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dossiê
LITERATURA DO ORIENTE MÉDIO

Um guia de leitura
Por Christina Stephano de Queiroz

A lista a seguir apresenta dez escritores contemporâneos essenciais do Oriente Médio. Organizada em ordem alfabética, a relação se concentra em autores que escrevem no idioma de seu país de origem. As referências aos livros que não estão disponíveis em português foram feitas primeiro em espanhol (caso estejam disponíveis neste idioma), em inglês (se não existe versão espanhola) e finalmente em árabe, se as obras não chegaram a ser traduzidas para os três idiomas citados.


1. Abderrahmán Munif (1933 - 2004), da Jordânia

Narrador incansável da realidade política e social dos países árabes, sua obra mais famosa é “Ciudades de Sal”, composta por cinco livros que abordam as consequências da exploração do petróleo e da presença norte-americana no Golfo Pérsico. O volume “El Extravío” é um retrato meticuloso da sociedade beduína, feito por meio do olhar de habitantes de um oásis na Arábia Saudita. Representa, ainda, uma metáfora das mudanças que o descobrimento do petróleo provocou na região.

Sua primeira obra de ficção, “Trees And the Assassination of Marzouq”, apresenta como protagonista um homem que, depois de ser torturado na prisão, foge do seu país. Outro livro com a mesma temática é “East of the Mediterranean”, que, baseado na experiência do próprio autor, aborda o sofrimento de prisioneiros em centros de detenção do mundo árabe. Munif começou a escrever com 40 anos, e as duras críticas que fez a regimes totalitários o levaram a ser expulso de vários países, entre eles a Arábia Saudita.


2. Alaa Al Aswani (1957), do Egito

Com três romances publicados, sua principal obra é “Edifício Iaqobian” (em espanhol), de 2007, um fenômeno de vendas no Egito. Sob a clara influência de Naguib Mahfuz, o livro retrata o cotidiano de pessoas em um edifício típico do Cairo, denunciando falsos moralismos e hipocrisias. Baseada na experiência pessoal do autor, “Chicago” (em inglês), obra mais recente, conta a história de um grupo de egípcios que passa a viver nessa cidade norte-americana.

Dentista de formação, Aswani segue trabalhando com a profissão até hoje, não somente para garantir a sobrevivência (já que o ofício de escritor pode ter altos e baixos intensos, ainda mais em uma sociedade como a egípcia, onde a censura ainda atua). como também para ter contato direto com o povo, que garante ser sua principal fonte de inspiração.


3. Ali Bader (1964), do Iraque

O escritor faz em seus livros um retrato subjetivo da história do Iraque, desde a época do imperialismo turco até a era de Saddam Hussein. Sua primeira obra, “Papa Sartre” (em espanhol), de 2001 e a única disponível em inglês até o momento, conta a história de um grupo de intelectuais iraquianos que tenta adotar idéias do existencialismo francês.

Em “al-Haris at-tabagh” (O Guardião do Tabaco), de 2008, indicado para o Arabic Booker Prize, o autor aborda a vida cultural no Iraque depois da ocupação norte-americana. Outro livro de interesse é “al-Walima al-‘ariya” (O Banquete Desnudo), de 2004, e que trata da conquista de Bagdá pelos britânicos durante a Primeira Guerra Mundial.

Bader nasceu em Bagdá e fez o serviço militar durante a primeira e a segunda guerras do Golfo. Além de escritor, trabalhou como correspondente de guerra para a imprensa do Oriente Médio. Atualmente vive na Jordânia.


4. Amoz Oz (1939), de Israel

O escritor Amoz Oz é um dos fundadores do movimento pacifista Paz Agora, que propõe o estabelecimento de dois estados como solução para o conflito entre Israel e Palestina. Viveu mais de 30 anos em um kibutz e hoje é professor de literatura hebraica. Novelista, escritor de contos e ensaios, muitas das suas histórias apresentam descrições do cotidiano em um kibutz, que representa um microcosmo da sociedade de Jerusalém.

Temas como o antissemitismo, o Holocausto e os conflitos com o mundo árabe são recorrentes em seus trabalhos. Quase todos os seus livros foram traduzidos para o português pela Companhia das Letras, com destaque para “Conhecer uma Mulher”, “Não Diga Noite” e “A Caixa Preta”. O tema do fanatismo político e religioso mereceu uma reflexão irônica no livro de não-ficção “Como Curar um Fanático”.


5. David Grossman (1954), de Israel

Escreveu obras de ficção e estudos acadêmicos, além de trabalhos de literatura juvenil. Em 2006, seu filho de 20 anos foi assassinado poucos dias antes do cessar-fogo da guerra entre Israel e Líbano. Conhecido por seu discurso pacifista e antissionista, Grossman tem inúmeros trabalhos traduzidos para o inglês e português, muitos deles centrados nas disputas entre judeus e árabes e no trauma gerado com a violência na região.

O premiado “A Mulher Foge” (Companhia das Letras) aborda problemas atuais de Israel e conflitos com o mundo árabe, além de incluir elementos de sua própria biografia. “Alguém para Correr Comigo” (Companhia das Letras) é uma extensa narrativa sobre o cotidiano em Israel contemporâneo, por meio da voz de personagens jovens, que expressam suas frustrações e esperanças.


6. Elias Khoury (1948 - ver biografia em entrevista), do Líbano

Um de seus livros famosos, “Porta do Sol”, foi traduzido para o português pela Record. A obra, de 1998, é a primeira em que o autor fala da saga palestina e pode ser descrita como uma tentativa de diálogo entre o médico Khalil e seu pai espiritual e herói da resistência, chamado Yunis. Mas Yunis está em coma no hospital do campo de refugiados Xatila e, por isso, o que ocorre é um monólogo interior do médico com seu suposto ouvinte. Com a esperança de trazer o amigo de volta à vida, o doutor resgata acontecimentos do passado. Essas lembranças envolvem histórias do povo palestino e da própria vida do paciente.

Ambientado em Beirute durante a ocupação israelense de 1982, outro trabalho importante é “El Viaje del Pequeno Ghandi”, que conta a história de um limpador de botas, uma prostituta e um pastor protestante. Também com uma estrutura labiríntica, “Ialo” (em espanhol) tem como protagonista um estuprador, que foi criado pelo avó em um ambiente de violência e tortura. Sobre esse trabalho, o autor disse em uma entrevista: “É uma história triste e profunda. Ialo faz parte de uma tragédia, mas acaba encontrando o amor. O personagem converteu-se em um amigo íntimo. Quero que, quando ele saia da prisão, sua amada o esteja esperando na porta para confortá-lo”.


7. Raja Alem (1970), da Arábia Saudita

Autora de sete romances, obras de teatro e livros de poesia, Raja Alem é uma das únicas autoras sauditas traduzida para idiomas como o inglês ou o espanhol. Para fugir da censura do seu país de nascimento, uma das mais duras do mundo árabe, publica seus livros em Beirute. Trabalha em parceria com a irmã, Shadia Alem, conhecida artista plástica no Oriente Médio.

Raja começou escrevendo em um árabe clássico refinado, de forma que a tradução dos seus livros requeriam um trabalho de “decodificação”, muito mais do que de tradução. “Tariq al-Harir” (Estrada da Seda), de 1995 e disponível somente em árabe, fala dos mitos, símbolos e sagas de uma província da Arábia Saudita, que foi o cenário de caravanas de nômades e também do nascimento do Islã.

Complexo e poético, o livro “Játim”, de 2001 (único com tradução para o espanhol), conta a história de um personagem conflituoso, que sofre ao tentar se definir como mulher ou homem, sem falar abertamente da sexualidade. A fascinante dualidade do protagonista cativa pela delicadeza com que a autora trata da questão dos limites entre o feminino e o masculino. Outros trabalhos de interesse disponíveis em inglês são “Fatma” e “My Thousand & One Nights: A Novel of Mecca”.


8. Khaled Khalifa (1964), da Síria

Ilustre representante da classe intelectual boêmia de Damasco, este autor possui três obras publicadas, além de inúmeros roteiros para filmes e séries televisivas. Ambientado nos anos 80, seu último trabalho, “In Praise of Hatred”, conta a história de uma família de classe média que vende tapetes em uma época de conflitos sérios entre a comunidade muçulmana e o governo. Contada através múltiplos personagens, a trama aborda a questão da repressão sob a sombra de organizações fundamentalistas, em uma sociedade que desconhece a democracia.

“The Books of the Gypsies” é outra obra interessante do autor, que atualmente trabalha em um livro protagonizado uma mulher. “O cotidiano de Damasco me motiva a escrever sobre a vida e não sobre política. Jamais viveria em outro lugar do mundo”, comentou em entrevista.


9. Murid Barguti (1944), da Palestina

Barguti centrou sua carreira literária na poesia, mas, com o magistral “He Visto Ramalah”, ganhou imediato reconhecimento como prosador. O livro, autobiográfico, conta sua experiência de retorno à Palestina, depois de 30 anos de exílio. É um relato emocionante sobre a experiência do desterro, da solidão e da injustiça.

Considerado uma das vozes mais independentes da diáspora palestina, é chamado “o escritor da antipossessão e do desapego” por excelência. Outras obras de interesse são “Un Exilio Demasiado Largo”, coleção de poemas inspirada nos massacres ocorridos nos campos de refugiados de Sabra e Xatila, e “Medianoche”, que reflete sobre a temporalidade da existência e une a experiência subjetiva do poeta com o drama do seu povo.


10. Naguib Mahfuz (1911 - 2006), do Egito

Único escritor em língua árabe a ganhar um Prêmio Nobel. É impossível pensar em literatura do Oriente Médio sem a imagem de Mahfuz, que influencia até hoje o imaginário narrativo de autores mais jovens.

Alguns de seus livros foram traduzidos para o português, como “Noite das Mil e Uma Noites” (Companhia das Letras), “O Ladrão e os Cães” (L&PM Editores) e “Entre Dois Palácios” (Record). Este último faz parte da conhecida trilogia do Cairo (composta ainda pelas obras “Palacio del Deseo” e “La Azucarera”), com a qual consagrou seu estilo particular de descrever o cotidiano na cidade.

Em sintonia com os acontecimentos históricos que afetaram o Egito, Mahfuz foi um atento observador dos costumes da sociedade, denunciando perversões e criticando líderes conservadores do Islã. Curiosamente, dois de seus trabalhos inicialmente ambientados no Cairo (“El Callejón de los Milagros” e “Principio y Fin”) foram transformados em filmes por diretores mexicanos, o que mostra o caráter bairrista e ao mesmo tempo universal dos seus trabalhos.

“El Mendigo”, obra menos conhecida, mas de particular importância, descreve um personagem que renuncia à vida prática para buscar o sentido da existência. O personagem renega todas as ideologias e códigos morais da sua sociedade: deixa de lado a família e o trabalho para viver com uma prostituta, até desistir de tudo e refugiar-se na solidão.

Em 1994, Mahfuz foi esfaqueado no pescoço por um fundamentalista islâmico, que o acusava de blasfemar contra o Islã. O escritor egípcio publicou mais de 50 romances, além de contos e roteiros para o cinema e teatro.


Publicado em 27/2/2010

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz doutorado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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