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dossiê
LITERATURA DO ORIENTE MÉDIO

Um escritor guerreiro
Por Christina Stephano de Queiroz


O escritor libanês Elias Khoury
Divulgação

O libanês Elias Khoury afirma que a resolução do conflito entre Israel e a Palestina depende inteiramente dos EUA

"Oriente Médio" é o termo geográfico que utilizamos para designar, de fato, uma multiplicidade de povos e culturas reunidas naquela região. Ali, entre árabes, persas e hebreus, floresce hoje uma literatura sofisticada e de forte importância política, muito atenta aos conflitos em seus países e em luta contra as injustiça, a tirania e a censura. Essa literatura de relevante papel social permanece, porém, muito pouco conhecida no Brasil.

A fim de apresentar alguns autores significativos da região, este dossiê de Trópico reúne entrevistas com três escritores de diferentes países (Líbano, Irã e Israel) e um pequeno guia de leitura, com a indicação de dez autores que mereceriam ser lidos o quanto antes pelos brasileiros.

Entre estes autores, está o libanês Elias Khoury, filho de família cristã de classe média, nascido em Beirute, em 1948 –ano em que o Líbano estava imerso na problemática gerada pela criação do Estado de Israel.

Seu engajamento com as causas políticas e sociais do Líbano e Palestina o levaram a lutar na Guerra Civil Libanesa, em 1975, quando foi gravemente ferido nos olhos e quase perdeu a visão. Autor de 12 romances, 4 volumes de crítica literária e 3 obras de teatro, Khoury é redator-chefe do suplemento cultural do jornal "An-Nahar", de Beirute, além de professor na Universidade de Nova York.

As obras e Khoury costumam evocar disputas políticas complexas, guerras sangrentas e experiências traumáticas. Suas narrativas não são lineares e mudam de tema com a fluidez do pensamento, sem seguir um rigor lógico. Seu discurso é espontâneo e oral mas, ao mesmo tempo, erudito e carregado de sentimento, o que lhe permite relatar fatos cruéis com uma pitada de lirismo.

  Na entrevista a seguir, ele fala da censura em Estados religiosos, do aumento da xenofobia nos países europeus e da importância dos EUA para a resolução do conflito entre Israel e Palestina. "Se Obama nada fizer, ninguém será capaz de fazer. Os Estados Unidos são o único país capaz de pressionar Israel e, se nada for feito com respeito à ocupação, aos muros e às matanças. será um desastre", diz a Trópico.

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O senhor lutou na Guerra Civil libanesa e quase ficou cego por isso. O que pensa dos escritores que emigram para fugir da violência e da censura?

Elias Khoury: No caso dos escritores libaneses que emigraram para os Estados Unidos e a América do Sul no século XX, seu projeto inicial era voltar à terra natal e, por isso, escreviam em árabe. Queriam inovar o panorama literário, e a força da sua criatividade gerou um impacto importante, de forma que esses autores, mesmo no exterior, formaram parte da nossa história. Por esse motivo, acredito que eles não eram verdadeiros imigrantes.

Ao mudar de país e entrar em contato com outra cultura, houve uma mescla de identidades muito rica: eles não são mais árabes, mas tampouco pode-se dizer que são brasileiros ou norte-americanos. Como imigrante, é preciso se adaptar e reinventar a identidade com relação à nova cultura e à tradição dos antepassados.

Esses escritores emigrados não podem ser vistos como continuação do que estamos fazendo no Líbano. Essa seria uma leitura muito romântica e idealista da questão. Eu os vejo como ferramenta que permitiu introduzir uma nova realidade no meu entorno. Encontrei somente uma vez Milton Hatoum (autor brasileiro de origem liibanesa). Penso que uma comunicação mais próxima com esses escritores emigrados ou descendentes de libaneses e palestinos seria muito interessante.


Como lidar com a censura em países que possuem Estado religioso?

Khoury: Depende do caso. Em geral, a censura está menos intensa do que antes e, às vezes, é possível permanecer no lugar e lutar. Por exemplo, o cinema iraniano produzido durante o regime do aiatolá Khomeini foi um fenômeno interessante, pois os filmes eram críticos em relação à política do país. No mundo árabe, por exemplo, quando o Egito proíbe a publicação de um livro, pode-se tentar publicá-lo no Líbano, e não é preciso emigrar.

Em Beirute não há censura, mas muitas das minhas obras estão proibidas em países como Arábia Saudita, Síria e Jordânia. Porém, isso não me afeta, pois elas estão disponíveis em muitos outros lugares. Toda sociedade deve defender a liberdade de expressão e não somente escritores e intelectuais. É preciso defender o direito do escritor de escrever e o do leitor de ler.

 
Quais são as razões para o crescimento de movimentos fundamentalistas no mundo?

Khoury: Há muitos motivos, mas um deles tem a ver com o fato de os Estados Unidos e Israel terem sufocado movimentos de nacionalismo árabe, como no caso palestino. Outra razão são os ditadores que destroem organizações de sociedades civis árabes e, com isso, não há outro lugar para as pessoas se reunirem exceto na mesquita. E, claro, o terceiro elemento é a briga pelo petróleo. Todos os movimentos fundamentalistas começaram no Afeganistão, quando os norte-americanos e os sauditas fizeram uma joint venture para promover os Mujahidin (combatentes islâmicos) contra os soviéticos, criando o monstro do Bin Laden.


Como avalia o governo de Barack Obama?

Khoury: Estava muito entusiasmado com sua eleição, com a possibilidade de acabar com o governo do estúpido George W. Bush. No mínimo, pensei, Obama é inteligente e representa uma mudança para os Estados Unidos. No entanto, estou desapontado com a política na Palestina: ele não está cumprindo suas promessas. Com pesar afirmo que, se Obama nada fizer, ninguém será capaz de fazer. Os Estados Unidos são o único país capaz de pressionar Israel e, se nada for feito com respeito à ocupação, aos muros e às matanças. será um desastre.


O senhor acha que a crise econômica pode ser usada como desculpa para aumentar a xenofobia na Europa?

Khoury: Não somente pode ser usada, como já está sendo! E isso sim é uma estupidez completa, porque os imigrantes foram naturalmente chegando quando a economia precisava deles. Agora, há um problema de inatividade desses emigrados: os europeus não precisam mais deles.

A questão da imigração se converteu em um problema técnico! E agora os europeus querem colocar a culpa da crise nos imigrantes em que se apoiaram para fazer a economia crescer, em outros tempos. A Europa precisa entender que o pluralismo e o multiculturalismo são reais e devem ser aceitos, caso contrário, ocorrerá uma volta ao fascismo, o que significa suicídio.

 
O que pensa da polêmica gerada em torno do programa nuclear iraniano?

Khoury: Todos falam dela, mas ninguém diz que Israel é outra potência nuclear! Israel tem 200 bombas atômicas, o que significa um grande poder. Por isso, me parece estranho essa atenção toda dada ao programa iraniano.

De fato, espero que a região fique livre de armas nucleares, incluindo tanto o Irã, como Israel. Não gosto do discurso político anti-semita de Mahmoud Ahmadinejad... Ele é igual a Berlusconi, em termos de estupidez, e carrega uma faceta trágica e cômica ao mesmo tempo, como todos os políticos.

O tema realmente importante é como fazer com que o Oriente Médio seja totalmente livre de armas nucleares. Não se pode permitir que Israel tenha bombas e outros países não. E os Estados Unidos têm uma grande responsabilidade sobre esse assunto, pois usaram armas nucleares na região e, com isso, abriram caminho para outros. É perigoso o que faz Israel, e o que os iranianos fazem também é perigoso. Para parar um, é preciso parar todos.

 
Seu compromisso político está presente em toda sua obra, mas cada livro conta uma história diferente. Há uma mensagem comum nesse conjunto? Qual é o seu trabalho preferido?

Khoury: Na realidade, uma história sempre abre a porta para outras histórias, que se convertem em diferentes olhares. A religião trata a parábola como realidade, enquanto a literatura trata a realidade como parábola... E é o leitor que tira a conclusão final sobre um livro, e não o escritor. Sou autor de 12 romances, e o meu preferido é o que eu ainda não escrevi.


Publicado em 27;2;2010

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Christina Stephano de Queiroz
É jornalista e faz doutorado na Universidade de Barcelona, na cadeira Construção e Representação de Identidades Culturais.

 
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