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a.r.t.e.
AGUDOS

A fascinação dos castrati está de volta
Por Alvaro Machado


O cantor ucriano Vitas, de 29 anos
Divulgação

O cantor ucraniano Vitas, com alcance vocal incomum, vira fenômeno musical na Rússia e na China

A fascinação despertada, nos séculos 17 e 18, pelos agudos “impossíveis” dos castrati das óperas barrocas está conhecendo um curioso ressurgimento no mundo do pop. Em dez anos de carreira, o alcance vocal incomum do ucraniano Vitas, 29 anos, fez do cantor um fenômeno asiático, um dos artistas mais vendidos na China nos anos recentes (quatro discos de platina), com popularidade ascendente também no Japão.

Apesar de saber-se que, em 2002, com apenas 21 anos, Vitas organizou concerto solo no monumental Palácio de Estado do Kremlin, em Moscou (ex-arena de eventos do Partido Comunista Russo) –mesmo local e ano em que também apresentou seus dotes de estilista, numa coleção de outono-inverno–, o astro tem hoje sua carreira prioritariamente dirigida ao público chinês, que o recebe, nos palcos, com furor.

A admiração é correspondida: nas composições que assina e interpreta, frequentes aventuras em regiões vocais próximas às da Rainha da Noite mozartiana parecem retribuir a devoção dos fãs orientais ao remeterem diretamente aos melismas acrobáticos da ópera chinesa e do canto kabuki, que cultivaram a tradição de cantores cujos falsetes eram tão elaborados quanto seus travestis de princesas e feiticeiras.

Melhor, contudo, restringir a comparação com os divos dos dramas orientais às escalas musicais, pois Vitas alimenta imagem de galã romântico e traveste-se, no máximo, de David Bowie glitter dos anos 00, ou de robô saído do seriado "Flash Gordon". Dizem os devotos, cuja maioria flagrante é constituída de mulheres, que o artista não é afeminado e tampouco castrato, ou seja, portador de mutilação no aparelho genital sofrida na adolescência, já que em várias fotos percebe-se apontar barba cerrada, indício de hormônios masculinos em bom funcionamento.

Não, seus agudos prodigiosos não se devem ao congelamento artificial de registro vocal infantil. Se ele alcança plenamente as notas mais agudas, reservadas pela natureza às crianças e às vozes femininas, é porque trata-se de um habilidoso sopranista, uma raridade.

De modo diverso do também prodigioso contratenor –cujas tessituras agudas, porém mais encorpadas, são febre em gravações de Haendel e Purcell nos últimos 20 anos–, o sopranista abdica de recorrer à parte grave de suas pregas vocais, alcançando, assim, as áreas mais altas. Devido a treinos exaustivos, hábito involuntário ou conformação anatômica? Não se sabe ao certo: o registro de sopranista sempre carrega aura de mistério, e cada caso é um caso.

Já o site oficial do artista baseado na Rússia (há sites oficiais também na China, no Japão e na Romênia) estampa que ele é a “voz de diamante”, capaz de quebrar taças de cristal e vidros de janelas, como enfatizam as imagens de seus clipes musicais mais populares.

Mais ao sul do continente, os chineses reservam-lhe um elogio que soa um tanto dúbio para ouvidos ocidentais: Vitas seria “o príncipe dos sons de golfinho”, tal qual uma mutação rara.

Num dos muitos clipes já feitos para o sucesso que o catapultou em 2000, a melô romântica “Opera nº 2”, o cantor assume o papel de mutação teratológica: rapaz amorosamente desiludido precisa mergulhar numa banheira o pescoço cheio de guelras (confusão com mamíferos aquáticos?) para, então, declarar sua dor em agudos impossíveis, que estouram aquários. O mutante homem-peixe é simpático aos olhos das moças, mas não para casar...

Resumo da ópera: a inconsequência despreocupada de toda a encenação beira o mau gosto proposital, ou o "camp", num surrealismo instantâneo que há muito não se assiste em produções do pop ocidental. Já “Opera nº 1”, de 2001, repete a lenda do homem-peixe, mas desta vez é todo o profano mundo contemporâneo asiático que se depara com uma criatura marinha ululante, conduzida por monges à adoração pública, num pagode em estilo chinês.

Os hits “Opera” parecem destinados a eternizar-se, já que o cantor ainda os leva aos palcos, para performances em que a entrada dos agudos é anunciada, como nos demais números que incluem pirotecnias vocais, por passos coreográficos e movimentos de braços dignos de um Travolta.

Essa é a “deixa” para que as plateias se entreguem ao delírio. Plateias com grande concorrência de pós-adolescentes, mas não somente: a amplitude de seu público justifica escalações para dezenas de megaeventos realizados na China emergente, dentre eles os shows oficiais dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, dos Jogos Mundiais dos Estudantes 2009 e da Expo Mundial Xangai 2010, esta com inauguração neste mês.

A identificação do eslavo com o Leste asiático levou-o a apresentar-se, ainda, em show de solidariedade às vítimas do terremoto da província de Sichuan, em 2008, num palco montado no epicentro das destruições. Já a Rússia convoca-o regularmente, por exemplo, para os tradicionais concertos comemorativos de maio para o Dia da Vitória (sobre Hitler), em São Petersburgo.

Tornado assim verdadeira conexão viva entre a Rússia e os povos orientais, com assiduidade na ponte Pequim-Tóquio-Moscou, Vitas vai traçando sua carreira de elo perdido do imaginário asiático-oriental, ao alternar regularmente em seu repertório canções do folclore russo e melopéias de extração sino-japonesa.

De outro lado, comparecem sucessos da música lírica ocidental que lhe dão oportunidade de exibir os dotes vocais. Entre os clipes dessa água, o mais visto remete ao “Quinto Elemento” do cinema, já que o ucraniano reinterpretou a ária para soprano popularizada em 1997 pelo filme de Luc Besson, cujo roteiro versa, aliás, sobre matéria indefinível ou misteriosa.

Trata-se de “Il Duoce Suono” (da cena da loucura de “Lucia di Lamermoor”, de Donizetti). Os “toques Vitas” são, neste número, timbre oriental e variações não-ortodoxas, além de violinos furiosos, tocados por duas loiras padrão era Putin de vulgaridade, com botoxes de matar.

Do repertório lírico ocidental, ele arrisca, ainda, “Nessun Dorma”, de Puccini (nesta, um acréscimo de micronotas na partitura original empresta caráter javanês a certa coloratura), a “Ave Maria”, de Schubert, e a canção “O Sole Mio”, entre outras. Mas, para conferir, o ouvinte tradicional de ópera terá de se adaptar a interpretações sob figurinos no mínimo extemporâneos, como o de um faraó de escola de samba, portado com absoluta naturalidade.

A fantasia desvairada de “O Quinto Elemento” para a ária de Donizetti inspirou ao cantor extravagância ainda maior: “O Sétimo Elemento” é composição em clave disco, que ele canta divertidamente vestido de extraterrestre (como fazia a soprano do filme de Besson), porém com um adendo de saltos-plataforma anos 1970, tão altos quanto as notas emitidas, o que lhe permite apenas requebros minimalistas (leia ao final deste artigo a lista de endereços na internet para os principais vídeos).

Até o momento, a célebre ária “La Mamma Morta”, de Chénier, está resguardada de reinterpretações com embalagem "camp"; mas por quanto tempo? Pois existe, no universo Vitas, um considerável culto à mãe –em seu caso, morta em 2001–, gerador de uma coleção de baladas exaustivamente dedicadas (e mesmo um álbum), sempre com letras de inconformismo lamentoso. Já as canções que encabeçam os últimos discos (dez até o momento) repetem o esquema de “Opera nº 2”, com desilusões amorosas subitamente sublimadas pela nota mais alta possível para uma garganta revoltada.

Nem castrato, nem gay publicamente assumido, nem homem-golfinho, nem peixe canoro. A única verdade é que sua vida afetiva, caso exista, é mantida sob silêncio estrito e não se tem notícia de quais sejam suas verdadeiras paixões, além da mãe. Clipes como “La Donna è Mobile” (Verdi, gravado em 2009), no qual ele usa figurino barroco, mas sem peruca, deixam subentendido que a possibilidade de atingir agudos estratosféricos satisfaz mais as mulheres que qualquer físico “matcho”.

Aqui a memória obriga a abrir parênteses verde-amarelos: lamentavelmente, o contratenor Edson Cordeiro não conseguiu manter nem por dez anos o frescor dos agudos do início de sua carreira e, sobretudo, seu rosto não se mostrou capaz de enfeitiçar imaginações.

Antiga estratégia de marketing, a discrição em torno da vida amorosa do ainda "pretty face" Vitas sem dúvida ajuda a manter acesos sonhos impossíveis de moçoilas nos quatro cantos do mundo, embora ele raramente se apresente a oeste dos países eslavos (no entanto, Los Angeles e Nova York já o receberam).

Nos Estados Unidos, um fã-clube Vitas promove atualmente petição para que ele volte a cantar no país e fala-se de turnês no Canadá, Austrália e Europa, ainda sem datas. Entre dezenas de sites de fãs, já existem colônias na Argentina e Venezuela, além de um “fã-blog latino-americano”, presidido pela santista Tatianna Raquel, que também anda postando em outros sítios traduções para o português das letras de seu ídolo, que ela define como “contratenor com vozeirão”. No You Tube, existe também o hábito de colocar vídeos com grotescas imitações das performances, numa babel de idiomas.

No Brasil, o mais provável é que o cantor seja melhor conhecido quando estrear o épico e blockbuster chinês “Mulan” (2009), que reconta a história da heroína lendária travestida de homem, a mesma adaptada pelos estúdios Disney, em 98. Nesse filme, em participação especial, Vitas concorre diretamente com a protagonista ao exibir cabelos ainda mais longos e cuidados.

Enquanto isso, as fãs brasileiras, como a estudante de relações internacionais Ana Lívia Esteves, seguem-no pelos vídeos postados na internet. Ela conta:

“Estudo russo há nove anos e, ao acessar jornais e revistas de lá, me deparei com uma grande matéria sobre o ‘fenômeno chinês Vitas’, pois na época, os clipes ‘Opera n. 1’ e ‘Opera n. 2’ eram top hits na China. Ele impressiona porque produz uma música e uma imagem de si muito diferentes do que estamos acostumados: é bonito, mas se movimenta de maneira pitoresca; e canta muito bem, mas os arranjos de suas músicas são sinistros. São, porém, os seus agudos que dão o toque bizarro e admirável ao seu trabalho. No começo, eu ria às gargalhadas quando o via cantar, mas aos poucos fui me acostumando e aprendi a gostar.

"Na Rússia, ele sempre foi bem conhecido, mas preterido por Dilma Bilan, ganhador do prêmio Eurovision. Não é errado afirmar que o fato de Vitas ser gay o coloca em desvantagem no mercado russo, já que a homofobia é disseminada no país.

"O Vitas é um cantor pop de formação lírica que criou um estilo pop-gótico totalmente inédito. As letras das músicas abordam, normalmente, temas como a melancolia em um contexto urbano, moderno. Ele é sempre acompanhado de uma banda de qualidade, ou mesmo de uma orquestra,  o que o diferencia da música pop russa contemporânea, totalmente ocidentalizada, simbolizada por Dilma Bilan. Sua carreira na China está consolidada e ele está aprendendo a falar chinês, mas ainda canta em russo”.

Já a pesquisadora da cultura russa e professora Neide Jallageas, que conheceu acidentalmente o cantor em buscas entre sites russos, formula uma interessante síntese para o estilo do artista:

“Vitas pertence a uma linhagem eslavófila. Ele é fascinante por conjugar erudito e pop e resvala no brega a toda hora, mas é um brega diferente. Porque é brega para o Ocidente, na visão ocidental. Mas se você vê ou lembra dos figurinos do Baskt (Leon Baskt, 1866-1924), da Exter (Aleksandra Exter, 1882-1949), ou dos cenários da (Natalia) Gontcharova para o balés do (Sergei) Diaghiliév, dá para pensar em um desdobramento desse universo fantástico, de contos de fadas nas performances do Vitas, que, numa leitura bem achatada (minha) é como o Ney Matogrosso eslavo... Um ‘antropofagozinho’ da tradição eslava mixada com o pop contemporâneo”.

Enquanto isso, o empresário do cantor, Sergei Pudovkin, nessa função há dez anos (talvez o Diaghiliév deste novo Nijinski), anuncia que em seu novo álbum, “Light of a New Day”, Vitas emitirá “puras vocalizações sem letras”, para provar o “poder de sua voz” e “todas as habilidades de sua energia de luz”, “para aqueles que necessitam proteção emocional e uma aura de bondade”.

Assim, convoca, no site oficial russo do cantor, testemunhos de psicólogos e musicoterapeutas sobre os poderes curativos da voz do amigo, além de pedir abertamente “fundos para essas pesquisas”, que podem ser transferidos do mundo inteiro para uma conta russa. Mas essa já é toda uma outra história, ou outro problema, que se conectaria, no melhor dos casos, a certa tradição espiritualista russa, ou, no pior, a um método inédito de oportunismo.



link-se

“Opera n.2”, 2000 (versão de palco, canção pop com sequências de agudos): http://www.youtube.com/watch?v=YjO_VXHxsRw

 
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