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A poeta se encontra aqui procurando como habitar a experiência do presente, que é tão frágil que parece não existir. Esse desejo é tão intenso que em mais de uma ocasião no livro, a poeta fala em “precisar acreditar na existência do mundo”, “preciso acreditar na minha casa”, “é preciso de soslaio/ escapar”, “era preciso alçar as estrelas/ antes que fosse tarde”, “é preciso rasgar/ estancar o sangue// tentativa de habitar algum lugar em meio ao bolor”; ou ainda, numa outra forma de construção, mas com a mesma intenção, ela diz “Um pouco em tua homenagem/ exercito/ colher retalhos/ e restaurar”.

Essa poesia inicial de corte modernista, de concisão apreendida na tradição da poesia brasileira, vai abrir espaço para um verso mais longo, que já não cabe mais na página, que quer se expandir a todo custo, a partir do segundo livro. A própria lógica dos poemas –formar um todo claro e sequencial– também parece não conter, para a poeta, a experiência do mundo.

Ela vai precisar deixar de lado o corte do verso feito basicamente no final de cada unidade de frase para buscar um ritmo mais amplo, mais inusitadamente musical. O que antes era um monólogo –a poeta e seu “enxame de experiências”, como dizia Marcos Siscar, na orelha do primeiro livro–, agora é um cruzamento de monólogos.

“Como Se Caísse Bem Devagar” é composto por poemas sem títulos e que buscam criar uma unidade, rompendo inclusive com a autonomia de cada um deles. Eles passam a se comunicar quase que sem separação clara, a não ser a mudança de página, mas mesmo assim, o leitor não sabe direito se um outro poema, ou uma continuação.

Como nota bem o poeta Armando Freitas Filho, a comentar a poesia de Annita, há a sensação de uma “reescrita ininterrupta que não permite que se destaque qualquer trecho, ou linhas, ou versos, pois, na verdade, mesmo que este corpo exposto seja feito de poemas, ele, como não poderia deixar de ser, é orgânico, tem uma sequência, digamos, biológica, que não permite, sem que haja prejuízo, qualquer desembramento”;

Essa construção leva a um tipo de poesia em que o épico e o dramático são mobilizados pela poeta no jogo da desidentificação do “eu lírico”. Como ela mesma dirá: “você procura um drama ideal uma dramatização/ em forma de ovo em forma de uma/ superfície para passar intensidades”.


Fantasma inesperado

Em Angélica Freitas (nascida em Pelotas, em1973), autora de “Rilke Shake” (Cosac Naify, coleção Ás de Colete), a intimidade é vista por outro ângulo. Ela avança por um campo difícil, que é o do humor diante da experiência contemporânea e da memória pessoal. Ao contrário da poesia de Paula, ou de Annita, o elemento principal da construção poética de Angélica é a narração.

O título do livro faz ligação direta com a poesia dos anos 70, numa atitude típica com trocadilho com função de juntar o universo erudito ao pop –o nome do poeta alemão Rainer Maria Rilke e o velho e bom milk-shake. No entanto, parece que no fundo há um diálogo silencioso com um dos nossos maiores modernistas, Carlos Drummond de Andrade (que a poeta, em entrevista, chegou a dizer que não era uma grande leitora, mas a presença do mineiro surge por vias tortas).

Muito já se disse de sua ligação com Leminski, mestre no jogo de palavras com finalidades humorísticas e críticas, principalmente por Angélica se apoiar muitas vezes nas rimas, como fazia o curitibano. Mas a presença de Drummond parece ser maior, principalmente o primeiro Drummond, de “Alguma Poesia” e “Brejo das Almas”. Há um tipo de humor que não nasce das palavras em si, do jogo possível de assonâncias e referências, mas sim do assunto. Do olhar da poeta para as coisas da vida mais cotidiana, mais comum, de classe média.

No caso de Angélica, a sombra do itabirano parece rondar "Rilke Shake" como um fantasma inesperado. O próprio Rilke, vale dizer, fica restrito ao trocadilho do título, que tem aquele ar de anos 70, ou ainda 80, na rabeira da poesia marginal. Em Drummond, havia a possibilidade de acionar a ironia por meio de situações cotidianas e banais. O primeiro poema de "Rilke Shake" não deixa de ecoar o famoso poema das “Dentaduras Duplas”. Talvez esteja aqui o primeiro eco inesperado.

Diz a poeta, já colocando em ação seu procedimento de aproximações e brincadeiras:

Dentadura perfeita, ouve-me bem:
não chegarás a lugar algum.
são tomates e cebolas que nos sustentam,
e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita.
ah, sim, shakespeare é muito bom,
mas as beterrabas, chicória e agrião?
e arroz, couve e feijão?
dentinhos lindos, o boi que comes
ontem pastava no campo. e te queixaste
que a carne estava dura demais.
dura demais é a vida, dentadura perfeita.
mas come, come tudo que puderes,
e esquece este papo,
e me enfia os talheres.


O diálogo se arma entre o “eu lírico” e a dentadura —no caso da poeta, uma dentadura perfeita; e no caso de Carlos Drummond de Andrade, a prótese. O procedimento que vale destacar é sempre o desarme da narração lírica criada pelo escritor. Em outras palavras, assim como Drummond lançava mão de J. Pinto Fernandes, no famoso “Quadrilha”, algo que interrompe o fluxo que vinha seguindo o poema, em Angélica também há uma interrupção abrupta, nonsense e com boa dose de humor, mas a partir do nosso presente.

Claro que há diferenças históricas, que não podem ser desprezadas. Em Drummond, havia a preocupação modernista de superação do atraso, de busca das peculiaridades nacionais etc. Havia um desejo de construção. Hoje, a preocupação não tem como se dar da mesma forma, já vivemos sob o impacto da globalização do mercado e dos corpos.

Há uma espécie de vai-e-vem da classe média pelo mundo, que poderia significar ampliação do horizonte do conhecimento e em novas experiências. Mas o que se percebe, se tomarmos a poesia de Angélica como representativa de nossa época, é que essas experiências surgem esvaziadas e o horizonte se reduz à própria mercadoria do conhecimento. Ou seja, algo como um shopping center.

Angélica como que vestiu essa camisa, deu voz a esta mobilidade imóvel, entrando em assuntos atuais, como a homossexualidade, que está presente em vários de seus poemas, mas já enfiada no fluxo da vida, sem fazer panfleto de defesa, mas apontando o que ela repete dos hábitos machistas tradicionais. Na revista de poesia "Modo de Usar & Co.", Angélica publicou o longo e belo poema “O livro rosa do coração dos trouxas”, no qual se pode ler, na parte III:

as mulheres são
diferentes das mulheres
pois
enquanto as mulheres
vão trabalhar
as mulheres ficam
em casa
lavando a louça
e criam os filhos
mais tarde chegam
as mulheres
estão sempre cansadas
vão ver televisão.


Assim, a própria experiência homossexual apresenta sua face mais banalizada possível, sem a pedra de escândalo que foi no passado, quando procurava se afirmar num mundo canhestro. Ela já se encontra no ritmo do cotidiano, acomodada no arroz e feijão das vidas afetivas de classe média.

Os poemas de Angélica são geralmente montados como pequenas narrativas, como podemos ver neste “a mina de ouro de minha mãe & de minha tia”:

se chamava
ilha da feitoria
ou ilha do meio
onde as duas vendiam
cosméticos avon
chegavam de bote
motorizado
com fardos de produtos
batons rímeis perfumes
e sobretudo rouges
eram recebidas
pelas donas de casa
cabeludas
bigodudas
panos de prato no ombro
filhos ranhentos no colo
minha mãe & minha tia procediam
ao embelezamento das nativas
devolviam-lhes cores
às faces
todo o espectro de cores
de um céu de fim de tarde
na lagoa dos patos
azuis e roxos e laranjas e rosas
e depois lhes emprestavam
espelhos
as donas de casa da ilha do meio
compravam muita maquiagem
minha mãe & minha tia
enchiam sacos de dinheiro


Haveria ainda outros poemas de Angélica para comentar, como “Família Vende Tudo”, um dos pontos altos de seu livro, e que parece ressoar aquela pasmosa família de classe média de “Família”, em Drummond.

Mas para terminar esta notícia sobre a poeta, um dos nomes fortes da nova lírica, deixo para o leitor a possibilidade de comparar dois poemas e perceber a retomada de um tema e a sua mudança de perspectiva acionada por Angélica, que fala muito sobre nossa época, onde a utópica “gentileza” sonhada por Drummond não se concretizou no plano da vida social –o afastamento das classes apenas aumentou. O primeiro é “Morro da Babilônia”, de "Sentimento do Mundo", de Drummond; e o segundo “versus eu”, é de "Rilke Shake", de Angélica Freitas:

Morro da Babilônia

À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).

Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.

Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.


Agora, o pequeno poema de Angélica:

versus eu

lá embaixo um samba que não me chama
pois não conhece o meu nome


Publicado em 17/10/2009

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Heitor Ferraz
É poeta, jornalista e professor de jornalismo cultural na Fundação Cásper Líbero. É autor, entre outros, de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

 



 
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