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dossiê
LITERATURA DO ORIENTE MÉDIO

A língua do inimigo
Por Christina Stephano de Queiroz


O escritor de origem árabe Sayed Kashua
Alejandro Peyrou

De origem árabe e nascido em Israel, Sayed Kashua diz que é "perigoso" escrever no idioma hebreu

Proveniente de uma família árabe, Sayed Kashua nasceu em Israel, em 1975. Foi educado em escola judia e escreve em hebreu. Seus dois livros (“Ar Avim Roqedim”, traduzido para o inglês como “Dancing Arabs” e para o espanhol como “Árabes Danzantes”, e “Way-yehi Boqer”/“And It Became Morning”) trazem protagonistas que personificam o conflito entre árabes e israelenses.

Com tom irônico, os heróis das obras fazem duras críticas aos estereótipos nascidos do conflito e à percepção que ambos os povos têm de si mesmos e dos “outros”. Na entrevista a seguir, Kashua diz que viver em Jerusalém é um pesadelo e conta por que adotou o hebreu como língua literária. "Foi por meio desse idioma que descobri o significado da literatura", diz, mas ressalta: "Ser um escritor hebreu é ainda mais perigoso, porque o hebreu não é simplesmente considerado 'uma outra língua', e sim 'a língua do inimigo'”.

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Sua língua materna é o árabe, mas o senhor usa o hebreu como ferramenta de trabalho. Como é estar no meio dos dois lados?

Sayed Kashua: Em tempos de paz, pode ser bom, mas na guerra, você recebe tiros de todos. É preciso atuar com cautela e ensinar meus filhos a serem cautelosos. Sinto-me mais protegido quando saio com amigos judeus e, às vezes, evito ir a lugares públicos.

Ser um escritor hebreu é ainda mais perigoso, porque o hebreu não é simplesmente considerado “uma outra língua”, e sim “a língua do inimigo”. Eu não escolhi escrever em hebreu: nasci em família árabe, mas meus pais matricularam-me em uma escola judia, pois queriam que eu tivesse uma educação moderna. Desde então, escrevo em hebreu e, para ser honesto, foi por meio desse idioma que descobri o significado da literatura.


O senhor vê alguma chance de resolução do conflito na Palestina?

Kashua: É uma pena, mas esqueci minha bola de cristal no quarto (risos). Brincadeiras à parte, confesso que a situação é cada vez mais terrível. De um lado, está o governo radical da Palestina e, de outro, o israelense, que atua do outro extremo. Todos pensamos que, com a eleição de Barack Obama, a situação melhoraria, mas Israel não ameniza os conflitos; ao contrário, se esforça para evitar que os assentamentos parem.

É um pesadelo viver em Jerusalém. Casas árabes são destruídas a cada momento. Ver as famílias palestinas sendo expulsas dos seus lares enquanto as famílias judias vão entrando é realmente desagradável. Não há diálogo entre palestinos e israelenses! A única saída seria destruir toda a cidade e começar a edificá-la desde o princípio.


O senhor já pensou em mudar de país?

Kashua: Seria uma questão problemática. Se eu mudasse de país, me sentiria obrigado a mudar, também, meu universo narrativo, e isso seria um dilema. Os israelenses ficariam tensos se vissem que eu fugi para outro lugar e segui criticando a situação. Escrevo, sim, sobre judeus e israelenses, critico o governo e a política, mas eu vivo em um bairro judeu, com toda minha família! Estou dentro da situação e por isso tenho liberdade para criticá-la.


O senhor acha que escritores originários de países que passaram por guerras acabam desenvolvendo um compromisso político e social mais intenso em sua literatura?

Kashua: Me parece que, sim, em geral. Nos meus dois livros há um jogo com o imaginário de árabes e israelenses. Agora, estou escrevendo uma história de amor, mas que é bastante política, já que conta a biografia de uma família árabe que tenta encontrar seu caminho em Jerusalém.

Escritores que representam a voz de minorias têm de encontrar formas para fazer sua literatura sobreviver. No caso dos judeus, por exemplo, essa ferramenta pode ser o senso de humor.

Eu não vejo com bons olhos autores de países em conflito que emigraram e agora escrevem em árabe, da Alemanha, por exemplo. É diferente do autor que nasceu em um país estrangeiro e adotou o alemão ou francês como ferramenta de trabalho. Não é justo fugir do país para depois criticá-lo. Interessante é poder fazer críticas duras e, ao mesmo tempo, poder dizer: “Ok, eu vivo ali”.


Mas há escritores que fazem isso para fugir da censura. Ao emigrar, inclusive, fogem de ser assassinados.

Kashua: Eu sei que, em alguns países, é complicado fugir da censura. Mas emigrar para depois criticar não me parece uma atitude correta. Decidi começar a escrever, pois nunca consegui um trabalho honesto (risos). E meu leitor gosta que eu fale sobre ela. Acho totalmente estranho pensar em viver na Alemanha e escrever sobre o que acontece em Israel com um idioma estrangeiro.

De outro lado, nunca fui censurado. Deve ser porque tenho uma espécie de censura interna: sei sobre o que posso e sobre o que não posso escrever. O escritor tem de cumprir com as leis e, se quer falar sobre algo ilegal, precisa encontrar a melhor forma de abordar o tema. Não digo limitar o que escrevo, simplesmente ser inteligente na hora de expressar-se. Em minhas colunas sempre uso o senso de humor para dizer tudo o que desejo e isso funciona. Minha escrita é política e nunca foi vetada.


A literatura pode ajudar a mudar o mundo?

Kashua: A literatura não pode mudar o mundo, só o dinheiro pode. Até porque muitos livros de hoje são péssimos, e as obras mais vendidas ainda são a Bíblia e o Alcorão.


Publicado em 27/2/2010

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz doutorado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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