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dossiê
A CANÇÃO EM QUESTÃO

E quem ouve canção?
Por Henry Burnett

Enquanto não aceitarmos que a música popular é a maior força estética do Brasil, seguiremos desconhecidos de nós mesmos

“Mas o que significa uma ideologia cultural para a qual, fora da forma-canção, só haveria a ausência da imediaticidade da vida? Ou por que nossa ideologia cultural prefere ignorar tudo o que não se submete às amarras da forma-canção?” As perguntas evocadas pela frase acima não são novas, ao contrário, elas reeditam uma questão delicada, e já centenária, sobre o lugar da canção popular no corpo de nossa história cultural. Elas reapareceram algumas semanas atrás num artigo do professor Vladimir Safatle, “Música é prisioneira da canção” (“Folha de S. Paulo”, 23/10/2009); no entanto, a meu ver, elas não reeditam, como ele afirmou, “uma querela bizantina entre música popular e erudita”. O jogo é mais alto.

Seu texto serve também para uma avaliação fina da frase que o motivou, dita pelo compositor Gilberto Mendes: “Se você perguntar a um intelectual brasileiro quais são seus artistas preferidos, ele responderá: Guimarães Rosa, Joyce, Kafka, Volpi, Bergman, Glauber Rocha, Caetano e Chico. Nem Villa-Lobos ou Stravinsky vão passar pela cabeça dele. A música erudita de nosso tempo não existe para a classe culta brasileira”.

Claro que o lugar da forma-canção no Brasil é um entrave para a compreensão crítica de nossa história musical. E nossa pouca cultura erudita/clássica também. Mas então vamos aos fatos: por que o intelectual brasileiro posiciona Chico e Caetano entre Joyce e Bergman? Será por que os cantores-compositores atingiram o nível de sofisticação que o escritor e o cineasta, ou será por que os intelectuais estão mais próximos da vivência do ouvinte-leitor-espectador (a mesma do intelectual?) que da música de György Ligeti ou Flô Menezes? Ou ainda: será que esses intelectuais, na verdade, não leram Joyce ou assistiram aos filmes de Bergman e por isso tem esse gosto duvidoso pela canção? As artes afinal são afins com a vida ou algo que dela se distingue?

O texto de Safatle provoca um estranho incômodo naqueles que ouvem esferas distintas do cancioneiro brasileiro, ou Tom Zé e Belo, Tom Jobim e Zezé di Camargo se equivalem? As formas de nivelamento e crítica culturais atuais dirão que sim, o que exige que os estudos sobre a música popular na universidade –mencionados sem ironia aparente no artigo– não sejam um detalhe menor no cenário da crítica.

Compreender o lugar dessa forma composicional no Brasil é da mesma importância que entender porque Adorno se dedicava ao rádio e ao disco nos EUA quando lá esteve exilado –ainda que seja para enfrentar nossa falha, como se refere Roberto Schwarz ao comentar o lugar das artes do Brasil.

Uma falha, como afirma o crítico, importante para o entendimento do que nos distingue. E isso não é um elogio. Esquecemos sempre que a união brasileira entre a rítmica popular e a poesia culta está fora do esquadro adorniano, pois operou um vínculo que ele não presenciou; mas nem por isso um estudo sério sobre nossa música pode prescindir de Adorno (ler artigo do professor Rodrigo Duarte neste dossiê).

Ainda bem que foi um símbolo da erudição nacional, Antonio Candido, quem afirmou que “na música popular ocorreu um processo (...) de ‘generalização’ e ‘normalização’, só que a partir das esferas populares, rumo às camadas médias e superiores. Nos anos 30 e 40, por exemplo, o samba e a marcha, antes praticamente confinados aos morros e subúrbios do Rio, conquistaram o país e todas as classes, tornando-se um pão-nosso quotidiano de consumo cultural. Enquanto nos anos 20 um mestre supremo como Sinhô era de atuação restrita, a partir de 1930 ganharam escala nacional nomes como Noel Rosa, Ismael Silva, Almirante, Lamartine Babo, João da Bahiana, Nássara, João de Barro e muitos outros. Eles foram o grande estímulo para o triunfo avassalador da música popular nos anos 60, inclusive de sua interpenetração com a poesia erudita, numa quebra de barreiras que é dos mais importantes da nossa cultura contemporânea e começou a se definir nos anos 30, com o interesse pelas coisas brasileiras que sucedeu ao movimento revolucionário” (“A Revolução de 30 e a Cultura”, in “A Educação Pela Noite”, ed. Ática, 1989, p. 198.).

Talvez seja aí que resida a querela. É a forma-canção a nossa mais presente demarcação sociocultural. O fato de que ela seja estudada na universidade (com exceção da maioria absoluta, quiçá da totalidade, dos cursos de filosofia da arte e estética, para quem ela não é um objeto digno) não a transformou em uma arte distinta, representativa. Ainda parece ser fruto desse lugar empobrecido de nossa (fraca) audição estrutural.

Não se ouve música popular hoje como a ouviu Antonio Candido. Se isso vale para a música comercial, o que dizer da música clássica. Qual a diferença entre um leitor de poesia e um ouvinte apurado de canções? Se não há ouvintes para a música contemporânea, tampouco há para as esferas superiores da canção. Nelson Cavaquinho e o Belo são igualmente samba para o ouvinte médio de música comercial.

Agora uma licença para algumas provocações a Antonio Abujamra: Beethoven e Schoenberg são distintos para quem frequenta a Sala São Paulo? O ouvinte refinado (ou rico?) que frequenta os espaços ligados ao “bom gosto” e a “educação” sabe que a música de vanguarda da Segunda Escola de Viena era um antídoto contra governos totalitários? De fato, são perguntas para as quais eu tenho muitas dúvidas. Afinal entretenimento por entretenimento pode ser qualquer coisa, Gilberto Gil ou Osesp.

O Brasil não cultiva a música contemporânea como faz a Europa e a América do Norte, é certo, e é uma pena. Lá a música contemporânea é subsidiada pelo governo, ao que parece. Governos fracos, povo à mercê. Seria o caso de perguntar apenas por que musicalmente isso é incômodo, por que ninguém menciona que lá, na Europa e nos EUA, não se faz canção com a mesma maestria (e ainda por cima se venera a do Brasil)? A culpa não se pode atribuir facilmente.

Talvez, ao contrário do que parece e se propaga, a intelectualidade nacional não seja uma extensão das formas européias que lhe serviram (servem?) de molde. Sendo assim, parece claro que não possamos ter aqui a mesma experiência perceptiva que eles. Um problema de educação, ao que parece? Um “defeito de fabricação” inadmissível, mas real?

Experiência, vivência? Aquilo que Nietzsche exigia dos ouvintes de Wagner, aqueles “filisteus da cultura”? Exatamente; essa vivência que sobra no Brasil, mas que descartamos como sendo fruto apenas do atraso de nosso capitalismo capenga. É mais que isso. Enquanto não aceitarmos que a música popular é nossa maior força estética, seguiremos desconhecidos de nós mesmos. Uma vergonha que vai e vem e nem sequer se compreende.

Exigimos algo da maioria dos nossos intelectuais que eles não podem nos oferecer. A propósito, por que a tensão parte dessa parcela ínfima de brasileiros, os intelectuais? Por que o interesse é pelo que eles (não) ouvem e nem sequer se fala (ou se ouve) a massa amorfa?


Publicado em 28/12/2009

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Henry Burnett
É doutor em filosofia pela Unicamp e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo. http://www.myspace.com/burnetthenry

 
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