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estante

Jerusa Pires Ferreira

Duas coisas norteiam minha atividade de conhecimento e processo de leitura: o trânsito entre diversos segmentos de cultura sem hierarquizá-los e a deslocação por vários lugares do mundo, numa conversão permanente a outras línguas e culturas. Os livros são aqui apresentados em si ou em conjuntos reunidos, a partir de fortes referências e conexões.


1. Le Courage de la Vérité, de Michel Foucault (Gallimard-Seuil, 2009), tem como subtítulo "Le Gouvernement de Soi et des Autres". Trata-se do curso que o filósofo ofereceu no Collège de France, em 1984, pouco antes de falecer. O texto retirado do gravador, e isso é um detalhe importante, respeita as circunstâncias diante das quais o autor apresenta uma espécie de legado/testamento filosófico. Para ele não há uma instauração de verdade sem uma posição essencial da alteridade. É muito interessante sua opção pela filosofia dos cínicos, na Grécia antiga, e a relação com o exercício da democracia.


2. Dicionário Locke, de John W. Yolton (Jorge Zahar Editor, 1996). Muito útil para uma incursão por conceitos e pelo universo dos chamados empiristas ingleses. São verbetes de A a Z que nos vão guiando, numa descoberta crítica das coisas e de suas classificações. Alma, animal, aparência, movimento, representação, convites a quem queira pensar, mesmo sendo, neste capítulo, autodidata como eu, ou um iniciante.


3. Profanações, de Giorgio Agamben (ed. Boitempo, 2007). Um livro fundamental que aborda questões da cultura, a partir de perspectivas inesperadas e renovadoras. Por exemplo, o diálogo com Foucault a respeito do conceito de autor, como aquele sujeito ausente que se procura e com o qual se entra em jogo. Na sequência, e a partir daí, estou lendo La Potencia del Pensamiento - Ensaios e Conferencias (ed. Adriana Hidalgo, 2007), onde encontro materiais para pensar algumas questões que levam à imagem, à memória, ao gesto, à voz, como no interessante capítulo “O Eu, o Olho, a Voz”. Lo Abierto é um outro título de Agamben (ed. Adriana Hidalgo, 2007), uma incursão pela iconologia e pelo bestiário, instalando-nos frente à antiga discussão natureza e cultura e levando-nos a pensar como o humanismo hoje pede outras formulações. Um agudo questionamento sobre os ditos valores e direitos humanos.


4. Sur Parole (La Voix Nue), de Jacques Derrida (Éditions de l’Aube, 1999). Trata-se de um fascinante diálogo radiofônico, que foi ao ar pela France Culture, em dezembro de 1998. Nele, Derrida fala de sua atividade política, intelectual e filosófica, levando-nos a avançar por atos da memória, confissões e impossibilidades de confessar. Ética e estética, interesse e liberdade, o trânsito da vida pessoal à pública, as urgências diante dos acontecimentos do século XX, a mídia e o novo ritmo dos sistemas de informação na cultura -tudo isso é aí discutido com impressionantes clareza e sinceridade.


5. No capítulo "estudos medievais" venho lendo, ao longo de muitos anos, a obra do historiador e semioticista russo Aaron Gurévitch, que tive a oportunidade de entrevistar em Moscou, em 1997, sobretudo Les Catégories de la Culture Médievale (Gallimard, 1983) e El Individualismo Europeu (ed. Grijalbo, 1997). Discípulo de Marc Bloch, seus textos têm uma modernidade que universaliza o fazer da história, passando por detalhes de profundo conhecimento textual e iconográfico e buscando, por sua vez, uma desinstalação do eurocentrismo.


6. Quanto a Paul Zumthor, autor a quem retorno sempre e a partir de quem vou revelando ao público brasileiro novos textos, estou lendo mais uma vez La Mesure du Monde (Seuil, 1993), livro que me acompanha ao longo desses anos, no questionamento das categorias de tempo/espaço. Falando de Idade Média (Perspectiva, 2009) nos traz uma força de aproximação de textos da cultura que contempla o prazer e rejeita qualquer tipo de cientificismo despótico. Uma história de vida, de profissão, de atitudes, rumo à poética. No momento, estou escrevendo um trabalho comparativo sobre esses dois medievalistas para a revista "Vopróssi Litieratúri" (Questões de Literatura), de Moscou.


7. Um outro autor que tem aqui o seu espaço é Henri Meschonnic, cujo livro A Poética do Traduzir (a sair em breve pela editora Perspectiva) foi se transformando numa espécie de lição permanente e convite a outras leituras. Foi assim, e sob sugestão de um capítulo seu, "A Pequena Mulher em Kafka", obra-prima de percepção, das cores ao movimento, que voltei ao escritor tcheco.


8. A América Latina tem ocupado um grande espaço e responde por muitas deslocações que faço atualmente. Aí, sempre tem lugar Ofício de Cartógrafo - Travessias Latinoamericanas de la Comunicacion en la Cultura, de Jesus Martin Barbero (Fondo de Cultura Economica 2002).

O romance Muchas Lunas de Macchu Picchu, do escritor Enrique Rosas Paravicino, de Cusco, nos relata o desmoronamento do Império Inca. Aliás, eu tinha acabado de ler com entusiasmo Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum (Companhia das Letras, 2008), e assim procurei aproximar, de algum modo, os dois escritores.

De Gabo a Mario, de Angel Esteban e Ana Gallego (Espasa, 2009), sobre a amizade e o rompimento de Mario Vargas Llosa e Gabriel Garcia Marques, nos permite seguir o movimento editorial de Barcelona e a história comentada e crítica do boom da literatura latino-americana, fazendo-nos entender, através de fecunda documentação, certas razões culturais e ideológicas que cindiram o continente.

Ainda na mesma direção, Cautivo, de Álvaro Abós (Libros del Zorzal, 2004), um ensaio sobre um famoso painel, em Buenos Aires, de David Alfaro Siqueiros, o muralista mexicano. Uma história episódica que também nos situa no quadro acima referido.


9. Quanto à poesia, destaco, de Robert Melançon, poeta do Québec, Le Paradis des Apparences, um ensaio poético sobre o “real” e a representação, que estou traduzindo. Uma parte foi publicada na revista "Coyote" (vol. 16, 2008). E também Femina (Fundação Casa de Jorge Amado, 1996), importante livro da poeta baiana Myriam Fraga.


10. Contam muito a literatura popular e os estudos sobre memória da edição. Continuo a ler os folhetos de nossa rica literatura de cordel, tanto no que se refere às mitopoéticas ou à comunicação e ao narrado. No capítulo da poesia popular, destaco Os Martelos de Trupizupe, de Bráulio Tavares (Edições Engenho e Arte, 2004).

Tenho relido, com grande atenção, Literatura Oral no Brasil, de Câmara Cascudo, coleção Documentos Brasileiros (José Olympio, 1953). Ele atuou no sentido de propor a inclusão da poesia popular no corpo da literatura brasileira, e é um livro indispensável. E voltei a apreciar O Caixeiro, de Rodolfo Theóphilo (Museu do Ceará, 2003), a partir do fac-símile de 1927, dos mais belos relatos autobiográficos e de memória de um tempo do Nordeste.


11. Les Privilèges, de Stendhal (Ed. Payot, 2007), um pequeno livro que acabei traduzindo para a editora Ateliê, fez com que eu fosse em busca das várias facetas deste escritor extraordinário. Stendhal foi um autor presente em minhas leituras desde muito jovem: O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma, editados pela Globo de Porto Alegre. E, agora, redescubro o autor em seus aspectos mais interessantes de uma rebeldia fundamental. Armance (Estação Liberdade, 2003) é um texto proustiano, tão antes de Proust, em que a memória é uma incursão no mundo falido da aristocracia francesa. Isso levou a um mergulho encantado pela obra do escritor, e terminei adquirindo as Oeuvres Intimes (em dois volumes, Gallimard, 1981 e 1982).


12. Nos estudos culturais, Edouard Glissant, cujo Traité de Tout-Monde (Gallimard, 1997) aproxima a dimensão poética da reflexão antropológica sobre o tema das identidades. Um texto antilhano que nos toca muito de perto. E não poderíamos deixar de fora os escritos do pensador indiano Arjun Appadurai que, em seus inúmeros livros, traduzidos em várias línguas, a exemplo de Après le Colonialisme - Les Consequences Culturelles de la Globalisation (Payot, 2001), nos empresta sua lucidez para enfocar questões cruciais de nosso tempo, como o exílio, a globalização, os nossos temores frente aos outros e a nós mesmos.


13. Em compasso de espera, na estante, estão Felicidade Conjugal, de Lev Tosltói (Editora 34, 2009), em tradução de Boris Schnaiderman, e Avenida Paulista, de Carla Caffé (Cosac Naify, 2009), um estudo gráfico e uma conversa sobre a cidade.


Publicado em 18/10/2009

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Jerusa Pires Ferreira
É professora do programa de pós-gradução em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e do CJE/ECA-USP, coordenadora do Centro de Estudos da Oralidade, do COS/PUS-SP e do projeto Editando o Editor (ECA/USP). É autora de "Armadilhas da Memória", "O Livro de São Cipriano - Uma Legenda de Massas" e "Cavalaria em Cordel".

 
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