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dossiê
A CANÇÃO EM QUESTÃO

As sementes de Raul
Por Pedro Alexandre Sanches

Tal como ficaram conhecidas no século XX, a música erudita e a canção popular são coisas do passado

Existe um método aqui. A música erudita ressente de por aqui já não se ouvir mais música erudita. A canção lamenta o fato de que a canção está morrendo. Quem classificou perfeitamente esse tipo de ímpeto foi um homem que soube como ninguém manipular a capacidade de se comunicar, um compositor popular brasileiro chamado Raul Seixas.

Em 1975, gotejando ironia, ele cantou assim: “Mas é que se agora pra fazer sucesso/ pra vender disco de protesto/ todo mundo tem que reclamar/ eu vou tirar meu pé da estrada/ e vou entrar também nessa jogada/ e vamo vê agora quem é que vai guentar”. Os versos, por sinal, são de autoria de outro homem habilíssimo nas artimanhas de se comunicar com grandes camadas de público, um tal de Paulo Coelho, antes de virar escritor de livros.

Como Raul já sabia e compartilhava com fino (e grosso) sarcasmo, o hábito de reclamar da vida costuma fazer enorme sucesso comercial. Reclamar em forma de rock, MPB ou rap traz holofotes e êxitos ao rock, à MPB ou ao rap resmungador. A imprensa atrai tanto mais leitura quanto mais notícias más reproduz. A música erudita chama atenção pop para si ao se dizer injustiçada. O samba agoniza sempre, embora não morra nunca. A canção se torna um pouco mais popular quando se põe a conversar sobre o risco de se extinguir. José Ramos Tinhorão, Chico Buarque e Tom Zé vendem uns exemplares a mais de seus livros e discos quando cutucam a onça com vara curta.

É um método, e um método perigosamente deturpador. Sob essa ótica, o encolhimento da música erudita e o ocaso da canção popular se devem única e exclusivamente à obra demoníaca de inimigos externos –sejam eles o público “culto” de ouvidos abrutalhados, sejam eles (principalmente) o povão incauto e pronto para deglutir quaisquer dejetos musicais que lhe passarem à frente.

O inimigo -exu que gasta todo seu tempo dançando lascivo em terreiros de candomblé, bailes do morro e festas de aparelhagem– é de uma só tacada o bode expiatório dos males do mundo e o passaporte para a inocência e a pureza atestadas do reclamador. O queixoso, assim, se dá por isento de qualquer responsabilidade sobre o declínio da canção, da erudição, da desigualdade social ou do império romano.

Mais de 30 anos atrás, Raul Seixas fez bruxaria, rompeu o pacto, traiu os ritos que nos formaram como brasileiros. Ele não foi um homem que compreendeu o mundo apenas por intermédio de seu universo interior, infinito particular. Estudioso, graduado e interessado por filosofia & outras bossas literárias, escreveu assim, naquela mesma “Eu Também Vou Reclamar” citada acima: “Olho os livros na estante/ que nada dizem de importante/ servem só pra quem não sabe ler”.

Raul lia, cuspia de volta (não raro de forma invertida) e vertia para o português das ruas aquilo que aprendia nos livros (e fora deles). Ficou conhecido como roqueiro, mas mais que isso era um ideólogo empenhado em se comunicar nas línguas do baião, da MPB, da canção “cafona” dos anos 1970, do “monstro sist” e assim por diante.

Converteu em português supostamente inexato e linguagem coloquial, chula para certos paladares, um ideário de primeira grandeza, como atestam peças como “Medo da Chuva”, “É Fim de Mês”, “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “A Maçã”, “Sociedade Alternativa”, “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”... E foi ouvido ardorosamente, em música & letra, pela massa, e até hoje ainda é assim, mesmo sob as formas anedóticas de covers do maluco-beleza ou do jocoso “toca Raul!”.

Raul é passado, no entanto, tanto quanto são a música erudita e a canção popular como as conhecíamos no século XX. Quem está à solta hoje em dia são dezenas e centenas e milhares de filhotes de Raulzito, gente mais interessada em se comunicar que em se queixar. Curiosamente, os movimentos que essa gente engendra nascem quase sempre dos estratos ditos mais baixos da população brasileira, enquanto a música das classes tidas como médias e altas se trancafia em auditórios fechados, shopping centers, palácios da música tipo Palace ou coisa que os valha, condomínios fechados e carros blindados.

Essa gente se comunica em idiomas de samba, brega, tecnobrega, rap, funk carioca, forró, axé, vanerão, lambadão, pagode, sertanejo, pop e uma infinidade de correlatos. É impossível andar nas ruas de qualquer cidade do país, hoje em dia, e não topar de frente com a cena já histórica daquele carro (calhambeque, muitas vezes) de portas abertas, a caixa de som bombando nos graves, uma turminha se divertindo ao redor. Se a cena for em Belém do Pará, todo um parque de diversões estará escapando dos alto-falantes para o mundo lá fora, cá fora.

Diz-se dessas músicas (menos o samba, que já é tio-avô e merece o respeito dos cabelos brancos) que são toscas, mal-acabadas, “vulgares”. A argumentação “estética” é colocada sempre à frente, em primeiro lugar, eventualmente como escudo mantenedor das muralhas sociais e dos preconceitos arraigados contra pobres, pretos, mulatos, mulheres, travestis, marginalizados em geral –ou não são sempre eles que fazem a música classificada como “ruim” pelos cabeças-pensantes e (de) formadores de opinião?

Os cães latem, e a caravana não para, não para, não para, não. A música “sofisticada” chora seu próprio isolamento e incomunicabilidade reclamando dos excessos de comunicação alheia. Enquanto isso, a música “bruta” se comunica gostosamente, sem lenço e sem documento, som na caixa, mané.

Nessa nova configuração que revolucionou o consumo de música no país e não para de crescer e parir frutos novos, contingentes de gente antes mantida cercada e confinada em profissões de pedreiro, operário, faxineira etc. conquista acesso à internet, à pirataria, à tecnologia e a técnicas ainda toscas de produção musical.

E assim os chamados “pobres” libertam sua música e seu poder de expressão pelo mundo, sob parco aparato técnico e conceitual, mas com vivacidade e criatividade imensas. Aqui, do lado de dentro da bolha de cristal, os chamados “ricos” (e grudados às suas calças os “remediados”) sublimam preparo e conhecimento em desânimo, apatia, estagnação, ressentimento e queixas –queixas apontadas sempre para o outro, nunca para eles próprios.

Em 2010, a música se cansou da prisão-apartamento e da cadeia-shopping-center e está de novo nas ruas, e desta vez sem aporte da indústria fonográfica multinacional e com intervenção cada vez menos importante dos jabaculês televisivos e radiofônicos. As sementes de anarquistas endoidecidos como Raul Seixas foram plantadas com entusiasmo, e tem chovido demais neste Brasil, a ponto de, germinadas, estarem surgindo brotos por todo lado, uma brasa, mora? Trata-se apenas de mais um estágio nessa longa estrada da vida.

É certo que muita coisa nova acontecerá nos próximos anos e décadas, ainda mais se cada vez mais de nós abandonarmos a apatia queixosa em prol da ação livre, leve, solta, bonita e gostosa. E então “Eu Também Vou Reclamar” terá virado peça exclusiva de museu, ao lado do DVD, do CD, do jabaculê, do LP, da fita cassete, do fonógrafo e da pedra lascada.


Publicado em 28/12/2009

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Pedro Alexandre Sanches
É jornalista, crítico musical e autor dos livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004). Blog: www.pedroalexandresanches.blogspot.com



 
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