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dossiê
LITERATURA DO ORIENTE MÉDIO

A palavra combativa
Por Christina Stephano de Queiroz


O escritor iraniano Amir Hassan Cheheltan
Alejandro Peyrou

O escritor iraniano Amir Hassan Cheheltan fala sobre o severo controle do governo de seu país sobre as obras literárias

A polêmica gerada em torno do programa nuclear iraniano faz com que temas vitais para a população do país sejam deixados de lado pela imprensa internacional. Esse é o caso, por exemplo, da questão dos direitos humanos e da liberdade de expressão que para o escritor Amir Hassan Cheheltan deveriam ser as preocupações principais.

Na sua visão, é preciso analisar o tema nuclear com diferentes pontos de vista. “As pessoas se perguntam por que países como Israel ou Paquistão podem ter energia nuclear, suportados pelos Estados Unidos, e o Irã, não. Por que Israel pode ocupar terras palestinas, e os vizinhos árabes, não. Nós, iranianos, achamos que esse é um assunto um pouco suspeito, porque o governo diz que o programa nuclear é um direito. Mas esse é o único direito que temos? E os valores democráticos, não contam?”, pergunta.

Nascido em Teerã, em 1956, Cheheltan, autor de 13 obras, entre romances e livros de contos, critica a forma como a imprensa europeia costuma cobrir os acontecimentos no seu país. “Com pesar, afirmo que a imprensa da Europa, em geral, não sabe muito sobre o Irã. Somos um país representado pelos nossos estereótipos: pelo governo de mulas, pelas mulheres com burcas e pelas mesquitas cheias de fieis. Os protestos que ocorreram nas últimas eleições mostraram que minha sociedade possui outros aspectos poderosos, dos quais quase nunca se fala”, diz a Trópico.

Para ele, as eleições que ocorreram em junho do ano passado marcaram uma mudança muito grande na sociedade do país, porque diferentes setores da população suspeitaram dos seus resultados. Para protestar contra a fraude e corrupção do governo, foram às ruas pedir que os votos fossem recontados.

“Ninguém pode dizer que os extensos protestos são capazes de mudar o resultado das eleições. Mas conseguiram quebrar a legitimidade do candidato eleito (Mahmoud Ahmadinejad) e, por isso, creio que ele não estará preparado para governar com soberania”, afirma o escritor.

Cheheltan, porém, acredita que o problema das eleições vai mais além da questão da fraude. “A República Islâmica jamais deixaria que um candidato de fora dela ganhasse as eleições. Os candidatos só concorrem depois que ela os aprova e aceita. Por isso, de entrada, as eleições no Irã não são livres”, assegura.

Membro da Associação de Escritores Árabes, desde 1977, Cheheltan deu aulas no centro cultural Karnameh, em Teerã, e atualmente desfruta de uma bolsa de estudos que lhe foi concedida pela Daad (Deutscher Akademischer Austausch Dienst), na Alemanha.

Seus livros foram traduzidos para idiomas como inglês, italiano, francês, alemão e suíço e uma de suas obras, “The Persian Down”, foi indicada para concorrer ao prêmio de livro do ano, pelo governo do seu país.

Em protesto, Cheheltan escreveu uma carta ao Ministério responsável pela premiação, pedindo que seu trabalho fosse excluído da lista de concorrentes. Dizia a carta: “Nas últimas três décadas me opus aos responsáveis por esse prêmio por acreditar que seus valores vão contra meus princípios. Com pesar, digo que, enquanto houver apenas um livro impedido de ser publicado, minha ética me impedirá de concorrer ao prêmio”.

O escritor diz que a liberdade de expressão é sua preocupação mais séria, já que acredita que o país passa por um dos períodos mais paralisados no que diz respeito à publicação de livros. Segundo ele, editoras independentes esperam meses para saber se determinadas obras serão publicadas, e os trabalhos de ficção, como sempre, são os mais afetados.

Cheheltan conta que a censura no Irã atua em todos os âmbitos de expressão, seja ele artístico, literário, televisivo e, até mesmo, acadêmico. Todo escritor tem de enviar uma cópia do material a ser publicado para um Ministério, que confere palavra por palavra. Muitas vezes, sentenças ou parágrafos são destacados, e o autor é obrigado a mudar ou eliminar essas partes. Também acontece de livros inteiros serem vetados.

Questionado sobre como a censura tem afetado seu trabalho, o autor responde: “Absolutamente tudo o que publiquei no Irã teve partes eliminadas”. Um de seus romances (“The Story of Ghassem”) foi, inclusive, banido do país durante 20 anos (de 1983 a 2003), e o livro “Teeran, Revolution” nunca pode sair. Sua última novela (“The Morals of the Inhabitants of Revolution Avenue”) espera, há 20 meses, permissão para ser publicada.

Há, no entanto, algumas formas de fugir da censura e uma delas é publicando livros nos Estados Unidos e Europa, onde vivem muitas comunidades de iranianos. Outra possível opção seria por meio dos blogs, que permitem a qualquer um divulgar seus textos, sem o aval do censor. “Mas o governo persegue blogueiros até mesmo dentro da prisão, de forma que a idéia de liberdade associada a esse meio de comunicação pode ser um pouco ilusória”, afirma.

Cheheltan, que se diz extremamente sensível aos fatos relacionados com seu país, acredita que a literatura pode, sim, mudar o mundo. “Mas não em termos imediatos. É um longo processo. Se considerarmos textos sagrados como literários, como eu acredito que são, pode-se realmente afirmar que a literatura gera impactos decisivos na formação da sociedade.”

Para ele, o Irã passa por uma "crise de desorientação", ao tentar situar-se entre o mundo tradicional e as ânsias de modernidade. “Nos últimos cem anos, tivemos duas revoluções e sofremos dois golpes militares. Um rei, um presidente e alguns primeiros-ministros foram assassinados. Quatro reis e um presidente, exilados. Fomos ocupados por forças militares estrangeiras e internas. E a crise de desorientação ainda segue em curso”, diz.


Publicado em 27/2/2010

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz doutorado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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