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Primeiro, porque não compreendo o que pode significar “nós mesmos” e “Brasil” neste contexto. Ninguém faz ou ouve música olhando para as fronteiras do mapa-múndi. Tirar os pés do chão seria o melhor conselho que se poderia dar neste caso. Não entrar na confrontação entre os “verdadeiros brasileiros” e os “cosmopolitas ressentidos” seria um outro conselho que evitaria reanimar discussões que nunca forma realmente frutíferas. Até porque, ela só serve para evitar a enunciação de uma pergunta fundamental: quais fantasias somos obrigados a assumir para sustentar uma ideologia cultural que quer nos fazer acreditar que nossa “vivência” nos acolhe na proximidade do originário, na espontaneidade imediata do “popular”?

Não seria a hora de, para falar como Nietzsche, nos perdermos, deixarmos de querer ser “verdadeiros brasileiros”, para podermos nos encontrar? Caso contrário, há uma gôndola preparada para “nós” no interior do supermercado mundial de produtos culturais: "Canções frescas com leve toque exótico tropical”.


Publicado em 28/12/2008

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Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e autor, entre outros, de "A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética" (Unesp, 2006), "Lacan" (Publifolha, 2007) e "Cinismo e Falência da Crítica" (Boitempo, 2008).

 



 
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