam aparecer dialogando no mesmo quadro, e os realizadores tinham de recorrer, obrigatoriamente, à montagem de planos separados, em campo e contracampo, para assegurar cinematograficamente a espacialidade segregada de cada grupo étnico.

Ainda hoje, as prateleiras das lojas expõem inúmeros DVDs dirigidos ao público africâner, sem legendas em inglês ou outras línguas. Ainda hoje, o país tem uma enorme carência de profissionais de diferentes origens étnicas e linguísticas, para realizar filmes e programas de TV. Essa é uma das razões que têm impedido a África do Sul de competir com outros centros de produção anglófonos, como a Austrália e a Nova Zelândia. Além disso, talentos saem do país, como a estrela Charlize Theron e o diretor Gavin Hood, que realizou "Infância Roubada" e "Wolverine".

Assim como no cinema e na televisão, tem sido difícil a tarefa de se construir uma identidade nacional sul-africana. Mas essa é a tarefa que Mandela deixou, proposta pela progressista constituição de 1994 e que implica em superação de diferenças, ressentimentos e dores que sequer vieram à tona nesses meros 16 anos de democracia. É a tarefa do ubuntu, palavra em língua xhosa que pode ser traduzida como "espírito de solidariedade e compaixão".


A má educação

Na UCT, as dificuldades são visíveis a olho nu. Instituição pública, a universidade tem uma história marcada pela oposição ao conservadorismo dos governos sul-africanos. As primeiras mulheres foram admitidas em 1886; os primeiros estudantes negros, nos anos 1920. Por essa política integracionista, sofreu pressão constante do regime racista e teve seu campus invadido pela polícia em 1987.

O número de estudantes negros permaneceu baixo até os anos 1990, quando políticas de ação afirmativa foram implementadas. Hoje, metade dos 24 mil estudantes da universidade é composta de mulheres, e metade de não-brancos. São 19% oriundos de países vizinhos, formando o campus etnicamente mais diversificado do continente.

O prédio central da UCT, a imponente biblioteca da instituição -com mais de 1,3 milhão de livros- fica no topo de uma enorme escadaria, com vista para as planícies de conjuntos habitacionais, favelas e, mais ao fundo, os ricos vinhedos do Cabo e a cordilheira Langeberg.

Em dias ensolarados, os estudantes se apinham nos degraus do edifício, compondo um dos principais espaços de socialização espontânea no campus. É uma visão animadora: são jovens de todas as raças, representando os três principais segmentos raciais definidos e separados pelo apartheid: brancos (de origem europeia), negros (a maioria pertencente a grupos étnicos bantos) e "coloureds" (mestiços).

No entanto, para quem frequenta esse espaço cotidianamente, a visão multiétnica se dissipa. Estudantes brancos conversam exclusivamente com brancos, negros com negros, "coloureds" com "coloureds". Há pouquíssima relação entre os grupos que, apesar de dividirem o mesmo espaço, o mantêm rigorosamente segregado. O mesmo se dá nos refeitórios, nas salas de leitura e nos ônibus que transportam os estudantes da cidade para o campus.

Testemunhei algumas tentativas de integração em momentos específicos, como por exemplo em alguns eventos esportivos, em aulas de dança de salão e nas rodas de capoeira, promovidas por mestres brasileiros como atividade extracurricular. No mais, impera a barreira do silêncio e da mínima polidez. Na universidade, ao menos, não se vêem patrões (brancos) berrando ordens a seus empregados (negros ou mestiços), situação usual na esfera do privado e que tive a infelicidade de presenciar.

Nas salas de aula, no entanto, a tensão se manifesta com mais evidência. Botha e seus colegas reclamam que os estudantes brancos se recusam a ler textos assinados por autores de nomes negro-africanos.

Nos debates, presenciei pouca interação -e muita desconfiança mútua. A variedade de línguas intensifica as barreiras, pois nos grupos específicos as conversas podem se dar em qualquer das 11 línguas oficiais do país. Zulu é a mais falada (por 23% da população sul-africana de um total de 50 milhões de habitantes), seguida do africânder (13%) e do inglês (9%).

Na Província do Cabo, a língua bantu predominante é o xhosa, segunda língua mais falada do país, idioma nativo de Mandela e de 18% da população. ("Xhosa" pronuncia-se "cossa", precedido de um ligeiro estalo da língua). E apesar do inglês ser a língua oficial na universidade, os estudantes não-brancos se comunicam quase sempre em suas línguas, excluindo os colegas brancos.

Uma professora veio me contar, desolada, de uma experiência na escola de seus filhos adolescentes. Como quase todas as escolas do período pós-apartheid, tem corpos docente e discente multiétnicos. Pais e mães brancos solicitaram à escola que oferecesse aulas de língua xhosa, para que os estudantes pudessem se comunicar com mais facilidade. As dificuldades enfrentadas pela professora foram absolutamente inesperadas.

Em primeiro lugar, os professores de etnia xhosa preferiram ensinar xhosa literário, isto é, a língua dos épicos e da tradição poética, algo que para os pais brancos parecia inútil no uso diário. Em segundo lugar, os estudantes negros resolveram fazer um movimento contra o ensino de xhosa na escola, já que preferiam que seus colegas brancos não entendessem o que falavam. Esse incidente, que ecoa anos de opressão colonialista, pode dar uma idéia das dificuldades enfrentadas na construção de uma nova sociedade.


História apagada, história reescrita

O país passa por uma profunda revisão de sua história, que derruba mitos e conceitos consagrados. Esse é um movimento que apenas teve início. Em 2009 foi lançado, discretamente, o documentário "Hidden Heart", dirigido por Cristina Karrer. O filme desmonta um dos mitos mais consagrados do regime do apartheid: o do pioneiro transplante de coração realizado pelo africâner e ex-aluno da UCT Christiaan Barnard, em 1967.

A cirurgia, como se comprova, foi realizada pelo xhosa Hamilton Naki, cuja carteira de trabalho no hospital Groote Schuur o classificava como jardineiro. Como em tantas histórias do apartheid, Barnard teve reconhecimento internacional, enquanto Naki morreu na pobreza.

O professor Premesh Lalu, sul-africano de origem indiana, trabalha com a nacionalidade na literatura da África do Sul na University of the Western Cape e é, hoje, um dos historiadores mais importantes do país. Ele publicou "The Deaths of Hintsa: Postapartheid South Africa and the Shape of Recurring Pasts", em que investiga as tentativas de recuperação de eventos da história da resistência xhosa apagados pela colonização.

Lalu escreve, no momento, um livro sobre a tristeza, que define como "o tema predominante nas narrativas sobre a identidade nacional sul-africana". Essa tristeza, ele me diz, permeia as relações interétnicas no país.

Senti isso quando tentei aprender algumas palavras de xhosa. As pessoas de etnia xhosa se assustavam com minha iniciativa, pois sou identificado etnicamente como branco -e pouquíssimos brancos falam xhosa em situações cotidianas na Cidade do Cabo. Uma das primeiras palavras que aprendi em xhosa foi "unjani", que quer dizer "como vai?". A resposta-padrão é "ndiphilile", que significa "ainda estou vivo", como se a constatação da própria sobrevivência fosse uma vitória num meio geralmente hostil.

Talvez seja por isso que professores como Lalu, Botha e outros declarem sua admiração pelo Brasil e pela mestiçagem. Outro ex-aluno da UCT, o Prêmio Nobel J. M. Coetzee, fala em seu romance autobiográfico "Verão" (recentemente publicado no Brasil), do desejo de um "futuro brasileiro" para seu país.

Ainda que cientes dos problemas de nossa pseudodemocracia racial, eles vêem em nosso país possibilidades de convivência inexistentes na África do Sul. Ou como declara Antjie Krog, professora, poeta da língua africânder, que se celebrizou como a cronista dos Tribunais de Reconciliação nos anos 1990: "Devemos nos tornar uns nos outros, ou para sempre perderemos a base de nosso existir".


Autores e livros citados:

Antjie Krog, "Country of My Skull" (Johannesburg: Random House, 2002)

Martin Botha, "Marginal Lives & Painful Pasts: South African Cinema After Apartheid" (Cape Town: Genugtig! Publishers, 2007)

Premesh Lalu, "The Deaths of Hintsa: Postapartheid South Africa and the Shape of Recurring Pasts" (Cape Town: HSRC Presss, 2009)

Rian Malan, "My Traitor's Heart" (London: Vintage Books, 1991)

J. M. Coetzee, "Verão" (São Paulo: Companhia das Letras)


Publicado em 26/7/2010

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José Gatti
É professor da Universidade Federal de São Carlos e da Universidade Tuiuti do Paraná. Ele viajou à África do Sul com bolsa da Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo).

 
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