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LANÇAMENTO

Caio Fernando Abreu, dramaturgo
Por Karl Posso/Jornal de Resenhas

“Teatro Completo” reúne, em edição revisada, as oito peças escritas pelo autor entre 1976 e 1994

Trópico edita a seguir artigo que faz parte do novo número de "Jornal de Resenhas"; parceria vai publicar mensalmente um artigo ainda inédito.


Caio Fernando Abreu (1948-1996), indiscutivelmente um dos mais talentosos escritores brasileiros de contos da segunda metade do século XX, também produziu inúmeras colunas para jornais, dois romances e várias peças. Depois da coleção em três volumes de seus trabalhos em prosa, “Caio 3D”, publica-se “Teatro Completo”, uma edição revisada do volume originalmente preparado pelo diretor teatral Luis Artur Nunes para a Editora Sulina em 1997.

Esta segunda edição é bastante superior: as obras, que vão de diálogos breves a peças razoavelmente longas de um e dois atos, estão agora em ordem cronológica pela data de estréia; fichas técnicas e algumas fotografias das primeiras produções estão incluídas na parte final do livro, embora seja lamentável que essa seção não seja maior, já que apresenta a fascinante história da encenação das peças.

Aqueles acostumados à obra de ficção de Abreu encontrarão muitos elementos característicos nas peças: a preocupação com a psicanálise; as referências a uma variedade de religiões e crenças New Age; os diálogos com a cultura pop, o cinema e a literatura canônica; a ubiquidade da homossexualidade, sempre reprimida ou perseguida.

Em peças como “Zona Contaminada” (1994) e “O Homem e a Mancha” (1994), Abreu utiliza a nudez masculina e o besteirol homoerótico para provocar na platéia uma sensação de estranhamento, colocando assim em prática os princípios ditados pelo diretor teatral Alberto Veiga no romance “Onde Andará Dulce Veiga?” (1990).


Situações político-sociais

Alguns dos diálogos em “Sarau das 9 às 11” (1976) e algumas peças mais longas trazem reflexões sobre situações político-sociais em variados graus de explicitação: a primeira peça que Abreu escreveu, “Pode Ser Que Seja Só o Leiteiro Lá Fora”, mostra um grupo de jovens que se esconde em uma casa abandonada, apavorados com o estado do mundo e a possibilidade de serem caçados pela polícia –depois de algumas leituras do roteiro pelo país afora, a peça foi censurada em 1976; “Zona Contaminada” apresenta o processo de crescente identificação entre poder político e mídia. Em geral, porém, a política nessas peças subordina-se a preocupações existenciais mais amplas.

Uma das coisas que a reunião das peças permite entrever é a tendência de Abreu a repetir personagens e temas. Tanto em “Reunião de Família” (1984), uma adaptação do romance homônimo de Lya Luft, como em “A Maldição do Vale Negro” (escrita a quatro mãos com Nunes), mães em luto desfilam, de forma desconcertante, bonecos como substitutos fajutos de seus filhos, e velhas megeras reprimidas buscam vingança após muitos anos de serviço doméstico.

Embora uma das peças analise explicitamente a negação traumática e a repressão, e a outra termine em um absurdo mas jubiloso melodrama, ambas tecem comentários sobre a artificialidade opressiva das conversas polidas e da rotina diária, e apontam para a coexistência de realidades alternativas que fervem sob, e ocasionalmente rompem, o conformismo social.


Linhas narrativas

A trama vinculada ao tempo em vez de ao espaço e, em particular, o uso do narrador em “A Maldição do Vale Negro” apresentam Abreu como um contador de histórias preso à sua área de atuação preferida: a prosa de ficção. Entretanto, “Reunião de Família” traz o potencial das mais ambiciosas considerações espaciais e temporais sobre a escrita dramatúrgica que caracterizam as duas últimas peças de Abreu.

Em “Reunião de Família”, assim como em muitos trabalhos de Ibsen, o drama está na revelação do passado dos personagens, que precipita o desenrolar da ação; o próprio palco é dividido entre o presente da reunião de família, e um espaço que representa a memória e o inconsciente, onde o passado e o desejo se esgotam, oferecendo todo tipo de possibilidades deterministas.

O desenvolvimento simultâneo de várias linhas narrativas é explorado de forma mais ampla em “Zona Contaminada”. Lá, o palco é dividido em quatro planos ou realidades que cada vez mais interferem umas nas outras. Em termos de enredo, esta peça sugere inspiração em “O Conto da Aia” (1985), de Margaret Atwood: ante o apocalipse, todas as ações direcionam-se à sobrevivência e à criação de um novo mundo; os personagens buscam seus objetivos de maneiras conflitantes que acabam por se cancelar.

A simultaneidade das atuações é crucial para a construção do significado: a coexistência de múltiplos ideais e utopias nega a sua possibilidade. Apesar da trama de “Zona Contaminada” frustrar quando comparada com os contos engenhosos e sensíveis de Abreu, o impacto da apresentação do significado de forma tanto espacial quanto verbal torna esta peça um êxito dramático maior que qualquer uma de suas criações anteriores para o palco.


A força da ação dramática

As primeiras peças de Abreu são regidas amplamente pela noção de melodrama como um gênero em que papel, função e personagem concordam, ao menos no fim de contas: o herói se comporta heroicamente; o aristocrata, nobremente; e o vilão, terrivelmente. No entanto, sua última peça, “O Homem e a Mancha”, discrepa de tudo isso. Nela, Abreu mostra que, como em todo grande drama, o personagem singular ou problemático que se afasta do seu papel e até mesmo o desafia fornece o componente essencial para a ação dramática.

Para ter força, a ação dramática sustenta-se na tensão entre os requisitos da trama e a natureza do personagem. Hamlet não se adequa nem ao seu papel como vingador nem à sua função como príncipe. Abreu toma como seu ponto de partida um personagem notoriamente incapaz de cumprir o papel que ele mesmo se atribuiu, Dom Quixote; a partir daí, pratica experimentos com a alienação brechtiana.

O personagem em “O Homem e a Mancha” oferece mais que somente uma imagem de idealismo eternamente em conflito com a mesquinhez e a maldade do mundo real, embora isto seja indicado pela discrepância entre o sempre contraditório monólogo e a ambientação da ação; ele luta de forma imprevisível e incontrolável com as amarras da subjetividade: ele é uma multiplicidade de “eus” se fragmentando, o que culmina quando “todas as porções anteriores vêm subitamente à tona, numa verdadeira apoteose esquizofrênica e pós-moderna”.

“O Homem e a Mancha” é até certo ponto comovente devido à sua possível dimensão autobiográfica. Um dos heterônimos do personagem –o mais perturbador– é “o Homem da Mancha” que está histericamente à procura de “manchas” e se apavora especialmente com a possibilidade de manchas púrpuras ou corpóreas. Seu empenho remete ao do protagonista de “Onde Andará Dulce Veiga?”, que vive encontrando manchas, referências ao HIV que ele pode ter contraído.

Com a sua ação vertiginosa, “O Homem e a Mancha” impede a empatia; e o faz assim para encorajar a platdia agredida a refletir sobre a relação inábil entre a sociedade, que o (s) personagem (ns) rejeitam repetidamente, o afastamento aparentemente patológico dos personagens de tudo e todos, e a necessidade dominante de afirmação da vida apesar de seus muitos problemas.

A última peça de Abreu mostra que, em que pese o fato de que literatura e teatro lidam com significados e mensagens, aquilo que lhes dá qualidade artística e literária não é o seu conteúdo, mas o seu afeto, no sentido deleuzeano, de uma força ou estilo sensível, através do qual eles produzem seu conteúdo. A obra final em “Teatro Completo” serve de testemunho do início da maturidade de Abreu como dramaturgo pouco antes de sua morte.


O livro:

“Teatro Completo”, de Caio Fernando Abreu. Organização: Luís Artur Nunes e Marcos Breda. Editora Agir. 368 págs., R$ 49,90.


Publicado em 18/5/2010

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Karl Posso/Jornal de Resenhas
É professor de literatura e cultura latino-americana na Universidade de Manchester e autor de "Artimanhas da Sedução" (Ed. UFMG).

 
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