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Em Yuba é a mesma coisa. Você faz as coisas de acordo com suas aptidões. Não existe propriedade privada, não existem lojas, tanto no kibutz quanto em Yuba.

A diferença é que no kibutz não existe essa dedicação às artes. Por isso acho que Yuba é uma comunidade única. Porque é uma cultura inserida num contexto totalmente diferente. Cultivam todas as tradições japonesas, falam japonês e ao mesmo tempo se integram muito bem à realidade brasileira, acho. É uma comunidade fechada e ao mesmo tempo não é.


Você acredita na sobrevivência da comunidade?

Kanzawa: É uma coisa que todo mundo teme não acontecer. Porque o número de pessoas está reduzindo cada vez mais. Nós esperamos que ela sobreviva. O Xavier finaliza muito bem o texto, quando cita o que os idosos de Yuba costumam dizer: “Enquanto tiver coração, a comunidade sobrevive”. Acho legal que agora está havendo um incentivo do próprio Ministério da Cultura. Yuba foi considerado Ponto de Cultura. Estão fazendo agora com que as pessoas de fora se integrem, façam intercâmbio.

Houve uma época em que percebi certa estagnação. Porque muitos são autodidatas. Então, eles precisam ter algum incentivo para se aprimorarem. Os jovens estavam querendo ir para fora, porque queriam crescer e viam que, ali, ficavam limitados.

Agora, com esse intercâmbio, pode ser que ela sobreviva. Porque o sonho de Isamu Yuba era que a comunidade durasse pelo menos 100 anos. Era a condição para existir uma nova cultura. Depois disso, caminharia sozinha. Faltam 25 anos para completar os 100.


O maior problema é a baixa natalidade entre os moradores, não?

Kanzawa: É. O que acontece lá é que quase todo mundo já virou parente. Então já há incentivo para que os jovens se casem com pessoas de fora. Nos últimos anos, presenciei dois casamentos de rapazes de lá com moças japonesas que vieram do Japão através de um programa cultural –foram ensinar japonês naquela região. Está todo mundo feliz com isso, uma delas está grávida, inclusive. Então o que eles querem que aconteça é isso mesmo: que se casem com gente de fora.


Acha que sobrevivência da comunidade passa por algumas concessões, como a aceitação de gaijin (não-japoneses) entre eles? Até agora isso ainda não acontece.

Kanzawa: Houve um caso de um rapaz que tentou e que, inclusive, foi para lá por causa da minha matéria (na revista “Terra”). Dizem que ele não foi aceito por causa de seu jeito, sua personalidade, não pelo fato de ser de origem brasileiro. Ele começou a querer impor algumas mudanças. E o pessoal de Yuba é resistente a algumas. E, no fundo, esse rapaz é muito mais japonês do que eu. Ele conhece muito a cultura japonesa, tem paixão pelos japoneses.


Mas acha possível que brasileiros comecem a morar lá, efetivamente?

Kanzawa: Acho um pouco difícil. O próprio Tsuneo, que é o presidente da associação, fala que, se viver lá é difícil para os próprios japoneses, imagine para um gaijin. Eles dizem que não, mas eu percebo que é muito mais fácil aceitarem um japonês do que um brasileiro.


O livro:
"Yuba", fotos de Lucille Kanzawa. Textos de Xavier Bartarburu e Diogenes Moura. Editora Terra Virgem. 120 págs., R$ 65.


Publicado em 30/5/2010

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Fábio Fujita
É jornalista.

 
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