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ensaio
CASTA

As eternas promessas da medicina
Por Jean Marcel Carvalho França

Vivemos sob a constante tutela dos medícos, que tomaram para si o monopólio da verdade sobre a saúde

O pensador estoico Lúcio Aneu Sêneca não se cansa de recomendar aos seus leitores que a vida não deve ser comprada a qualquer preço. Mais ainda. Ao homem sábio, segundo ele, recomenda-se, inclusive, encurtar a própria existência se a Fortuna mostrar-se demasiado adversa, se o dia a dia se converter somente num pasto para a dor. Afinal, se escolhemos o que comer, o que vestir, onde morar e tantas outras banalidades, porque não escolher também, caso tenhamos a chance, a hora e o modo de morrer?

O pensamento de Sêneca, certamente, não tem muitos adeptos nas sociedades contemporâneas, sociedades em que a busca por viver mais é uma obsessão quase religiosa, incentivada por uma poderosa casta de quase santos: os profissionais da saúde (física e mental).

Por aqui, no Brasil, como por todo lado no Ocidente, pelo menos desde o século XIX, existimos sob a crescente e constante tutela dessa gente, gente que se encarregou de tomar para si o monopólio da verdade sobre a saúde e, consequentemente, o direito de elaborar as regras de conduta necessárias para que possamos supostamente viver muito e, como gostam de pregar, “com mais qualidade de vida”. Tamanha autoridade, prestígio e penetração social, porém, concedamos o mérito a quem tem, nem veio do dia para a noite nem caiu do céu, ao contrário, foi um processo longo e custou muito esforço da categoria.

O Brasil, como se sabe, lamentavelmente conheceu uma universidade, a Universidade de São Paulo (USP), somente na década de 30 do século XX. Durante os 300 e poucos anos de colônia, não tivemos sequer ensino universitário. A primeira, ou melhor, as duas primeiras faculdades instaladas no país foram as de Direito, inauguradas em pleno Brasil independente (1827), nas cidades de Olinda e São Paulo.

A instalação dessas duas instituições de ensino, é bom que se diga, veio como uma espécie de compensação minguada de um plano bem mais ambicioso, acalentado desde o início do governo de Pedro I: a criação da Universidade do Brasil. A universidade, porém, por razões variadas, entre as quais a indisponibilidade de verbas, não saiu do papel. Saíram somente os dois cursos isolados, que assim permaneceram até 1832, quando foram inauguradas, nas cidades de Salvador e do Rio de Janeiro, as Faculdades de Medicina.

Desde 1829, organizados em torno da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Corte, os poucos médicos que atuavam no país reivindicavam junto aos poderes públicos a criação de uma instituição na qual pudessem, em solo nacional, reproduzir seus quadros, aprimorar o conhecimento da área e controlar melhor o exercício da profissão –o país estava repleto de “pajés e curandeiros”–, medidas que, diziam os doutores, eram indispensáveis para diminuir a enorme mortandade das cidades brasileiras. Em 1832, a contínua e crescente pressão médica finalmente deu resultados e, como mencionado, foram abertas as duas faculdades.

Para além de, durante muito tempo, dividir com as faculdades de direito o papel de instituições formadoras das elites letradas do país –no Brasil, afora uns autodidatas, a maior parte dos nossos políticos, jornalistas, literatos etc. passaram pelos bancos das instituições mencionadas–, a Faculdade de Medicina e o saber médico aí produzido e divulgado teve um papel sobremodo importante na formação dos costumes da população brasileira do século XIX.

Os médicos, que buscavam se afirmar como os senhores da verdade sobre a doença e a cura, sonharam nesta época com uma sociedade livre de patologias físicas e morais. Foi em nome dessa sociedade higienizada que opinaram sobre a organização das prisões e dos colégios, sobre a melhor maneira de controlar e asseptizar a prostituição, sobre a educação das crianças e dos jovens, sobre a limpeza dos logradouros públicos e dos estabelecimentos comerciais e até mesmo sobre a alimentação e a vestimenta de homens, mulheres e crianças.

Eram tempos em que se acreditava nos poderes ilimitados da medicina, nos poderes ilimitados dos “saberes científicos”. Foi dentro desse espírito que, em 1836, o doutor Cruz Jobim, no discurso de abertura do seu curso de medicina legal, orgulhosamente disse aos seus alunos: "Da medicina e das ideias que ela fornece os legisladores de todos os países têm procurado tirar os fundamentos de grande número de leis. Tanto mais válidas e estáveis quanto elas têm por base o conhecimento da natureza humana e das suas verdadeiras necessidades".

É certo que, nestes quase 200 anos de existência, o saber desses esperançosos doutores não levou nem ao conhecimento da tal natureza humana, nem à estipulação das “melhores” regras para a organização da sociedade brasileira. Por sorte da categoria, porém, cada vez menos a sociedade os interrogou acerca de tão espinhosos temas.

Outra era a expectativa dos “leigos” em relação a eles. O homem comum dispôs-se a ouvir e a acatar as prescrições de médicos e psiquiatras –e de toda uma chusma de “auxiliares especializados”, de nutricionistas a treinadores de academia–, desde que isso trouxesse consigo a esperança não de alcançar o conhecimento da natureza humana ou de viver em uma sociedade sem tensões, mas de simplesmente durar mais tempo e prolongar ao máximo os vigores da juventude.

Foi graças a essas promessas, promessas constantemente renovadas, que os doutores de toda casta alcançaram relativo êxito na sua missão de higienizar a sociedade e regrar a vida dos mortais. Foi graças a ela que grande parte das normas de que os indivíduos passaram a lançar mão para organizar a sua vida cotidiana se impregnou de recomendações médicas. Está longe de ser por acaso, por exemplo, que a internet tenha mais sites com dicas de saúde e bem-estar do que com conteúdo pornográfico.

Hoje é mais fácil as crianças e os jovens serem aliciados por um produto farmacêutico, um alimento funcional, uma vitamina ou um chá purificante, do que por um artigo erótico. Não é tampouco por acaso que os grandes jornais, nos últimos tempos, passaram a dedicar páginas, seções e mesmo cadernos inteiros, com dicas e reportagens sustentadas na opinião dos indefectíveis “doutores” e “especialistas”, voltados para a saúde física e mental dos leitores.

Estamos, em suma, empesteados pelas “verdades médicas”, verdades quase sempre contraditórias, instáveis e com resultados extremamente incertos. Afinal, como também sempre recorda o referido Sêneca, por vezes “morremos, vítimas do nosso medo de morrer”, pois a Fortuna é uma dama caprichosa, que gosta de submeter aos piores tormentos aqueles que são demasiado precavidos diante da vida.


Publicado em 8/5/2010

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Jean Marcel Carvalho França
É professor do Departamento de História da UNESP-Franca e autor, entre outros, de "Literatura e Sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e "Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial" (José Olympio, 2000).

 
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